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Socialistas criticam uso das Lajes mas Carneiro evita confronto aberto na política externa

PS quer saber se uso da base cumpriu condições impostas, mas quer evitar fazer do tema "cavalo de batalha" e garante que não é como Sánchez. Alguns socialistas pressionam posição mais firme.

Rita Tavares
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Durante o fim de semana alguns socialistas sentiram falta de uma posição mais firme e clara do partido, de oposição ao ataque dos EUA e Israel ao Irão. José Luís Carneiro era contido na reação, cingindo-se a uma declaração mínima e largada no meio do discurso de apresentação de recandidatura ao partido. O caso engrossou com a questão do uso da base das Lages, nos Açores, mas o PS está a gerir essa parte do dossiê Irão com pinças, em nome da real politik e do posicionamento político.

“Seria difícil para Portugal negar a utilização da base das Lajes” aos EUA, comenta um dirigente socialista com o Observador que se escuda na “real politik existente na diplomacia”. Uma prática que tem tradicionalmente guiado o consenso entre PS e PSD nas questões de política externa e de defesa — especialmente no que toca à relação transatlântica e à cooperação estratégica com os Estados Unidos. E o PS estará mais interessado em ficar nesse centro do que encostado à esquerda nesta matéria. “O PS quer ser prudente“, afirma um dirigente.

Mas o assunto está longe de ser pacífico no partido, onde já desde a semana passada se ouviram algumas vozes muito críticas logo em relação à posição do ministro dos Negócios Estrangeiros quando este dizia que as operações americanas nas Lajes não têm de ser “autorizadas nem conhecidas, nem comunicadas a Portugal.” Na Visão, Eduardo Cabrita dizia tratarem-se de declarações “descaradamente falsas, já que a utilização das Lajes sem restrições só poderia ocorrer, de acordo com o respetivo Tratado, no quadro de uma operação da NATO ou de uma ação aprovada pelas Nações Unidas”. No Facebook, a ex-eurodeputada socialista Margarida Marques partilhava a parte do acordo para o uso das Lajes: “Bom reler para que todos saibamos do que estamos a falar. Não foi isto que nos disse ontem Paulo Rangel a propósito de voos supostamente a caminho do Irão, se for caso disso”.

“Espero que o PS faça o que é exigível”, comentava outro socialista no fim de semana, pressionando uma condenação da colaboração portuguesa na ação de sábado. “O Governo não devia ter autorizado o uso” das Lajes, defendia, já esta terça-feira, um dirigente do PS ao Observador na sequência do que aconteceu no sábado. Na rede social Bluesky, Ana Gomes era mais dura e escrevia: “Cedência, conditional a posteriori da Base das Lajes aos EUA no ataque ilegal a Irão: reflexo serviçal do costume no centrão dos negócios, para mais aterrado com fúrias psicopáticas do Calígula no poder… Ventrulha e sus chegosos acompanham: invocam soberania e alianças para despudoradamente as trair…”

“Portugal devia ter feito o mesmo que Espanha e Reino Unido”, atirou outra fonte do partido em conversa com o Observador já esta semana — os dois países não permitiram o uso das suas bases militares para esta operação (o Reino Unido autorizou depois mas apenas para ações defensivas), o que irritou Donald Trump. Margarida Marques sublinhava ainda a posição de Pedro Sánchez e escrevia, logo após o ataque, tratar-se de “mais uma violação do direito internacional. Argumento ‘defesa’ ? Não era/é verdadeiro para a invasão da Ucrânia pela Rússia e a comunidade internacional imediatamente reagiu. Também não é agora verdadeiro.”

Mas nesta matéria, no PS, o secretário nacional do PS João Torres disse esta noite na CNN Portugal que “o PS nao tem a mesma posição que tem Pedro Sánchez em Espanha ou Keir Starmer. Aceitamos que as Lajes sejam utilizadas se não for violado o direito internacional”, afirmou.

Em relação às Lajes, a primeira posição de Paulo Rangel, ainda antes do ataque de sábado, tinha feito o PS decidir chamar o ministro ao Parlamento para esclarecimentos sobre o assunto, numa reunião da comissão parlamentar dos Negócios Estrangeiros à porta fechada. A proposta só foi aprovada esta terça-feira, com as abstenções de PSD e Chega, e acabou por servir para o PS mostrar iniciativa numa questão que, entre a semana passada e esta, ganhou outro gás, depois do que se passou no Irão.

Na sexta-feira passada, ao final da tarde, José Luís Carneiro foi contactado pelo primeiro-ministro para o informar de um pedido dos americanos para recorrer às Lajes numa operação militar e conhecer a opinião do socialista. Carneiro fixou o limite do PS no respeito pelo direito internacional e foi aí mesmo que ficou, de forma calculada e muito contida, quando no dia seguinte, durante a apresentação da sua recandidatura à liderança do PS, cingiu uma reação sobre o ataque da madrugada de sábado à frase: “As intervenções militares não podem ocorrer à margem do direito internacional”.

Mas no partido há quem quisesse ver o líder do PS mais afirmativo, desde início, na condenação da posição do Governo e também no uso da base aérea portuguesa pelos EUA. Só esta terça-feira, numa entrevista à Antena 1, o líder parlamentar do PS foi mais longe ao dizer que a intervenção dos EUA e de Israel “foi feita ao arrepio do direito internacional. E à noite, na CNN, o dirigente nacional João Torres condenou mais abertamente a posição do Governo: “O cumprimento do direito internacional é um pilar essencial da nossa visão sobre a diplomacia. E tanto o afirmámos o primado do direito internacional quando existiu uma operação na Venezuela, como afirmamos hoje na operação que os EUA e Israel desencadearam sobre o Irão”.

Mesmo assim, na questão concreta das Lajes, o PS não tem avançado além do pedido de esclarecimentos sobre o cumprimento das condições que foram fixadas pelo Estado português aos EUA. Na mesma entrevista, embora tenha admitido que um partido que condena uma operação “ao arrepio do direito internacional não deve ter lugar em geral e também não deve acontecer tendo por base a utilização da base das Lajes, também diz que isso não quer dizer que o PS se tenha oposto: “A conclusão não é nada óbvia”.

“Não vamos fazer disto o cavalo de batalha”, comenta um dirigente que diz, no entanto, que são necessário esclarecimentos do ministro. A posição inicial do Governo português foi, aliás, classificada por Eurico Brilhante Dias como a de uma país a “agachar-se, para ver se passa.” Quanto à “autorização condicionada” dada por Portugal ao uso das Lajes — tem de ser numa lógica de retaliação, ser “necessária e proporcional” e apenas visar alvos militares — tudo o que o PS pediu até aqui é que o Governo verifique se as condições estão a ser cumpridas e que o primeiro-ministro informe o Parlamento e o país sobre a situação. Por agora, o PS considera que estas “limitações, no conjunto, parecem fazer algum sentido”, como declarou Torres na CNN Portugal, ainda que existam dúvidas sobre o uso da expressão “retaliação”.

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