As guerras de palavras iam escalando com o passar das intervenções, o respeito “institucional” (ainda que fosse apenas aparente) nunca era desrespeitado. Em que sentido? Na final da Supertaça ou nos encontros de Campeonato no Dragão e em Alvalade, ao contrário do que acontecia com o homólogo do Benfica, Rui Costa, André Villas-Boas via sempre o encontro na primeira fila da tribuna com Frederico Varandas tendo pelo meio Pedro Proença, Reinaldo Teixeira ou Pedro Duarte, líder da autarquia do Porto. Agora, pela primeira vez desde que o atual presidente dos azuis e brancos assumiu o comando do clube, não foi isso que aconteceu na deslocação ao recinto do Sporting. E, no final da partida, ambos vieram adensar a “guerra aberta”.
Apesar de ter estado também na tribuna presidencial, Villas-Boas não se sentou na primeira fila como tinha acontecido no Campeonato, ficando numa zona mais afastada para cima do homólogo Frederico Varandas. Depois, ambos passaram pela zona mista. E, num jogo quase de parada e resposta como também nunca se tinha visto desde que o líder dos azuis e brancos assumiu o comando do clube no final de abril de 2024, as palavras do presidente portista foram rebatidas poucos minutos depois pelo homólogo do Sporting.
“Quero passar uma mensagem muito clara: eu na China, enquanto treinador do Campeonato chinês, levei quatro jogos de suspensão por ter feito um gesto igual ao do Suárez. O presidente do Sporting já chamou de ladrão ao presidente da Federação, ao João Capela e ao Nuno Almeida. O Luis Suárez acabou de chamar ladrão, de forma clara, para todas as televisões, com gestos, ao árbitro, Cláudio. Quero saber se o Suárez também vai levar quatro jogos de suspensão ou se o Campeonato português pode ser comparado ao Campeonato chinês. O exemplo é claro, tal como fui castigado, também espero o mesmo, tal como esperava que o presidente do Sporting tivesse sido castigado em linha num Conselho de Disciplina que decidiu arquivar uma acusação muito grave em relação aos Órgãos de Arbitragem e aos presidentes da Federação”, começou por apontar Villas-Boas, num prolongamento das queixas que tinham sido deixadas antes pelo técnico Francesco Farioli sobre o colombiano a que juntou depois as referências ao presidente dos leões.
“Palavras de Rui Borges sobre o jogo? Isso são as palavras do treinador do Sporting, que confunde um bocadinho as coisas. Quando quer ver coisas, vê coisas. Quando não quer ver coisas, não vê. Toda a gente viu também uma falta clara sobre o Pepê antes do lance que dá o livre lateral que leva ao penálti. Enquanto o penálti é evidente, também é evidente a falta que o Pepê sofre nas costas com o empurrão do Maxi Araújo. Também já tivemos um caso recente do Sporting-Famalicão, de um golo anulado ao Famalicão e num lance que o VAR decidiu intervir”, apontou o líder dos azuis e brancos, que anunciou que o FC Porto vai apresentar uma queixa a propósito do gesto de “roubar” de Luis Suárez feito no final da primeira parte.
“Segundo amarelo a Alberto Costa? Sim, possivelmente é motivo para cartão amarelo. O problema é que anteriormente não há motivo para cartão e o árbitro dá. Esse foi o problema de uma nomeação de risco do Conselho de Arbitragem para uma meia-final como esta, com a importância desta. O árbitro acabou por não estar à altura. Temos a lamentar muita coisa e o que me parece claro é que há uma equipa que continua a passar impune, que continua a simular lances, que diz que os árbitros são ladrões, que vai do seu presidente aos jogadores em campo. É este tipo de condicionamento de arbitragem que se vê de forma evidente e que se viu de forma evidente desta semana no caso do penálti do Fofana com o Arouca e que depois levou os árbitros, infelizmente, a cometer alguns erros”, concluiu Villas-Boas na zona mista.
Frederico Varandas, no seguimento destas declarações, “respondeu” no mesmo local pouco depois. “O caso do Suárez é o caso do jogo? Primeiro, deixem-me dar uma palavra aos adeptos do Sporting. Transmitimos um clássico para todo o mundo, onde, desde ontem, mostrámos como se recebe um rival. Quero enaltecer que não houve fogo de artifício, os jogadores do FC Porto dormiram muito bem, o que é de inteira justiça, e tiveram descanso, assim como todo o staff e dirigentes do FC Porto foram tratados com toda a dignidade. Quero agradecer a todos os sócios do Sporting porque, independentemente de quem ganha ou quem perde, somos Sporting, somos muito diferentes desta gente. O Sporting é bicampeão, três Campeonatos em cinco anos, mas o que mais me orgulho é a maneira como o Sporting é. Enquanto presidente, fui uma vez a tribunal por ter chamado bandido e corruptor ativo ao ex-presidente do FC Porto. Foi a única vez. É a maneira que eu sinto que os sportinguistas se reveem e quero enaltecer a forma como eles se comportaram num grande clássico”, começou por referir o líder do clube de Alvalade, antes de abordar o clássico.
“Vou ter de falar muito sobre o presidente do FC Porto. Começo por falar da deselegância de interromper o treinador que está a fazer a conferência. Eles não querem ouvir, quer-se construir a narrativa. Sabem porquê? Agora vamos fazer de bode expiatório o Luis Suárez… E sabem porquê? Porque eu vejo o presidente do FC Porto com muito medo. Ele olha para o campo vê o mesmo que eu, acha que a sua equipa não chega lá para ser campeã. Este é o medo dele: jogam pouco e este é o medo dele. Então, o que vamos fazer? Processo contra o Hjulmand por agressão. Até o treinador de andebol já levou com um processo crime por ter atirado com uma garrafa de água. É esta a narrativa do FC Porto. Vejo uma equipa que lidera o Campeonato e que não sabe como lidera, estão com muito medo. Diz que Suárez tem de apanhar quatro jogos porque ele apanhou na China, essa república democrática… Perguntaram-lhe se na China colocava vídeos a condicionar árbitros? Se calhar levava 40 jogos… O senhor Villas-Boas tem responsabilidades. É presidente mas percebe muito de futebol…”, prosseguiu Frederico Varandas, antes de falar também da arbitragem.
“Querem falar de uma falta que antecede o lance do golo, uma hipotética falta. O lance que ele fala do Pepê, em que segundo a opinião dele há falta de Maxi, o que eu discordo, é um minuto e 40 segundos antes do penálti. É disto que estamos a falar. E sabe por que estamos a falar do Suárez? Porque o Alberto deveria ter sido expulso e ficava decidido. Foi um erro muito mau, grosseiro. A consequência disso é o gesto do Suárez. Sabe por que fala dos jogos de suspensão do Suárez? Porque está com medo que o Suárez continue a jogar, ele joga muito, faz muitos golos e é uma chatice. Eu acredito que se vai perceber o porquê de o Suárez ter feito aquilo. Se devia ter feito? Não. Foi no calor do jogo. Mas temos de perceber o porquê. Se o Suárez for castigado, quero perceber quantos jogos é que um clube deveria ter por condicionar um árbitro ao intervalo com vídeos de jogos até dos infantis. Vamos colocar tudo na mesma balança, também que castigo deveriam ter por darem ordens para os apanha-bolas retirarem as bolas. Vamos ver…”, destacou.
“O presidente André Villas-Boas mente, é mentiroso. Ele vive bem com o futebol, é mentiroso, mas é muito pequeno para a entidade e para o clube que governa. Sabe porquê? Ele não tem dimensão ética, nem ele, nem os amigos que estão à volta, uns andam por aqui e outros na sombra. Vai haver agora um Estugarda-FC Porto e lanço-lhe aqui um desafio: que faça o mesmo que fez”, criticou ainda na resposta às palavras do homólogo, antes da abordar a “Liga Virtual” do Benfica. “Como é que a arbitragem não está a ser condicionada? Diga-me aqui qual é o clube que faz comunicados antes das nomeações dos árbitros? É o Sporting? É o Benfica? Fez. É o FC Porto? Faz. São as newsletters… Quando um presidente sente que a equipa é forte e vai ser campeã, não precisa disto. Tem medo. Não consegue disputar este Campeonato 11 para 11 com os nossos jogadores. Está a tentar castigos deste e daquele, até já vamos no andebol, eu já tenho não sei quantos processos. É um cobarde, um cobarde…”, concluiu o presidente dos verde e brancos.