Lembro-me como se fosse ontem do dia em que o Presidente Jean-Claude Juncker me convidou para o acompanhar à tomada de posse do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, a 9 de março de 2016.
Chegámos a Lisboa no dia anterior e fomos recebidos pelo então Presidente eleito no Grémio Literário. Foi um daqueles primeiros encontros que ficam na memória. Marcelo Rebelo de Sousa não era apenas uma figura acima da média: era evidente, desde logo, que estávamos perante alguém único. Numa primeira reunião com o Presidente da Comissão Europeia, mostrou um domínio dos dossiês e dos temas como poucas vezes vi em política. Conhecia cada detalhe, mas, mais do que isso, tinha a capacidade de ligar os detalhes, de construir uma visão clara do todo, mesmo quando os assuntos eram complexos.
Recorde-me bem de Juncker sair dessa reunião profundamente impressionado. Virou-se e afirmou, com uma convicção absoluta: “Este homem é superior.”
Há um tema pouco falado nas campanhas eleitorais, mas que considero uma das funções mais importantes de um Presidente da República: a representação externa. É uma função de influência, muitas vezes invisível, mas decisiva. Como Comissário Europeu percebi isso desde o primeiro momento. Se retirarmos Alemanha e França – os grandes motores da Europa -, os restantes chefes de Estado e de Governo só contam verdadeiramente quando conseguem marcar os seus pares pela inteligência, pela preparação e pela capacidade de se moverem com naturalidade em várias línguas e culturas.
Veja-se o exemplo do Presidente da Finlândia, Alexander Stubb, que hoje é um dos líderes mais influentes da Europa. Não é pelo tamanho ou pela força da Finlândia. É pela capacidade pessoal: fala várias línguas, conhece realidades diferentes, aproxima posições, junta vontades, cria pontes. Tornou-se um pivô com quem todos querem falar.
Marcelo Rebelo de Sousa foi isso – e foi muito mais.
Tendo eu sido emigrante em França, há um momento que nunca esquecerei. Um jantar no Palácio do Eliseu aquando das temporadas cruzadas entre Portugal e França. Ouvi o Presidente Marcelo fazer um dos melhores discursos em francês que alguma vez presenciei. Com naturalidade, com cultura, com elegância. Citando, sem olhar para o papel, de Balzac a Camus. A sala ficou suspensa.
Só quem foi emigrante sabe o que aquilo significa: estar num país que não é o nosso e ver o Presidente do nosso país fazer um discurso que deixa todos de boca aberta. É como se conseguíssemos ler o pensamento de cada pessoa naquela sala, como se, por dentro, muitos dissessem com surpresa e respeito: “Este homem é incrível.”
E esse orgulho, para quem emigrou, tem um peso especial. Porque quem vive fora conhece um sentimento difícil de explicar: o de que não somos vistos da mesma forma que os outros. O de que, por mais que nos esforcemos, há sempre uma distância. Um olhar que nos lembra que não somos dali. Por isso, quando um dos nossos mostra que é igual – ou melhor – do que os melhores daquele país, isso enche-nos. Enche-nos de orgulho, de pertença e de dignidade.
E lembra-nos algo essencial: ser português é também ter a capacidade de surpreender o mundo – pela inteligência, pela cultura, pela coragem e pela forma como sabemos estar. Como português e como antigo emigrante, hoje quero dizer: Obrigado, Presidente.