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Os Terno Rei em Portugal: o doce balanço da melancolia indie rock paulista

Estiveram no Porto, depois em Lisboa. Vimo-los em palco, falámos com eles no bastidores. A banda que coleciona sucesso no Brasil segue viagem pela Europa.

Larissa Faria
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Sob a penumbra do palco do LAV2, os próprios músicos que ali se apresentariam a seguir faziam os últimos ajustes nos instrumentos, sem o apoio de roadies ou técnicos. Passam quase despercebidos pelo público, que está em silêncio, apesar de estar ali para os ver. Das cinco guitarras que costumam levar nas digressões, trouxeram apenas duas, para Bruno Paschoal e Greg Maya. A bateria, decorada com a frase “Palestina livre”, foi emprestada por amigos. Poderia este cenário ser a descrição de uma banda ainda “de garagem”, mas não é o caso.

Os Terno Rei, que se formaram em 2010, costumam esgotar sem esforços os bilhetes dos concertos na sua cidade natal, São Paulo — a gigante de 12 milhões de pessoas, mais do que todos os habitantes do território português. Apenas no Spotify, têm mais de 245 mil ouvintes por mês. No “mar de asfalto” sul-americano, os músicos conseguiram encontrar os “sinais” de saída no “labirinto místico onde os grafites gritam”, como a metrópole é descrita pelo rapper Criolo. Tornaram-se referência na cena do indie rock contemporâneo brasileiro com letras que relembram os “dias da juventude”, seus medos e desejos. Cantadas com melancolia na voz doce do vocalista e baixista Ale Sater, contrastam de forma harmónica com as guitarras distorcidas.

Mal sobem ao palco, o público mostra ao que veio, mas de forma contida. Não há gritos histéricos como de costume nas apresentações em cidades brasileiras, onde os fãs têm 20 e poucos anos. Aqui, já na “casa dos 30”, a apreciação existe, mas com o cantar das letras [em especial, as dos álbuns Gêmeos e Violeta] e o bater de palmas fervoroso ao fim de cada uma delas. Além de Sater, participa em algumas canções o guitarrista Bruno Paschoal, pelo que a banda já mantém como “tradição” na sua setlist o seu vocal solo em Estava Ali, retratando a catarse em seguir a liberdade de ser quem se quer e não ceder às dores de um coração partido: “Vou deixar a vida me dizer / Que eu não sou capaz de ser quem você quer /E não aguento mais o peso que me traz / Sentido não faz mais / Eu vou me esconder”.

Os Terno Rei já subiram aos palcos do Rock in Rio e Lollapalooza Brasil. Mas foi nas edições de 2024 e 2025 do Paredes de Coura que viram crescer o interesse dos portugueses. Nesta digressão europeia que arrancam agora, a convite da Primavera Tours — a curadoria de concertos do festival Primavera Sound em pequenas salas de espetáculos — iniciaram em Portugal (também no Porto, com bilhetes esgotados no Hard Club) os concertos. Apresentam o quinto álbum, Nenhuma Estrela, lançado em abril de 2025, que foi tocado também em Madrid e seguiu para Barcelona, cidade onde, em 2015, no festival Primavera Sound, realizaram a primeira apresentação internacional. Ainda em março, têm concertos marcados em Paris, Amesterdão, Londres e Dublin.

Não foi, no entanto, de forma “misteriosamente simples” (como diz o último verso de Esperando Você, entoada em coro no LAV) que o grupo passou a ver os resultados do seu trabalho sólido. Com o álbum mais recente, já fizeram mais de 50 concertos. Na sua terceira passagem por Portugal, atraíram não só os brasileiros, mas também “gente curiosa por música”, como eles descrevem, em entrevista exclusiva ao Observador, nos bastidores. Os Capitão Fausto, que “deram boleia” aos também brasileiros d’O Terno, publicaram no Instagram uma imagem de divulgação do concerto dos Terno Rei em Lisboa. “Os nossos amigos, em Lisboa. Não percam!”. São eles as influências musicais dos Terno Rei em Portugal, que referem também gostar dos conjuntos de rock Linda Martini, Mão Morta e Rádio Macau. Foi com o ex-Capitão Fausto Francisco Ferreira, aliás, que os quatro “reis” partilharam a mesa de mistura num DJ Set na Casa Capitão, logo após o concerto em Lisboa.

A experiência de “relembrar” a pouca estrutura dos primeiros concertos, comum a quase todos os artistas em início de carreira, é vista pelos Terno Rei com entusiasmo. “Estamos a fazer tudo”, conta o baterista Luis Cardoso. Porém, “mais confiantes” pela experiência adquirida ao longo de 16 anos juntos, completa Sater. Deixaram no Brasil, por “uma questão de guita”, a equipa completa que os acompanha e também os amplificadores, que foram substituídos por simuladores. A única pessoa que viajou nesta digressão com os quatro músicos é o empresário do seu selo musical, Balaclava Records. É ele que durante os concertos trata de vender os artigos de merchandising aos fãs.

Este downgrade de estrutura não fere o ego dos Terno Rei, que constroem o seu caminho “tijolo por tijolo”, definem. E já trazem nesta estrada, por exemplo, a responsabilidade de uma colaboração com o cantor e compositor Lô Borges, coautor do Clube da Esquina, um dos álbuns mais aclamados pela crítica da história da música popular brasileira. Relógio, que integra o álbum Nenhuma Estrela, tem uma “letra meio surreal, mas com harmonia rebuscada, do jeito que o Lô costumava fazer”, descreve Sater. O grupo se mostra muito feliz e grato pela oportunidade, mas também abalado com a morte inesperada de Borges, em novembro. O seu último trabalho em vida foi o realizado com a banda, oito meses antes.

Mas nem essa música nem outras tiveram a expetativa de serem “feitas para se tornar um sucesso”. O que eles gostam mesmo, admitem, é de “olhar para trás e sentir orgulho” do que fizeram. O trabalho mais recente, o single Você Sabe Bem, ficou de fora da apresentação em Lisboa. Foi lançado em novembro, com os também brasileiros Jovem Dionísio, da cidade de Curitiba, que se deram a conhecer em Portugal no verão de 2022 com o hit Acorda Pedrinho. O sucesso em massa, que ocorreu de forma repentina com os “dionísios”, também se deu com os madeirenses dos Napa, que foram à Eurovisão 2025 com Deslocado. Juntos, os portugueses e os curitibanos lançaram Amor de Novo, em novembro, que quatro meses depois segue a tocar nas rádios.

Os Terno Rei, quando questionados se gostavam de pensar numa “fórmula” que os “elevasse” ao mesmo patamar de cultura de massa a que chegaram os Napa e os Jovem Dionísio, são categóricos. “A gente não quer e não sabe”, conclui Paschoal. A 31 de maio, os Capitão Fausto viajam ao Rio de Janeiro para um concerto com os Terno Rei e os Jovem Dionisio, foi nesta terça-feira anunciado.

E se ainda havia dúvidas sobre a maior presença de brasileiros ou portugueses na passagem dos paulistanos por Lisboa, estas foram deixadas de lado assim que os Terno Rei anunciaram que as músicas a seguir seriam as últimas. O sotaque português surgiu, afiado, com os gritos da plateia, a pedir “só mais uma!”. Voltaram para cantar não só mais uma, mas duas. Encerraram a noite no LAV com Vento na Cara, e, a seguir, com a música que dá nome à cidade em que tudo começou — e onde eles já não estão, há mais de uma década, “perdidos no meio da multidão”: São Paulo.