“Gostaria que os europeus tomassem o controlo do seu próprio destino.” A frase é do Presidente francês, Emmanuel Macron, quando, esta segunda-feira, anunciou o aumento da produção de ogivas nucleares. Poderia, no entanto, ter sido proferida pelo antigo chefe de Estado e fundador da Quinta República francesa. Charles de Gaulle viveu durante o mundo bipolar da Guerra Fria, com duas potências rivais a apostarem na corrida às armas e a transformarem a Europa num palco de disputa por zonas de influência. Em vez de ficar protegido pelo guarda-chuva nuclear norte-americano, o general preferiu investir num programa de dissuasão nuclear autónomo, aposta que voltou a ser uma prioridade para o Palácio de Eliseu.
O contexto é totalmente distinto, ainda assim. Em vez de o mundo se basear na competição constante entre os Estados Unidos e a União Soviética, há dois blocos a pressionarem a Europa. Por um lado, sob a liderança de Donald Trump, os Estados Unidos da América (EUA) prestam cada vez menos atenção à segurança europeia, preferindo focar-se noutras arenas, como no Indo-Pacífico ou o Médio Oriente. Por outro, a Rússia iniciou uma guerra na Ucrânia e não esconde as suas intenções expansionistas. Encurralada entre a incerteza de Washington e a agressividade de Moscovo, França pretende ganhar projeção na Europa.
Olhando com desconfiança para os Estados Unidos, Charles de Gaulle fez de França a quarta potência nuclear na História, a seguir aos Estados Unidos, à União Soviética e ao Reino Unido. O general, que se notabilizou durante as Guerras Mundiais, temia que os EUA abandonassem a Europa e optassem por uma política de isolacionismo, uma estratégia que adotaram noutras épocas históricas. Aliás, Washington hesitou a envolver-se nos dois conflitos mundiais e De Gaulle receava que, em caso de uma nova guerra, isso voltasse a acontecer no futuro. Para o antigo Presidente francês, existia o risco de a Casa Branca preferir salvaguardar os interesses norte-americanos, ao invés de defender os europeus.
Num mundo em que armas nucleares se tinham tornado o eixo central da dissuasão entre as grandes potências, o general De Gaulle tomou a iniciativa de construir um arsenal com centenas de ogivas. Além disso, em 1966, o antigo Presidente retirou França do comando integrado da NATO, decisão que ainda acelerou a construção de um programa nuclear totalmente independente dos norte-americanos.
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Ao longo das últimas décadas, as prioridades alteraram-se. O fim da Guerra Fria e o desmembramento da União Soviética travaram a corrida ao armamento nuclear e permitiram uma redução significativa dos arsenais. Os europeus investiram menos em Defesa e passaram a contar sobretudo com o guarda-chuva nuclear norte americano. A invasão russa da Ucrânia alterou radicalmente este paradigma, contudo. A reeleição de Donald Trump — um líder que já tinha manifestado várias dúvidas em relação à NATO no primeiro mandato — parece ter vindo dar o empurrão necessário para que Paris assuma a liderança europeia no armamento nuclear. E é a única capital capaz de o fazer no seio da União Europeia.
“Agiram sempre na lógica do próprio interesse.” A desconfiança de De Gaulle em relação aos EUA
Quando as tropas nazis invadiram e derrotaram a França em maio de 1940, o país foi dividido: o norte ficou sob ocupação alemã, enquanto no sul era criada a República de Vichy, um regime colaboracionista com o Terceiro Reich de Adolf Hitler. Charles de Gaulle recusou aceitar essa solução e formou o movimento de resistência França Livre, a partir do exílio, lutando pela independência francesa. Em busca de reconhecimento e apoio nas capitais aliadas, o general ficou profundamente ressentido com o facto de os Estados Unidos terem reconhecido oficialmente a República de Vichy em 1940, numa altura em que Washington tentava manter a neutralidade.

Como recordou o antigo embaixador norte-americano entre 1961 e 1962 em França James M. Gavin num artigo na revista Atlantic, o general fixou-se em dois acontecimentos históricos para justificar a sua desconfiança face aos Estados Unidos. “Na Primeira Guerra Mundial, esperámos quase três anos com França à beira do desastre antes de nós [norte-americanos] os apoiarmos. Na Segunda Guerra Mundial, França foi ocupada pelos alemães e nós reconhecemos o Governo de Vichy. Ele insinuava que se deveria presumir [que os Estados Unidos] agiriam sempre na lógica do seu próprio interesse.”
Estas experiências moldaram para sempre o entendimento de Charles de Gaulle em relação à política externa dos Estados Unidos. Apesar disso, o general não deixou de colaborar com as tropas norte-americanas e dos restantes aliados quando estas decidiram entrar na Segunda Guerra Mundial, no que foi um esforço conjunto para derrotar as tropas das potências do Eixo. O antigo Presidente francês desempenhou também um papel preponderante durante o Governo Provisório durante dois anos até ao surgimento da IV República.
De Gaulle afastou-se da política assim que foi criada a IV República, em 1946. Nos primeiros anos, os norte-americanos apoiaram a Europa financeiramente com o Plano Marshall e desempenharam um papel central na segurança do velho continente, com a criação da NATO. Paris recebeu verbas dos apoios financeiros de Washington e foi um dos membros fundadores da Aliança Atlântica. Na altura, os apoios do outro lado do Atlântico eram fundamentais: França estava destruída depois da Segunda Guerra Mundial.
Lidando com a destruição resultante da guerra, a IV República enfrentava várias dificuldades para governar. O regime parlamentarista levou a uma sucessão de governos de curta duração, que se viam ainda a braços com o início da vaga de descolonização. A vontade independentista crescia na Indochina, na Argélia e na África Ocidental. Durante a Guerra Fria, a União Soviética alimentava esses movimentos de independência. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos também chegaram a defender o princípio da autodeterminação, demonstraram antagonismo em relação ao colonialismo europeu e apoiaram taticamente alguns grupos que desejavam a independência — o que nunca agradou a Paris.
Por conta da instabilidade dos governos e da guerra de independência na Argélia, a IV República entrou em colapso em 1958, abrindo caminho ao regresso do principal veterano de guerra e uma figura de relevo: Charles de Gaulle. Inicialmente liderando um Governo de salvação nacional, o general transformou França num país com um regime presidencialista através de um referendo. Era o início da V República, que se mantém até hoje.
De Gaulle fundou a V República — e apostou em testes nucleares
França tinha um Presidente com mais poderes e mais desconfiado em relação aos Estados Unidos. Em 1958, apesar de ser um período de degelo com alguma redução da tensão, os Estados Unidos e a União Soviética mantinham uma corrida ao armamento, aumentando e modernizando os respetivos arsenais nucleares. Assim que formou o primeiro Governo em 1959, nomeando o aliado Michel Debré para primeiro-ministro, o general deu grande importância à política externa e à autonomia nuclear.

“Nos primeiros meses de 1960, acolheu uma longa visita de estado a França de Nikita Khrushchev [ex-líder da União Soviética], fez visitas de estado a Londres e à América do Norte e foi o anfitrião de um grande comício internacional em Paris. A sua obsessão era reorientar a defesa de política de França para longe da Aliança Atlântica e também criar um mecanismo independente de dissuasão nuclear”, escreveu o historiador britânico Julian Jackson no livro A Certain Idea of France — The Life of Charles de Gaulle.
Uma das principais queixas de Charles de Gaulle era o facto de os Estados Unidos privilegiarem o Reino Unido entre os restantes aliados europeus. Tentando contrariar esse domínio dos dois países, França propôs a criação de uma estrutura da NATO tripartida, dirigida por um núcleo entre Paris, Londres e Washington, que tomaria as decisões estratégicas, incluindo em relação à política nuclear da Aliança. No entanto, os EUA rejeitaram essa solução, não estando dispostos a ceder no controlo das armas nucleares que já tinha destacado para solo europeu em países como Itália, Países Baixos ou Bélgica.
Em 1960, dois anos depois de Charles de Gaulle ter chegado ao poder, França testou a primeira arma nuclear em território argelino. O país juntou-se à exclusiva lista de potências nucleares, ainda que não fosse clara a direção. Apostaria em armas nucleares táticas ou num armamento mais sofisticado? Para o general, isso era irrelevante. “Charles de Gaulle não estava interessado nas questões da ‘teologia’ nuclear. A sua ambição era a dissuasão francesa ancorada no seu pessimismo sobre a imprevisibilidade da História e a sua crença de que uma grande potência precisava de ter os meios para ser independente”, explica Julian Jackson.
Nos Estados Unidos, havia alguma preocupação com a autonomia nuclear francesa. Quando Paris testou a primeira arma nuclear, o Presidente norte-americano Dwight Eisenhower estava em final de mandato. Logo que tomou posse, John F. Kennedy desenvolveu uma política de “nova abordagem” para lidar com França. A questão central nem era propriamente um eventual arsenal nuclear francês, mas o precedente que poderia abrir para que outros países europeus — em particular a Alemanha Ocidental — seguissem o mesmo caminho
À luz desta nova estratégia, a Casa Branca procurou perceber melhor a lógica de Charles de Gaulle e tentou alertá-lo para os riscos que acarretaria, principalmente em relação a um potencial arsenal nuclear alemão. No livro de Julian Jackson, há uma troca de correspondência que demonstra que o general estava convicto da sua posição: “Não creio que, depois do que aconteceu nos últimos cinquenta anos, o lado francês possa ter as mesmas recordações e os mesmos temores que vos levam a recusar uma eventual ajuda aos alemães”.

O general mantinha‑se irredutível e avançava com o programa nuclear. A médio prazo, o objetivo de Charles de Gaulle consistia, como resume Julian Jackson, na “emancipação da Europa da dependência da proteção norte‑americana, oferecendo aos parceiros de França uma eventual alternativa sob o guarda‑chuva nuclear francês”. França preservou a autonomia da sua estratégia nuclear em relação aos Estados Unidos, deixando claro, ao mesmo tempo, que não partilharia o seu arsenal com a Alemanha Ocidental.
De Gaulle retira França do programa integrado da NATO: sentia que estava em “pé de igualdade” com EUA e URSS
Na década de 60, França foi aumentando o número de ogivas nucleares e multiplicou os equipamentos capazes de as transportar — entre eles, o bombardeiro estratégico Mirage IV, um dos símbolos franceses da Guerra Fria. Contrariamente ao Reino Unido, que aprofundou a relação com os Estados Unidos e se tornou dependente da tecnologia do outro lado do Atlântico, Paris insistia em desenvolver uma capacidade nuclear própria.
Ao longo dos anos, Charles de Gaulle sempre manteve várias reservas quanto à presença de França no programa integrado da NATO. Em 1966, oficializou a rutura com esta força unificada militar dentro da Aliança numa carta ao ex-Presidente norte-americano, Lyndon Johnson. Como escreve num artigo Pascal Boniface, diretor do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, a decisão deveu-se em parte ao facto de França já ser uma potência nuclear.
“[De Gaulle] achava que não precisava do guarda-chuva nuclear norte-americano. França era capaz de deter a ameaça soviética por si própria, sem depender da proteção dos Estados Unidos”, refere Pascal Boniface, acrescentando que Charles de Gaulle acreditava que Paris poderia falar “de igual para igual” com Moscovo e Washington. “De Gaulle acreditava que Washington tinha demasiada influência na política francesa e que era do melhor interesse da nação ganhar ascendente para lidar com os EUA”, salienta o analista.
A medida recebia várias críticas de todo o espectro político francês, à exceção do Partido Comunista (ainda que defendesse a saída do comando integrado da NATO por motivos distintos dos de Charles de Gaulle). Os Estados Unidos ficaram incrédulos e anteviram um golpe sério na coesão da Aliança Atlântica, receando que outros países seguissem o exemplo francês. Isso poderia fragilizar a credibilidade da NATO, o que poderia dar uma vitória à rival União Soviética.
Apesar de todas as críticas que o general recebeu, os sucessores de Charles de Gaulle mantiveram a mesma estratégia. Mesmo o socialista François Mitterrand — que contestou a saída do comando integrado da NATO — recusou reintegrar a França nessa estrutura, ainda que tenha aprofundado a cooperação com a Aliança Atlântica. Ao mesmo tempo, Paris preservou o seu arsenal nuclear e a doutrina de independência estratégica face aos Estados Unidos.

Em 1989, o final da Guerra Fria teve várias repercussões na defesa europeia, incluindo a francesa. Depois de um mundo dividido entre duas potências, o bloco soviético colapsou. Sobravam apenas os Estados Unidos, um aliado natural de França, apesar de todas as diferenças entre os dois países. Parecia confirmar-se, nas palavras do filósofo Francis Fukuyama, que se tinha chegado ao “fim da História” — a democracia liberal e o capitalismo tinham aparentemente triunfado.
Neste novo contexto, assistiu-se praticamente ao fim da corrida às armas. Várias potências, incluindo França, reduziram significativamente os seus arsenais e suspenderam os testes nucleares. Numa tendência mais ampla nos países europeus, a área da Defesa deixou de ser uma área de investimento prioritária. Mesmo os franceses passaram a contar mais com o guarda‑chuva nuclear norte‑americano como complemento à sua própria dissuasão.
Depois de décadas fora do comando integrado da NATO, o Presidente francês, Nicolas Sarkozy, reintegrou Paris naquele mecanismo da Aliança Atlântica em 2009. Porém, França nunca abdicou das suas ogivas nucleares nem da sua autonomia estratégica. Mesmo assim, o escudo norte-americano afirmou-se como a principal garantia de dissuasão na Europa — e a estratégia de criar um guarda-chuva francês que protegesse outros aliados europeus ficou totalmente fora das discussões do continente.

Macron retorna à estratégia de De Gaulle
Em 2014, surgiu a primeira onda de choque. Numa Europa praticamente em paz desde o fim da União Soviética, a Rússia anexou a Crimeia, um território pertencente à Ucrânia, e instigou um conflito armado com forças separatistas na região ucraniana do Donbass. O Presidente russo, Vladimir Putin, já tinha mostrado as garras na Chechénia e na Geórgia, mas recorreu à força aberta contra um Estado europeu de grande dimensão pela primeira vez.
Após anos de desinvestimento da Europa na Defesa, durante a cimeira da NATO em 2014 o antigo Presidente norte-americano, Barack Obama, tentou chegar a um compromisso com os aliados europeus: procuravam atingir 2% do PIB em despesas militares no prazo de um década. Entre os Estados-membros da NATO, começavam a soar os alarmes de que a leste havia novamente uma ameaça expansionista.
Dois anos depois, a NATO enfrentou (e enfrenta) talvez um dos testes mais difíceis, desta vez a oeste: Donald Trump. O atual Presidente norte-americano sempre manifestou várias dúvidas em relação à continuidade da Aliança Atlântica, colocando o foco geopolítico no Indo-Pacífico. Embora tendo havido alguma tensão, os Estados Unidos não abandonaram a organização militar.

Oito anos depois, no regresso à Casa Branca, Donald Trump manteve a mesma postura desafiadora quanto à NATO, exigindo que os Estados-membros gastassem pelo menos 5% do PIB em Defesa, algo com que praticamente todos os países (à exceção de Espanha) concordaram. Embora no segundo mandato o atual Presidente se tenha rodeado de aliados que defendem o isolacionismo, como o vice-presidente JD Vance, o chefe de Estado ainda vê a organização militar com sendo útil para os Estados Unidos.
A guerra na Ucrânia também veio motivar uma maior união entre os Estados-membros da NATO. A leste, a Europa vê uma potência expansionista e revisionista, a Rússia, que encara os europeus como os principais inimigos. A oeste, aquele que deveria ser o maior amigo dos europeus tem um líder inconstante e que não se sabe se defenderia um aliado caso fosse atacado.
Por tudo isto, Emmanuel Macron considera ser altura de apostar num “programa de dissuasão avançado”. Esta segunda-feira, o Presidente francês avançou que o país aumentará o número das suas ogivas nucleares (neste momento tem 300), anunciando a construção de um submarino nuclear de mísseis balísticos a que foi dado o nome Invincible. “A próxima metade do século será uma era de armas nucleares”, prevê o líder de França, lamentando que os europeus se tenham habituado a que a sua segurança “dependa de regras estabelecidas por terceiros”.
“Estamos a assistir, ao mesmo tempo, a um aumento do risco de os conflitos ultrapassarem o limiar nuclear e a uma intensificação desses conflitos”, avisou o chefe de Estado francês. Liderando a única potência nuclear na União Europeia, França abriu a possibilidade de que países parceiros participem e acolham temporariamente meios nucleares franceses, nomeadamente aeronaves com capacidade para transportar ogivas. Emmanuel Macron indicou que já houve discussões com a Alemanha, a Polónia, os Países Baixos, a Bélgica, a Grécia, a Suécia e a Dinamarca, articulando-se também com o Reino Unido.
Das palavras proferidas pelo líder francês esta segunda-feira não é possível inferir que pretenda a curto prazo a implementação de um “guarda-chuva nuclear” de França à Europa. No entanto, o assunto já foi discutido entre Emmanuel Macron e o chanceler alemão, Friedrich Merz. Seria o reavivar do sonho de Charles de Gaulle — o general desconfiado dos Estados Unidos que preservou a autonomia estratégica e as capacidades de dissuasão de França.