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(A) :: Tempestades. "O dinheiro que está a chegar às pessoas é das seguradoras, não é do Estado", afirma líder da associação do setor

Tempestades. "O dinheiro que está a chegar às pessoas é das seguradoras, não é do Estado", afirma líder da associação do setor

Líder da associação de companhias de seguros diz que reação do setor às tempestades mostrou que "é um mito" que estas coloquem entraves na altura de pagar. Pelo contrário, estão a adiantar pagamentos.

Edgar Caetano
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É, um bocadinho, um mito” que as companhias de seguros tenham tendência para colocar entraves na hora de pagar aos clientes – e a reação que as empresas do setor tiveram perante a tempestade Kristin e as intempéries que se seguiram mostra isso, garante o líder da Associação Portuguesa de Seguradores (APS). As companhias não só estão a responder aos pedidos como estão, até, garante, a fazer adiantamentos de dinheiro antes mesmo de os processos estarem concluídos.

Em entrevista ao Observador, José Galamba de Oliveira afirma que, neste momento, “o dinheiro que está a chegar às famílias e às empresas é dinheiro das seguradoras, não é do Estado“, porque este tem processos “mais lentos” e outras prioridades numa emergência. Isso é uma “lição para todos”, incluindo para os responsáveis políticos que nos últimos anos nunca tiraram do papel os planos de criar um fundo para catástrofes climáticas e sísmicas. Agora, o responsável diz estar “mais confiante” de que algo nesse sentido vai ser criado.

José Galamba de Oliveira confirma, também, que o setor segurador continuou em 2025 a ter crescimentos elevados – de dois dígitos, em vários segmentos – devido ao aumento do número de clientes (só nos seguros de saúde são já mais de 4 milhões de contratos) e ao aumento dos custos cobrados pelos prestadores de serviços, incluindo os serviços médicos.

O presidente da APS reconhece que “não é sustentável” que os prémios continuem a subir ao ritmo dos últimos anos, pelo que partilha da preocupação de Gabriel Bernardino, presidente do supervisor dos seguros (a ASF), que disse estar preocupado com o risco de os seguros de saúde virem a tornar-se incomportáveis para uma larga maioria das pessoas.

Tempestades terão destruído 3,5 a 4 mil milhões. Só 750 milhões serão indemnizados

O presidente de uma das principais seguradoras em Portugal, no início de fevereiro, estimou que a tempestade que atingiu o centro do país poderia levar a que o setor pagasse indemnizações na ordem dos 500 milhões de euros. Mas a APS já está a estimar um valor mais elevado…
Sim, temos neste momento uma estimativa superior. Na última avaliação que fizemos, a partir de conversas com os nossos associados, estimamos que esse valor possa chegar aos 750 milhões de euros. Ou seja, 50% acima desse valor inicialmente estimado…

Até que ponto é que o setor está preparado para isso? Quanto está coberto por resseguros, por exemplo?
O grosso deste valor está, de facto, ressegurado. Diria que essa é uma das características deste setor, deste modelo de negócio do setor segurador, em que as responsabilidades são partilhadas à escala global através das grandes resseguradoras internacionais. Isso é uma mais-valia para situações como esta, porque o custo não ficará todo em Portugal.

https://observador.pt/2026/02/20/dano-gigantesco-custo-das-tempestades-pode-ascender-a-seis-mil-milhoes-de-euros-admite-chefe-da-estrutura-de-missao/

Ainda assim, Paulo Fernandes, o líder da estrutura de missão que foi criada, admitiu numa entrevista ao jornal Público que os danos totais causados pelas intempéries podem ascender a seis mil milhões de euros, ou seja, cerca de dez vezes mais do que esses valores de que fala. Estamos a falar de valores comparáveis, uns com os outros, ou não?
Não, não são comparáveis. Os seis mil milhões de euros são uma estimativa oficial das perdas económicas totais – uma boa parte disso diz respeito a infraestruturas públicas, nacionais, municipais, estradas, pavilhões, etc. E muitos deles não têm sequer seguro, porque o Estado faz muito auto-seguro. Não quer dizer que não se possa segurar, mas, tipicamente, esse tipo de bens não estão ao abrigo de apólices de seguro.

Então o que é que seria mais comparável com as vossas estimativas de indemnizações?
Uma base mais comparável pode ser um valor que estará entre os 3,5 mil milhões, ou 4 mil milhões, que é neste momento a estimativa que existe para as perdas económicas relacionadas com as habitações e com o mundo das empresas: comércios, indústrias e empresas de serviços. E, portanto, 750 milhões, comparando com quatro mil milhões, ainda assim há uma boa parte dessas perdas económicas que não está segura. Esse é um dos problemas que existem em Portugal – de facto, a penetração do seguro é muito baixa, bem abaixo da média que existe na Europa.

Não é meteorologista, mas queria perceber qual é a visão do setor segurador. Considera que este foi um evento “normal” dentro da variabilidade histórica ou pensa que foi já algo que se encaixa num padrão de maior frequência ou maior intensidade deste tipo de fenómenos?
Isto foi, claramente, um fenómeno que teve uma severidade que ficou acima do que estaríamos à espera. Mas a verdade é que quando nós olhamos para os últimos 20 anos – e nós temos essas estatísticas compiladas dentro da própria APS – vemos uma frequência cada vez maior e uma maior severidade de fenómenos climáticos. Nos últimos 20 anos, em termos de perdas seguras, o setor segurador pagou mil milhões de euros. 40% disso foi na primeira década. 60% disso foi já na segunda década e, portanto, há claramente um aumento. E, agora, com isto, temos em apenas um ano 75% do valor dos últimos 20 anos.

Está a acelerar a frequência de catástrofes extremas…
Está a acelerar, a frequência está a aumentar – isso é indiscutível. Nós vemos muito mais eventos desta natureza a acontecerem na última década do que há 20 anos.

Em comparação, o evento pior neste aspeto, que compara com os tais 750 milhões, tinha sido os incêndios de 2017?
Em 2017 o valor total assumido pelas seguradoras foi de 250 milhões de euros. Não tinha havido, nos últimos 20 anos, nenhum evento com custo superior a esse para o setor segurador… Este ultrapassou…

Em três vezes…
Sim. Outra base de comparação, nós tivemos a tempestade Leslie há uns anos, que foi também uma tempestade que entrou na zona centro. O valor nesse ano foi de 100 milhões de euros. No ano passado tivemos dois eventos em Portugal, a tempestade Martinho, que foi em março de 2025, e tivemos depois a depressão Claude, já no final do ano passado. Esses dois, somados, foram 100 milhões de euros. Agora, estamos a falar de 750 milhões – é outra ordem de magnitude e um evento que obviamente não é expectável que aconteça no próximo ano e nos próximos dois. Estes acontecimentos vêm sendo mais frequentes, mas o nível de severidade ultrapassou todas as expectativas.

"3,5 mil milhões, ou 4 mil milhões, é neste momento a estimativa que existe para as perdas económicas relacionadas com as habitações e com o mundo das empresas. 750 milhões seguros, comparando com quatro mil milhões, ainda assim há uma boa parte dessas perdas económicas que não está segura."

Já passou mais de um mês desde a tempestade Kristin, qual é o balanço que faz da forma como o setor segurador lidou com este problema, a forma como conseguiu gerir as intempéries e ao mesmo tempo manter também o serviço normal no resto do país?
Foi um desafio tremendo, obviamente ninguém está preparado para uma catástrofe desta dimensão. Houve o evento do Kristin mas, depois, houve uma série de outras tempestades que vieram a seguir e prolongaram esta situação crítica ao longo de várias semanas. Houve quebra de comunicações, houve estradas [que ruíram], houve zonas do país que ficaram inacessíveis. Em alguns casos, houve participações de seguro e os peritos não conseguiam ir ao local ver o que se estava a passar. Ou as pessoas não conseguiam sequer reportar, porque não tinham comunicações ou não tinham eletricidade. Mas o setor apercebeu-se muito rapidamente da dimensão desta situação, em especial no distrito de Leiria… Do número de participações que entraram, que até à data foram cerca de 150 mil, um pouco mais de metade delas foi no distrito de Leiria. Movimentaram-se rapidamente equipas multidisciplinares para o terreno, peritos, gestores de sinistros, gestores comerciais, equipas de suporte administrativo, etc. Algumas companhias montaram em contentores postos de atendimento, carrinhas móveis que andaram nas freguesias a tentar apoiar quem mais precisava. No caso dos peritos, eles estão espalhados um pouco por todo o país, portanto, houve a necessidade de realocar essas pessoas de outras zonas do país para reforçar…

Acabaram por prejudicar a atividade normal no resto do país…
Sim, tivemos de nos ajustar um bocadinho porque obviamente naquele momento a capacidade e a urgência da resposta era muito grande naquela zona – e esse esforço foi feito. E depois foi feito um esforço de simplificação. As equipas foram para o terreno com maior autonomia para tomar decisões rápidas, especialmente nos danos de montante mais pequeno. Houve danos em que não houve necessidade de peritagem, a participação foi feita com base em fotografias ou vídeos. Foi indemnizado o lesado, muitas vezes, em 48 horas. Tudo isto foi muito agilizado porque esse era o grande objetivo, tentar rapidamente resolver o problema de quem mais precisava.

Que lições é que tirou de uma situação muito grave, que foi relativamente concentrada geograficamente, mas que acabou por testar os limites das empresas seguradoras?
O que nós sentimos – e isso não é uma coisa de agora – é que, em Portugal, precisamos de ter algo mais estrutural para termos de resposta para situações como esta. A penetração do seguro é muito baixa nas habitações, só metade das habitações em Portugal é que têm seguro. Nós tivemos 90 mil participações relacionadas com a habitação, o que quer dizer que se aplicarmos uma regra muito simples, provavelmente o impacto foi em 180 mil casas. Nas outras 90 mil as pessoas vão ter de suportar os custos económicos. E o mesmo se passa nas empresas, ainda que a penetração dos seguros seja um bocadinho superior, ligeiramente acima dos 50%. Numa situação como esta, o seguro é muito importante, é a forma mais rápida de as pessoas voltarem à normalidade das suas vidas, podendo ser ressarcidas das perdas económicas e não estarem à espera do Estado. Nas catástrofes, o Estado tem como prioridade resolver o problema das infraestruturas públicas, e aqui viu-se isso – eu nem quero pensar num sismo o que é que podia acontecer. Acho que há aqui um exercício de literacia de risco que é preciso incutir na população em geral, nos empresários, em que temos de conhecer os riscos que corremos e temos de comprar seguro para nos protegermos e não estar à espera de mais um apoio, de mais um subsídio, para resolver o problema.

Seguradoras colocam entraves na hora de pagar? “Isso é, um bocadinho, um mito”

O problema também, muitas vezes, é existe uma perceção de que as seguradoras – não sei se foi o caso aqui, dir-me-á se foi ou não – as seguradoras, às vezes, na hora de pagar, colocam alguns entraves…
Eu acho que isso é, um bocadinho, um mito. Os processos de sinistros das empresas são sempre mais complexos, na medida em que muitas vezes envolvem maquinarias específicas, é preciso virem orçamentos de fora… Demora mais tempo a fechar o processo. Mas o que as empresas de seguros estão a fazer, com base em estimativas muito preliminares, é adiantar fundos por conta da indemnização final – não estão à espera de que se feche o processo para se pagar a indemnização. A verdade é que se for para o terreno, hoje, os dinheiros que estão a chegar às famílias e às empresas são das seguradoras. O Estado tem um processo que é mais lento, que eu também percebo, porque tem regras muito mais finas, de controlo de para onde é que vão os fundos, etc. E, portanto, acaba tudo por ser bastante mais lento. Eu acho que o poder político agora percebeu também: nós temos vindo a defender que em Portugal é necessário termos a funcionar um sistema de proteção de risco catastrófico para situações como esta, grandes eventos climáticos ou eventos sísmicos.

Mas o que é que aconteceria na prática? As empresas do setor iam contribuir para um fundo, as pessoas iam contribuir, o Estado ia contribuir…?
Há modelos muito diferentes, mas o modelo que nós preconizamos em Portugal é um em que o Estado, através de um processo legislativo, crie uma entidade que vai gerir um determinado sistema que vai gerir determinados montantes relacionados com fenómenos climáticos ou sísmicos. Isto parte do princípio de que cada pessoa tem de segurar o seu bem, a sua habitação, a sua loja, a sua empresa e, portanto, a componente de prémio relacionada com esta cobertura de natureza catastrófica, canalizada para este sistema, permite ao sistema fazer várias coisas – uma delas é comprar resseguro internacional. E a segunda, obviamente, é que o excedente se vá acumulando num fundo. Estes fundos existem em muitos outros países que, obviamente, vão acumulando ao longo dos anos capital para poder ser disponibilizado mais rapidamente. Isto obriga a um alargamento da base de quem contribui, tornando obrigatória a cobertura para fenómenos destes… Todos pagamos um bocadinho para que haja fundos para ajudar aqueles que precisam.

Sem isso, o que acontece?
Sem isso, aqueles que têm seguro, as seguradoras dão uma ajuda.. [Sempre que acontece algo] fica-se à espera, mais uma vez, de fundos públicos, do Estado português, ou da comunidade europeia… O Estado disponibilizou um pacote de ajudas, em que para as empresas basicamente são linhas de crédito. Mas o que é preciso é responsabilizar os negócios e as empresas, porque é do seu interesse próprio fazerem seguro. Para as famílias, no caso das habitações, nós defendemos a obrigatoriedade [do seguro], mas isso cria problemas para os quais tem de se pensar numa solução. Estas soluções existem lá fora, não temos que inventar nada, temos que perceber como é que se pode aplicar em Portugal. Ao tornarmos obrigatória a cobertura de fenómenos da natureza para as habitações, provavelmente pode haver famílias com carências que não conseguem comprar o seguro. Essa é uma realidade que nós sabemos que em Portugal existe, pessoas que vivem com pensões muito baixas mas que têm a sua própria casa. Dentro deste mecanismo, temos de encontrar um mecanismo de solidariedade, de apoio a quem precisa. E, depois, temos uma segunda situação: habitações que ou são construção ilegal, ou construção em leito de cheias que tem um risco muito alto e, portanto, tipicamente, tem prémios muito altos. Também aí tem de se arranjar uma solução porque, obviamente, muitas das casas que estão construídas em leito de cheias, elas estão legalmente construídas, foram licenças atribuídas há muito tempo, e portanto, temos todos enquanto sociedade de assumir isso…

No caso dos sismos, é curioso que há poucas semanas a APS estava a ter uma conferência no Centro Cultural de Belém e houve um sismo durante essa conferência… Tem havido alguns progressos nesta matéria ou não tem? Vê alguma coisa a surgir nesse aspeto?
Nós temos, de facto, vindo a defender a criação deste sistema de proteção de riscos catastróficos. A nossa prioridade número um é que tivesse um pilar sísmico como primeira fase e, depois, sempre assumimos que um pilar 2 seria para os riscos climáticos, que podia ficar para uma fase seguinte. A verdade é que, apesar das propostas que fomos fazendo ao longo dos anos, isto não captou a atenção política. Isto tem de haver sempre um momento em que entra na agenda política, e a verdade é que esta tempestade, este comboio de tempestades, trouxe isso para a agenda política. Eu já ouvi o Governo dizer que isto agora é uma prioridade.

No governo anterior, sentiu que não havia abertura?
Não, porque se calhar não foi a prioridade, nem de governos anteriores. Eu acho que, agora, todos perceberam que é preciso fazer alguma coisa. Eu já ouvi vários membros do governo, inclusive o primeiro-ministro, a falar nessa necessidade de termos um mecanismo de proteção de risco catastróficos. Aliás, o programa PTRR fala nisso…

A ASF há poucos anos apresentou um plano ao governo, ainda no tempo do governo anterior, não saiu nada daí?
Apresentou ao governo da altura, foi entregue no Ministério das Finanças uma proposta concreta, que era focada no risco sísmico, e agora o que a ASF está a fazer precisamente é alargar o seu âmbito para que incluir os fenómenos climáticos.

E está confiante que vão passar do discurso para as ações?
Eu estou mais confiante porque também tenho algum diálogo com os partidos na Assembleia da República e também – eu vejo isto, hoje em dia, muito presente nas agendas políticas dos principais partidos.

“No médio prazo, é de subida a tendência” dos prémios de seguro de saúde

Há poucos meses, o novo presidente da ASF, o regulador dos seguros, Gabriel Bernardino, disse numa entrevista ao Jornal de Negócios que o preocupava o risco de os seguros de saúde poderem tornar-se incomportáveis para a maioria das pessoas… Ou que, então, as seguradoras iriam optar por reduzir os benefícios e as comparticipações. É um receio que faz sentido na sua leitura?
O seguro de saúde em Portugal é, tipicamente, um seguro anual, não é um seguro pluri-anual. E, portanto, basicamente todos os anos, no cálculo do prémio para esse ano, leva-se em conta a sinistralidade passada, por um lado, e obviamente o aumento de custos que muitas vezes vem do lado dos prestadores…

Dos serviços médicos…
Dos serviços médicos, das clínicas, dos hospitais, etc. Temos tido isso em Portugal e tivemos, de facto, a seguir a 2022, picos de inflação em que os custos médicos dispararam brutalmente. E, obviamente, isso teve de ser refletido no prémio do seguro. As seguradoras têm uma vantagem que é ter algum poder de negociação junto desses prestadores, mesmo dos grandes grupos.

Quem é que tem mais poder nessa negociação? As seguradoras ou os grupos de saúde?
Bom, isso é sempre relativo, mas seguramente [as seguradoras] têm mais poder do que se fosse cada um, individualmente, a fazer essa negociação. Esse aumento não foi, na totalidade, repercutido nos prémios, mas a verdade é que houve aumentos importantes. Nós temos uma situação em Portugal, em que mais de metade dos prémios [em seguros de saúde] são seguros de grupo, são seguros das empresas. E as empresas, para controlarem esse aumento em termos de custo para elas, muitas vezes resolveu-se o problema reduzindo alguma cobertura ou reduzindo alguns capitais. Isso foi uma realidade. Do lado dos particulares, tipicamente a maior parte dos seguros manteve-se, os particulares assumiram esse custo adicional. Mas têm também, hoje em dia, quando comparamos os capitais médios dos seguros de grupo e os capitais médios dos particulares, os dos particulares têm capitais mais altos e têm mais coberturas, estão mais protegidos, para todos os efeitos…

Mas, então, o receio de Gabriel Bernardino faz sentido ou não? Numa ótica de médio prazo, longo prazo…?
Faz sentido… Nós temos um problema em Portugal que é termos uma população a envelhecer. A média etária dos beneficiários de seguros de saúde, nas carteiras de seguros, todos os anos cresce um bocadinho. Obviamente isso não é um problema no próximo ano, ou nos próximos três, mas se olharmos a 10 ou 15 ou 20 anos, muitas das pessoas que hoje têm 40 anos vão estar nos 60 e vão ter outro nível de consumo relacionado com o tema da saúde – porque vivemos hoje mais, e ainda bem que assim é, mas também isso implica, muitas vezes, doenças crónicas que são identificadas as demências, as oncologias, enfim, doenças que hoje em dia têm tratamento mas que é, muitas vezes, é custoso e sobre vários anos. Portanto, é uma realidade que, no médio prazo, a tendência destes custos é de subida.

Como é que se resolve este problema?
Resolve-se este problema, se calhar, pensando em seguros plurianuais, como existem muitos outros países. Em contraste com um seguro anual, aqui há um compromisso mais de longo prazo entre quem compra o seguro e a seguradora, e portanto as pessoas têm um pagamento mais alisado. Ou seja, começamos a pagar a todos mais alguma coisa enquanto somos mais novos e vai-se criando uma provisão para que, nos momentos mais tarde, que precisamos de mais ajuda, os aumentos depois não sejam tão grandes.

E implica não mudar de seguradora.
Sim, mas, por exemplo, na Irlanda há um esquema que é quando se muda de seguradora, há uma componente do prémio que está provisionada que vai atrás, que se consegue levar para outra seguradora, porque é um direito seu. Há muitos modelos e isso é um exercício que valeria a pena fazer aqui em Portugal, porque o modelo atual tem alguns problemas no médio longo prazo. Isso é indiscutível.

Mais de quatro milhões de seguros de saúde porque “acesso ao SNS ficou mais difícil”

Segundo dados da própria ASF, nos últimos cinco anos, o preço médio das apólices dos seguros de saúde subiu quase 41%. Mesmo tendo em conta que houve um surto inflacionista pelo meio, o que é que explica este aumento? Há pouco falou sobre o aumento dos custos dos serviços médicos, do envelhecimento da população, mas o que é que justifica?
Houve, de facto, duas razões principais que justificaram este aumento. O primeiro, como há pouco disse, é o custo dos prestadores que nos chega, do lado dos hospitais, das clínicas, o custo de fazer exames médicos, tudo isso tem tido uma inflação grande. Mas há um segundo fator que é a frequência da utilização do seguro. Quando nós comparamos o número de pessoas que têm, hoje, seguro e que de facto utilizam o seguro, ele está agora na ordem de 75%. Quando comparamos com há alguns anos, esse número subiu bastante. E subiu pela dificuldade de acesso do SNS. De facto, venderam-se mais seguros, hoje em dia os seguros cobrem um maior número de beneficiários em Portugal…

São quatro milhões?
São acima, já, dos quatro milhões, com um aumento grande nos últimos cinco anos. Subiu, praticamente, um milhão e tal de novos beneficiários. Havia pessoas que até tinham seguro mas continuavam a ir ao SNS mas, entretanto, deixaram de ir ao SNS, porque já não conseguem marcar uma consulta, ou o médico de família que lá tinham já se reformou e agora não tem outro, enfim, há muitas razões. Mas o acesso tornou-se mais difícil. E estes novos compraram seguro precisamente para poderem ter um acesso que não conseguem no SNS. As dificuldades sentidas pelo SNS estão a ser compensadas pelo setor privado e as pessoas compram o seguro por isso. E, portanto, obviamente essa frequência aumentou, há mais gente a utilizar e este é o impacto, obviamente, nos prémios.

Qual é o papel do regulador quando se fala em aumento de prémios?
O papel da regulação, aqui, é um papel de, acima de tudo, supervisionar se aquilo que está a ser feito é razoável.

"Hoje em dia já não há esse mito que havia há uns anos de que quando era complicado ia-se para o público. Hoje em dia, os grandes grupos hospitalares estão muito bem apetrechados, têm os melhores médicos e nesse aspeto não creio que haja já essa diferenciação."

Mas quando vemos o presidente da ASF, no fundo, a veicular esta preocupação, é mais do que uma preocupação de uma pessoa normal…
Seguramente que é uma preocupação. A preocupação do Dr. Gabriel Bernardino também é nossa preocupação: é saber como é que damos mais proteção às pessoas no médio e longo prazo. Porque obviamente não é sustentável pensar que conseguimos aumentar todos os anos 20 ou 30%, ou 10 ou 12%, o que for, numa forma continuada. Há aqui uma preocupação de criarmos soluções para que as pessoas possam continuar a comprar seguro e estarem protegidas. O SNS continua lá e é muito importante que continue, mas terem uma alternativa, para aquelas que faz sentido procurar uma alternativa. A supervisão pode, obviamente, e deve, ver qual é que é o resultado técnico deste ramo – e esses números o regulador tem-nos – e perceber se há ali alguma situação estranha de abuso de preços. O que eu posso garantir é que não há: nós tivemos anos em que os resultados técnicos do ramo saúde foram zero ou até negativos, no passado e portanto…

Não é por uma questão de margens…
Não é por uma questão de margens. Aliás, é como estou a dizer. Se forem ver os resultados técnicos, não estão lá as margens nos últimos anos.

No fundo, o que estamos a falar aqui é de garantir que o seguro continua a ser um instrumento de inclusão e não de exclusão, na sociedade.
Sim, e eu acho que, apesar de tudo, hoje é. Vejo vários estudos que demonstram que, por exemplo, nos pacotes de remuneração das empresas, isto é um benefício mais valorizado – há uns anos era ter um automóvel, agora não: é ter um bom seguro de saúde. As pessoas continuam a valorizar o seguro e nós queremos que continue a ser assim, que as pessoas deem valor a este mecanismo de partilha de risco. Eu espero que isso continue por muitos e bons anos, porque isso tem diferenciado o seguro de saúde, que, de resto, nos últimos sete ou oito anos, é o ramo que tem mais crescido em Portugal. No ano passado teve um crescimento mais modesto, 12%, no ano anterior tinha sido 18%…

É um sintoma da fragilidade do SNS?
Claramente. Nós sentimos que tem havido uma dificuldade de acesso, uma dificuldade em marcar consultas, principalmente em consultas de especialidade no SNS, e a falta de médicos de família. Hoje há muitas famílias que o seu médico de família é alguém do privado, pelo facto de não ter um médico de família no SNS. Isso levou, claramente, em especial a seguir a pandemia, a que o número de novos seguros tenha aumentado e tenhamos mais beneficiários em consequência dessa preocupação das pessoas com a sua saúde. Querem, pelo menos, ter uma alternativa ao SNS. Ou seja, no dia em que precisarem, ter uma alternativa, ‘olha, eu não consigo marcar no SNS, então marco naquele lado’…

A questão é que, muitas vezes, quando são problemas de saúde muito graves, recorre-se ao SNS… ou não é assim? E às vezes até com o mesmo médico, em que dá consultas no privado e depois…
Bom, há casos que conhecemos e que são noticiados, mas aí a entidade reguladora da saúde tem tido um papel importante – e eu acho que é importante que continue a ter. Hoje em dia já não há esse mito que havia há uns anos de que quando era complicado ia-se para o público. Hoje em dia, os grandes grupos hospitalares estão muito bem apetrechados, têm os melhores médicos e nesse aspeto não creio que haja já essa diferenciação – ou que deva haver essa preocupação para as pessoas relativamente ao tipo de tratamento que possam ter no privado quando comparado com o SNS.

Médicos recusam dar consultas com seguros? “É uma realidade que sabemos que existe”

A ASF lançou, há vários meses, os chamados de “Seguro de Saúde Padrão”. Como é que está a ser a adoção por parte das empresas seguradoras, está a haver a procura e a ser lançada oferta?
Oferta sei que há, há pelo menos uma seguradora que anunciou recentemente que tem essa oferta no mercado. Suponho que haverá outras também a preparar, porque é uma coisa que tem ainda poucos meses. Procura eu admito que também haverá, mas não tenho muita informação sobre isso. Aquilo é um seguro cuja grande virtude é permitir a comparabilidade mais fácil, porque obviamente os seguros de saúde são diferentes entre as várias seguradoras – o nível de coberturas, o nível de capitais – e eu reconheço que, se calhar aí, às vezes, pode ser difícil para as pessoas perceber como é que este compara com aquele.

Mas não está a arrancar de forma muito rápida…
Não está, porque a verdade é que há duas realidades. Os seguros de grupo não encaixam naquele padrão, de todo. Os seguros de grupo são seguros muito customizados à realidade da empresa – por exemplo, uma empresa tecnológica, com médias etárias de 30 ou 40 anos, é uma coisa, se for para empresas onde a maioria dos trabalhadores tem 50 ou 60 anos, as coberturas já são outras.

É mais para as pessoas?
É mais para as pessoas individuais. O indivíduo, aquele que já tem seguro, percebe que muitas vezes a cobertura que tem hoje é acima da cobertura-padrão. E aí pode ser interessante para comparar, mas na prática isso não implica que eu vá agora alterar o meu seguro para um seguro-padrão. Porque tipicamente isso seria perder alguma cobertura.

https://observador.pt/2025/06/04/portugueses-vao-ter-seguro-de-saude-padrao-definido-pelo-regulador-asf-com-cobertura-robusta-tambem-doencas-mais-graves/

No terreno nós temos visto que esta procura pelos seguros de saúde está a gerar algumas dificuldades. Vemos que em algumas especialidades, por exemplo, como a dermatologia e outras, há no setor privado médicos que simplesmente deixaram de dar consultas através de seguros. O que é que explica este fenómeno e até que ponto ele pode alastrar-se?
Essa é uma preocupação que existe. Enfim, isto é um tema mais de contratualização entre a seguradora e o prestador. Nós, associação não temos aqui um papel – até por questões de concorrência não queremos ter nenhuma intervenção. Mas sabemos que isso é uma realidade que está a existir e é uma preocupação, obviamente as seguradoras querem dar o acesso a todos os médicos…

Mas porque é que acontece?
Muitas vezes são temas internos dos próprios prestadores de serviços, que levam alguns médicos a optar por dizer ‘eu para aquela seguradora não trabalho’ ou ‘só trabalho se puder faturar a totalidade da consulta diretamente”. São temas que eu sei que estão a acontecer, em algumas especialidade isso é muito evidente. É uma preocupação do setor mas que está a ser endereçada bilateralmente entre seguradoras e os prestadores.

Já existem números sobre a atividade do setor segurador, como um todo, em 2025? Os lucros subiram, a produção subiu?
A produção subiu. Nós não temos ainda os números fechados dos resultados, as assembleias-gerais ainda vão acontecer agora durante o mês de março, mas a verdade é que os números subiram. Na área vida tivemos um aumento de 17,8%, muito alavancado em produtos de capitalização, que são seguros financeiros que as pessoas aplicam a três anos ou cinco anos, muitas vezes com indexações a taxas de produtos subjacentes, etc. Os PPR cresceram 11%, tiveram um crescimento menor do que no ano anterior, mas também algum crescimento. Depois, ainda dentro da área vida, há os seguros de vida risco, que são tipicamente aqueles associados ao crédito à habitação, que neste caso teve um crescimento de 6,5%.

https://observador.pt/2026/02/10/maioria-dos-ppr-rende-mais-que-depositos-mesmo-investindo-de-forma-demasiado-segura-defende-associacao-do-setor-apfipp/

Faz sentido, tendo em conta a atividade no mercado de habitação e de crédito à habitação…
Sim, varia muito, num momento em que há mais crédito ou menos crédito – flutua em função desses créditos. Na área não vida, houve um crescimento de 10%, idêntico ao de 2024. O automóvel cresceu, também, 12%, o multirriscos cresceu 8%, os acidentes de trabalho a crescer 8,5%…

Cresceu tudo mais do que a inflação…
Tudo mais do que a inflação. E os seguros de doença, portanto, os seguros de saúde, a crescer os tais 12% que eu, há pouco, mencionei. Todos eles crescem mais que a inflação, mas também crescem porque há mais seguros. Os seguros de acidentes de trabalho crescem em função do crescimento da massa salarial. O automóvel, também, vão-se vendendo carros novos, os capitais vão sendo atualizados… Mas, no global, tivemos em 2025 crescimentos muito alinhados com o ano anterior, com exceção do crescimento do seguro de saúde que tinha crescido 18% e agora baixou para 12%.

E 2026, como é que está a ser?
Em 2026, o primeiro mês – porque o mês de fevereiro ainda acabou há pouco tempo, não temos números – mas no primeiro mês os números mantêm os ritmos de crescimento do ano anterior. Estamos há vários anos a crescer mais que a inflação, o que denota que, apesar de tudo, há algum aumento de penetração do setor do seguro na economia portuguesa. Mas ainda assim nós estamos ainda bem abaixo da média europeia. Há aqui um caminho a percorrer até termos uma sociedade mais protegida e mais resiliente, que é a preocupação de todos. E temos na associação muitos programas relacionados com a temática da literacia do risco, para vários públicos, porque o que está em causa é cada um preocupar-se com o que é seu, com o seu património. Acho que é do interesse de todos estarmos todos mais protegidos para situações de infortúnio.