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(A) :: A Medicina está romantizada — e isso está a esgotar os médicos

A Medicina está romantizada — e isso está a esgotar os médicos

A Medicina está romantizada — e isso está a esgotar os médicos.

Marta Pimenta de Brito
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Há mais de 20 anos que trabalho com médicos, mas ontem uma médica disse-me algo que ficou a ecoar: “A nossa profissão está romantizada.”

E não consigo deixar de pensar no que isso significa para quem lidera hospitais e cuida de vidas todos os dias. Médicos e diretores hospitalares enfrentam pressão contínua, decisões de vida ou morte, equipas exaustas e quase nenhum espaço seguro para refletir sobre a própria saúde emocional.

Narrativas de “vocação”, “missão” e “estatuto social” moldam a percepção da medicina: se escolheste esta profissão, tens de aguentar. Se é vocação, não podes queixar-te. Se é missão, não podes fraquejar. Se é estatuto social, o que te falta?

Esta romantização cria um paradoxo: quanto mais os profissionais se dedicam, mais invisível se torna o desgaste emocional. Burnout, fadiga crónica e culpa silenciosa são efeitos colaterais de uma cultura que valoriza entrega absoluta sem limites humanos — e de estar simultaneamente em todo o lado: no cuidado, na gestão, na academia, na ciencia, no associativismo, na política e no negócio.

A pressão não afeta só médicos clínicos. Diretores e chefias hospitalares vivem uma solidão silenciosa. Cada decisão envolve risco ético, impacto em vidas e responsabilidade sobre equipas exaustas. A liderança médica não permite fraqueza aparente. A performance deve ser constante, mesmo quando os recursos são limitados, os conflitos internos surgem e o cansaço se acumula. O preço? Saúde mental comprometida e desgaste invisível que poucos reconhecem.

Tenho de concordar com aquela médica: romantizar a profissão não protege quem trabalha nela. Apenas adia o preço emocional. O resultado é visível: profissionais exaustos, alta rotatividade e diminuição da capacidade de cuidar com qualidade. Burnout não é falha individual — é reflexo de uma cultura institucional e até social que ainda não valoriza sustentabilidade emocional.

Se queremos realmente abrir caminhos para a sustentabilidade, o primeiro passo é reconhecer que cuidar de quem cuida não é luxo, é necessidade. Algumas medidas essenciais passam por promover:

•Espaços seguros de reflexão e supervisão clínica;

•Acompanhamento psicológico estruturado para líderes hospitalares;

•Criação de culturas hospitalares que legitimem pausas, autocuidado e diálogo sobre emoções.

Sustentabilidade emocional não é apenas um conceito teórico: é uma ferramenta para manter excelência clínica, proteger equipas e garantir que médicos continuem a salvar vidas sem perder a sua própria.

Agradeço àquela médica por me dar um nome concreto para um fenómeno que acompanho de perto há mais de 20 anos. Cuidar da liderança médica é cuidar do sistema de saúde como um todo. A romantização da profissão deve dar lugar à consciência do custo real do trabalho médico. Reconhecer este custo é o primeiro passo para construir hospitais e profissionais resilientes, saudáveis e preparados para enfrentar os desafios do futuro.