1 Guerra e despedidas, estranha aliança. estranhos dias. Ver para descrer. Mas também estranhamente, o ar do tempo está tingido de uma fina melancolia: a certeza que já tínhamos mas que agora galopa, de que o mundo – o “nosso” – se pulverizou; a traição de regras e comportamentos; o fim deste ciclo político português e o complexíssimo começo de outro. E até a despedida de algumas pessoas que quase silenciosamente nos deixaram.
Alguns chamarão a isto nostalgia e eu que não sou nostálgica – teria submergido se o fosse – hoje também chamo. Não que o passado tenha a última palavra — não se lhe pode consentir isso — mas há momentos em que ele volta sem pré aviso e de mansinho, ou irrompe com estrondo e decisão. E eis-nos desprevenidamente com um pé no desconcertado solo de hoje, e outro, na ilusão da imutabilidade do chão de ontem. Tentando esse “delicate balance” de que falava Albee.
2 Devia naturalmente escrever sobre o Direito Internacional, o futuro do Irão, o desnorteio alucinado de Trump, o puzzle do Médio Oriente, as Lajes. Isso. Sucede que não me foi compatível com o ter passado os últimos dias num chão de “ontens”; o do mundo que era o meu; o do sublime Ingmar Bergman que revejo no Nimas, sempre com a coração a doer-me; o de Tchekhov e da sua desamparada “Gaivota” que agora pousou no Trindade; o da descida em plano inclinado para papéis, textos, cartas, imagens, que de algum modo tinham a ver comigo; o da notícia da morte de Vítor Dias, quadro do Partido Comunista que durante muitos anos vi muitas vezes na rua lisboeta onde mora o PC. E eis o que subitamente me interpelou mais que o perigo dos dias.
Mesmo sabendo que estamos definitivamente noutra história e que daqui a cinco dias Marcelo ficará sozinho consigo próprio.
3 Muito pouco tempo antes da morte de Vítor Dias pedi a alguém da “casa” o favor de se informar sobre se eu podia vê-lo (ignorando totalmente que estava doente, há mais de trinta anos que pouco sabia dele).
“Não podia”: não estava “em condições”.
Tive pena. Dias depois, uma mensagem: “tinha falecido”. Não são coincidências, são encenações que nos transcendem.
Durante um bom par de anos que para mim começaram em 1976, ainda na Rua António Serpa, era o Vítor que me encaminhava até uma divisão onde momentos depois surgia o dr. Álvaro Cunhal. E ou se seguia uma entrevista pura e dura – a primeira foi nesse ano de 1976 mas houve outras – ou “se” conversava. O Vítor era o mensageiro que me conduzia pelo edifício e também conversávamos. Parecia-me que ali até as paredes me detestavam – não era uma estranha indevida? –, mas por alguma razão eu ia lá e havia sempre troca de palavras com Vítor Dias. E a presença permanente da discordância bem comportada, o sal da ironia, alguns pedidos meus sobre novas encontros, prazos de entrega disto ou daquilo. Havia, enfim, palavras e vida, naquele trânsito conhecido. Um dia levei-lhe uma cassete VHS de Herman José pedindo que a entregasse ao dr. Cunhal (que talvez tenha ficado curioso com a energia com que lhe falei do genial Herman e aceitou a minha oferta).
Nem um músculo se moveu no rosto do Vítor – nunca se movia, não era suposto; nunca lhe ouvi nada que saísse do previsto, mas não tinha importância, eu sabia que era assim. O que em nada impediu (da minha parte, obviamente) atenção – era um bom quadro – e alguma cumplicidade na certeza de que aquela rotina seria sempre aquela rotina. E foi e nunca esqueci. Não sei o que me terá feito, há dias, pedir para o ver nas vésperas da sua morte sem saber sequer quão doente estava. Sei o que importa: era certamente – não podia deixar de ser – para falarmos disto tudo, tantos anos depois. Dizer pena é pouco.
4 Comecei a ler praticamente pelo teatro onde Tchekhov tinha um lugar só dele. Grande, imenso, maestro da indizível dificuldade de ser dos seus personagens, cerzindo como que um “espírito” Tcheckov, mas cerzindo-o, com os fios da irremediabilidade.
A primeira “Gaivota” que vira fora a de Romy Schneider no S. Luís, numas temporadas de teatro francês que durante alguns épocas de feliz memória, no final dos anos sessenta, visitaram aquele palco português.
A actriz, linda e novíssima, era ainda uma desamparada Gaivota quando no fim do espectáculo pude conhecê-la no seu camarim. No espelho havia um telegrama de amor de Alain Delon com quem ela vivia, mas o que guardei até hoje foi a palidez de uma gaivota destroçada, na solidão de um pequeno camarim onde tudo lhe era desconhecido.
Desta vez, com os pés assentes em 2026, corri para o Trindade onde o encenador Diogo Infante – outro personagem – “reviu” o texto e escolheu dá-lo a ver, envolvido e definido pelos dias de hoje.
De início confundi-me: talvez por não ter de imediato acompanhado o voo do encenador, talvez pela surpresa.
E no entanto… à medida que os personagens se dilaceravam diante de nós, – pungentemente magníficos o terceiro e quarto actos! – lá estava Tcheckov, em toda a sua dorida escrita.
Se eu pudesse tinha-lhes dito do meu camarote para o palco que voltassem atrás – como nos vídeos – e os “vivessem” ali outra vez.
5 E seu pudesse pedia aos deuses um intervalo. Breve que fosse. Entre o mundo de ontem e o que aí está a que ainda não sei dar nome.