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Entre o meu muro e as tuas asas

Não é um manifesto, é uma reflexão, uma carta de pai para filha: que sejas livre, mas consciente. Que sejas forte, mas justa. Que penses por ti, mas nunca deixes de ouvir.

Lino Franco
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A primeira vez que me lembro de ouvir falar de generation gap foi algures pelos meus 15 anos, numa aula de inglês. O tema surgiu no manual, quase como um conceito académico, mas rapidamente se tornou pessoal. Falámos do que significava aquele fosso entre pais e filhos, entre autoridade e autonomia, entre tradição e mudança. Cada um de nós expôs o seu lado da questão, ainda com a ingenuidade própria da idade, mas já com convicção.

Recordo-me particularmente do paralelismo feito com The Wall, dos Pink Floyd. A metáfora do muro, construída tijolo a tijolo por um sistema educacional rígido, por normas sociais opressivas, pela autoridade muitas vezes inflexível dos pais. Reclamávamos mais liberdade, mais autonomia, menos dependência dos humores e decisões alheias.

No meu caso, nunca esteve em causa o reconhecimento da autoridade dos meus pais. Reconhecia-a. O que reclamava era mais espaço para agir e pensar por mim. Mais autonomia em conformidade com os meus direitos e com os meus deveres. Nunca confundi liberdade com ausência de responsabilidade. Queria voz, não vazio.

Passaram mais de trinta e cinco anos. Hoje estou do outro lado do muro. A minha filha tem onze anos. Ainda não há saídas tardias com amigas, nem rebeldias estruturadas. Mas há sinais claros de emancipação. Há argumentos. Há posições. Há uma consciência que começa a afirmar-se.

E é aqui que o generation gap deixa de ser apenas um fenómeno psicológico e passa a ser político. Porque cada geração herda uma ideia de liberdade e decide o que faz com ela. A minha geração cresceu num país que ainda consolidava instituições democráticas. A liberdade era uma conquista recente, quase tangível. Havia memória da sua ausência. Talvez por isso, muitos de nós lutámos por mais autonomia individual: contra imposições familiares, religiosas ou estatais. Queríamos menos tutela e mais responsabilidade própria. A geração da minha filha nasce num contexto diferente. A liberdade é dada como garantida. Mas essa garantia pode criar uma ilusão perigosa: a de que a liberdade é permanente por natureza, quando na verdade é sempre frágil por definição.

A liberdade não desaparece apenas com ditaduras. Desaparece com pequenas cedências sucessivas. Com a aceitação confortável de que “alguém decidirá por nós”. Com a troca de autonomia por segurança. Com a delegação constante de responsabilidade no Estado, na escola, na tecnologia ou na opinião dominante. É aqui que o papel dos pais e dos cidadãos se torna decisivo. Se, enquanto pai, o meu instinto é proteger, enquanto liberal sei que proteger em excesso é limitar. Educar não é formatar. É preparar para a autonomia. Não é criar dependência emocional, financeira ou intelectual. É criar indivíduos capazes de pensar, decidir e assumir consequências.

A minha filha terá um mundo mais complexo do que aquele que eu enfrentei. Inteligência artificial, polarização, informação manipulável, dependência tecnológica. Não posso viver por ela. Não posso decidir por ela. Mas posso dar-lhe ferramentas: pensamento crítico, coragem moral e responsabilidade individual.

Porque a liberdade não é apenas um direito a reclamar. É um dever a exercer. O verdadeiro generation gap talvez não esteja entre pais e filhos. Está entre quem acredita que o futuro deve ser regulado ao detalhe e quem acredita que o futuro deve ser construído por indivíduos livres.

Se há algo que quero transmitir à minha filha é isto: o Estado pode enquadrar, mas não pode substituir o carácter. A escola pode ensinar conteúdos, mas não pode ensinar integridade. A sociedade pode oferecer oportunidades, mas só o indivíduo pode transformá-las em mérito. Preparar o futuro não é desenhá-lo à medida das nossas certezas. É formar pessoas suficientemente livres para o redesenhar quando for necessário. Talvez o muro nunca desapareça. Mas enquanto houver liberdade de pensamento, liberdade de escolha e responsabilidade individual, haverá sempre portas. E é por isso que a liberdade, mesmo quando parece garantida, deve ser defendida todos os dias.

Quero apenas que estas palavras sejam isso mesmo: uma reflexão. Não um manifesto, não uma lição, não um guião fechado para o teu futuro. Como pai, desejo apenas o melhor para a minha filha, exatamente como todos os pais desejam o melhor para os seus filhos. Que sejas livre, mas consciente. Que sejas forte, mas justa. Que penses por ti, mas nunca deixes de ouvir. Se o mundo que herdares for mais complexo, que sejas mais preparada; se for mais exigente, que sejas mais resiliente. E se alguma coisa do que aqui escrevo te ajudar a caminhar com mais segurança e autonomia, então já valeu a pena. Parabéns, Maria, pelas tuas onze primaveras. Que floresças sempre em liberdade.