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Caso Epstein: quando a personagem pública e as ações privadas não coincidem

É interessante verificar que as suas habilidades sociais permitiram criar uma dupla personagem: uma figura pública poderosa, amável e respeitável, e uma privada, egocêntrica, predadora e criminosa

Pedro Afonso
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A divulgação recente dos chamados Epstein Files, pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, voltou a expor um dos casos de abusos sexuais mais impressionantes da história recente. Os milhões de documentos recolhidos pelas entidades policiais e judiciais dos EUA envolvem inúmeras  figuras públicas: artistas, políticos, investidores, empresários, cientistas, etc. Embora nem todos os nomes citados estejam diretamente envolvidos com a natureza dos crimes cometidos por Epstein, este caso faz-nos refletir sobre como foi possível que esta personalidade criminosa criasse uma teia de influência tão poderosa e  continuasse a cometer crimes sexuais mesmo após ter sido condenado e sentenciado em 2008.

Jeffrey Epstein apresentava traços compatíveis com uma perturbação de personalidade antissocial e narcísica, no qual o indivíduo utiliza o charme, inteligência e a normalidade aparente para ocultar uma total falta de empatia,  remorso e um sentido maquiavélico. Convém referir que estas características psicopatológicas não oferecem, por si só, inimputabilidade ao sujeito. Mas é interessante verificar que as suas habilidades sociais permitiram criar uma dupla personagem: uma figura pública poderosa, amável e respeitável e uma figura privada, egocêntrica, predadora e criminosa.

A questão que se coloca é saber se é possível manter, sozinho, uma vida dupla durante tanto tempo sem ser apanhado nas malhas da justiça. Certamente seria muito difícil. Acredito que Epstein o sabia e, por isso, terá provavelmente tomado medidas para envolver outras individualidades poderosas nas suas atividades criminosas de abuso sexual. Esse “seguro de vida” terá sido construído meticulosamente, através de uma rede de figuras públicas que iam sendo implicadas na exploração sexual, garantindo assim a sua proteção e a sua aparente intocabilidade.

As personalidades antissociais, embora partilhem a atividade criminosa sem remorsos, distinguem-se pela forma como a operacionalizam: os menos inteligentes atuam de forma isolada ou em pequenos grupos desorganizados e são mais facilmente apanhados pela justiça; os mais inteligentes constroem redes criminosas organizadas, que lhes conferem maior proteção e prolongam o seu funcionamento.

Os documentos e os testemunhos revelam que numa parte da elite masculina poderosa proliferava um padrão de misoginia. O corpo feminino era tratado como um brinquedo descartável. O respeito pelo corpo de uma adolescente  não era uma preocupação, pois tratava-se de um mero objeto de prazer.

Mas a misoginia também teve cúmplices no sexo feminino. A grande angariadora de vítimas para os abusos sexuais cometidos por Epstein era uma mulher. Ghislaine Maxwell  a socialite britânica radicada nos Estados Unidos, atuava como intermediária, gestora social e figura de confiança de Epstein. Esta personagem sinistra e com traços marcadamente antissociais  era a  responsável pelo recrutamento e pela normalização do abuso de raparigas menores de idade. Participava regularmente nos encontros, viagens e na vida social, usando os seus conhecimentos da alta sociedade para ligar o monstro predador à elite social mundial. A sua relação estranha, complexa  e patológica com Epstein, numa espécie de vínculo simbiótico, levou-a a ser cúmplice ativa dos seus crimes, tendo sido condenada por tráfico sexual de menores em 2021.

O legado destas duas personagens condenadas é um rol de vítimas de abusos sexuais. Muitas delas remeteram-se ao silêncio, carregando o peso  dos traumas dos abusos de que foram alvo, enquanto outras decidiram falar e acusar os agressores. Uma delas foi Virginia Giuffre que, além de Jeffrey e Ghislaine, acusou o então Príncipe André, Duque de Iorque, alegando ter sido abusada sexualmente quando era menor. O caso terminou com um acordo extrajudicial anunciado em 2022, sem admissão de culpa por parte do arguido.

Tal como acontece com muitas vítimas de abuso sexual, o sofrimento psicológico do trauma pode deixar marcas duradouras, mesmo quando há visibilidade pública da denúncia e acordos judiciais. Virginia Giuffre suicidou-se em 2025. O seu testemunho acabou por ser publicado no livro Nobody’s Girl, através do qual procurou dar voz às vítimas de redes de abusos sexuais, neste caso mantidas por pessoas ricas e influentes.

Um abuso sexual constitui um dos traumas psicológicos mais violentos que um ser humano pode vivenciar. Seria, por isso, expectável  que este caso fosse exemplar no cumprimento da sentença e no respeito pelas vítimas. Mas o relatório do Inspector General do DOJ Metropolitan Correctional Center (MCC) de Nova Iorque revelou várias falhas na vigilância do detido quanto ao risco de suicídio. Ao suicidar-se em 2019, Epstein escapou ao cumprimento da pena, mas não apagou o sofrimento das vítimas, nem a obrigação de escrutinar as redes de poder que o protegeram ao longo de décadas.