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(A) :: Marcelo e Trump

Marcelo e Trump

Não temos necessidade de um político brilhante que tenha cem ideias banais e consensuais, todas inúteis, mas de um com noventa e quatro duvidosas sobre questões menores e meia dúzia acertadas.

José Meireles Graça
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O nosso Presidente vai-se embora dentro de dias e já declarou que se manterá em silêncio, no que, infelizmente, não podemos acreditar.

Em silêncio nunca esteve. Pelo contrário: São às centenas os discursos que fez, aos milhares os artigos que publicou e as homilias televisivas em que preopinou, e em número mais elevado ainda as selfies que hoje ornam, em ternurentas molduras, as estantes e as lareiras de incontáveis lares de Portugueses.

Reconhece-se-lhe uma inteligência fulgurante, uma vasta cultura e um discurso cativante – pelo menos é o que diz a totalidade das pessoas que o conhecem pessoalmente e a quase das outras.

O discurso, de facto, desagrada a pouca gente porque vem sempre envolto em simpatia e num infalível sexto-sentido para cair bem; a cultura deve ser imensa, ainda que não se consiga imaginar onde sobrou o tempo para a enriquecer com leituras; e a inteligência nunca se desarrincou em nenhuma ideia original, nenhuma opinião que fosse contra o ar do tempo e nenhum projecto de sociedade que pudesse vencer o atávico atraso de Portugal, o que espíritos mais chãos acham que só se pode conseguir crescendo economicamente muito mais do que (e não é ser excessivamente ambicioso) a média nos últimos vinte anos.

O que fica então destes dez anos de presidência e da extensa e prestigiada carreira como parlamentar, secretário de Estado e ministro, líder partidário, jornalista, comentador político e professor de Direito?

Fica o famoso e saboroso (o caso, não a sopa) episódio da vichyssoise, um imenso rosário de intrigas palacianas que já só vivem na memória de quem nelas esteve envolvido, a troca de uns calções numa praia, em público, a recolha apressada ao Palácio aquando da histeria covidesca, os puxões inopinados a um orador que cumprimentava naquela coisa espalha-brasas da WebSummit, a (boa) piada, numa feira, à menina de generoso decote (veja lá se não se constipa) e outros numerosos episódios picarescos.

De política substantiva nada, a não ser que assim se queiram considerar a convivência excessivamente pacífica com o governo de Costa e a torrente de “recados” sortidos em discursos e declarações, sempre a benefício da dança de cadeiras, que é no que consiste, na mundividência marcelista, a política.

“Éramos felizes e não sabíamos”, disse há dias num encontro de velhos amigos com Costa, em Bruxelas.

Eles. O eleitorado nem por isso, que nas últimas legislativas despachou o PS para a Oposição, onde pessoas de senso esperam que faça uma cura por longos anos.

Não seria impossível porém que, se a Constituição permitisse um terceiro mandato e Marcelo se recandidatasse, este ganhasse novamente, ainda que por modesta margem. O Presidente não governa, portanto tem poucas hipóteses de desagradar – é um rei constitucional eleito a prazo e, nesta hipótese, seria bem provável que, por aclamação, lhe fosse atribuído à morte o cognome de “O Porreiro”.

A nossa chefia do Estado é assim, uma figura de representação e não muito mais. E um abismo a separa do que se passa com a homóloga nos EUA, onde o PR é também PM e goza de mais extensos poderes perante o Congresso do que os que detém o nosso Governo perante o Parlamento. De modo que a comparação entre os dois arranjos constitucionais é inusitada, e não só por isto: O Presidente dos EUA encabeça uma superpotência (“o homem mais poderoso do mundo”, na pacífica e inane descrição de funções – se fosse o homem mais poderoso do mundo não dependeria, como depende, da opinião pública americana, que tem de conquistar ao fim dos primeiros quatro anos) e o nosso encabeça um pequeno Estado cliente da UE, de onde vêm os fundos e as Directivas.

É certo que temos uma história ilustre, como os EUA terão talvez, e maior, daqui a cem ou duzentos anos, mas isso, se nos reforça o amor pátrio, não nos reforça mais nada. E são os EUA, hoje, o principal garante do modo de vida ocidental na versão a que chegamos desde os Gregos, os Romanos, o Cristianismo, as Luzes, a Revolução Industrial e o mais.

Donde, o que aqui se passa pouco ou nada interessará a Americanos; e o que lá se passa interessa-nos a nós, e muito.

Trump, de cultura, está mal aviado, ao menos a julgar pela forma como fala e escreve: aquilo não deve ter mais de cem vocábulos, e os adjectivos estentóreos, sempre os mesmos, parecem tirados de um corrida de quadrigas num filme de Império Romano de pacotilha. De brilhantismo e retórica vou ali e já venho, que os trejeitos nos discursos, as toilettes ridículas com o inevitável boné, e a argumentação primária, convencem apenas quem o elegeu para campeão e levam a que quem vê o mundo de outra maneira ceda à tentação de tachar os seus eleitores como um bando de acéfalos. A inteligência lá fulgurante não deve ser, que para isso precisava de materiais que possivelmente não estão lá.

Neste momento em que escrevo Trump resolveu acabar com a ameaça que o Irão representa para Israel e o mundo. Isso com toda a probabilidade, com sorte também com o regime, que porém talvez sobreviva ou no seu lugar fique o caos – não sabemos. Já havia intervindo no médio-Oriente para liquidar a liderança terrorista local em Gaza, bem como outros movimentos terroristas que o Ocidente, paralisado por quintas-colunas da opinião no seu seio e nós-cegos de diplomacia impotente e palavrosa, tolera com enervante inoperância. Isto além da Venezuela, cujos habitantes não parece tenham ficado antiamericanos por os terem aliviado do general Tapioca caseiro.

Coisa grosseira: quer resolver problemas com batatada e não cuspo e gesticulações. Na Europa lamenta-se que a mesma determinação não esteja a ser evidenciada na Ucrânia. Porém, o problema ucraniano é sobretudo europeu, deixou de ser americano porque a URSS há muito implodiu e a actual administração tira disso consequências – será a Europa o actor principal para o resolver porque não tem outra escolha, pela América a guerra fica despachada mesmo que com uma paz desequilibrada. Coisa que Trump já esclareceu com típica brutalidade mas não será muito diferente do que faria outro presidente, ainda que democrata.

Na ordem interna, Trump promoveu (é certo que de forma particularmente grosseira e violenta) a defesa da maneira americana de ser, com os seus defeitos e virtudes, não a dissolução a prazo sob a influência de culturas alienígenas importadas por levas de imigrantes. E ainda que o nacionalismo económico via tarifas demenciais seja um claríssimo erro, de resto já castigado pelo Supremo, o tal que segundo analistas de grande lucidez Trump tinha no bolso, e amenizado na prática por vários recuos, em outros domínios uma série de medidas que o bem-pensismo rejeita, mas que várias direitas aplaudem, deixará marca.

E então, o que leva a que, provavelmente, dele fique uma memória positiva na história, e todos os cansados do internacionalismo pilotado por agências supranacionais inimputáveis, e desconfiados da contemporaneidade feita de wokismo larvar que se vai insinuando nas leis com o corolário de fiscalização do leque de opiniões que são e não são admissíveis, o apreciem?

É que Trump faz sem hesitações o que se tornou tabu fazer: por exemplo, a rejeição dos delírios intervencionistas e controleiros sob a bandeira das alterações climáticas, ou a dinamitação do Estado regulador que vai soterrando a liberdade económica sob uma espessa camada de regras que burocratas sustentados pelos contribuintes vão produzindo incansavelmente.

Imaginemos que em Portugal um político como Marcelo tinha a maioria absoluta no Parlamento e que o sistema era presidencialista (não que o ache desejável, é for the sake of the argument). Que teria acontecido de relevante ao fim de dez anos de exercício? Nada.

E imaginemos que, descontada a imensa diferença cultural, o percurso histórico, as realidades geoestratégicas e económicas, a massa crítica, e tudo o mais que faz com que sejamos Portugueses e não Americanos, tínhamos a sorte de ser pilotados por um político que, tendo poder, tivesse também uma visão desenvolvimentista e a vontade de fazer reformas profundas ao serviço dessa visão. O que ficaria? Muito.

De modo que concluo melancolicamente que não temos necessidade de um político brilhante que tenha cem ideias banais e consensuais, todas inúteis, talvez nos conviesse um outro com noventa e quatro duvidosas sobre questões menores e meia dúzia acertadas sobre o que fazer para Portugal deixar de ser o parente pobre da Europa que é há demasiado tempo.

Talvez Trump fique como um grande Presidente apesar dele; e Marcelo, de certeza, como um esquecível por culpa sua.

Nota editorial: Os pontos de vista expressos pelos autores dos artigos publicados nesta coluna poderão não ser subscritos na íntegra pela totalidade dos membros da Oficina da Liberdade e não refletem necessariamente uma posição da Oficina da Liberdade sobre os temas tratados. Apesar de terem uma maneira comum de ver o Estado, que querem pequeno, e o mundo, que querem livre, os membros da Oficina da Liberdade e os seus autores convidados nem sempre concordam, porém, na melhor forma de lá chegar.