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Três consequências do regresso de Passos Coelho

Se Passos Coelho marcou no terreno nitidamente os caminhos divergentes entre o PSD bom e o PSD mau, a reação desmiolada de Hugo Soares queimou as pontes entre um e outro

Rui Rocha
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Durante anos, criou-se um certo sebastianismo em torno da figura de Pedro Passos Coelho. Como qualquer bom sebastianismo, alimentava-se da ausência, do nevoeiro, dos silêncios e de um ou outro relato de avistamento. O sebastianismo não é muito agradável para os que subiram ao palco depois do “desejado” porque projeta uma sombra: E se ele regressa? Mas também traz uma dimensão que lhes é confortável: podem invocar o ausente e reescrever o seu pensamento da forma que lhes for mais conveniente sem que o ausente possa contrariar apropriações abusivas. Todavia, com o regresso de Passos Coelho ao palco político, as coisas mudaram. Agora, é o próprio que transmite as suas ideias na primeira pessoa, sem margem para reinterpretações criativas. O seu nome já não pode ser invocado em vão. E as suas palavras nas últimas semanas têm pelo menos três consequências que alteraram já profundamente a política portuguesa.

1 A criação do PSD bom e do PSD mau – O discurso recente de Passos Coelho e as suas críticas diretas a Montenegro abrem uma fratura clara dentro do próprio partido. De um lado, está o PSD situacionista, preso por interesses e cumplicidades, que navega à vista, sem ímpeto reformista. Esse PSD tem o rosto de Luis Montenegro, incapaz do impulso de coragem na governação e que arrasta o país para a mediocridade. Um PSD mau. A este PSD, opõe-se um outro, enérgico, determinado, reformista, patriótico. O PSD bom. Aquilo que o PSD devia ser de acordo com Passos Coelho. Ora, se Passos Coelho marcou no terreno nitidamente os caminhos divergentes entre o PSD bom e o PSD mau, a reação desmiolada de Hugo Soares queimou as pontes entre um e outro. Não se trata apenas da patética noção de reformas estruturais que o fiel escudeiro de Montenegro revelou, reconduzida à valorização de carreiras da função pública e à redução de alguns impostos num contexto de elevadíssima carga fiscal. Trata-se adicionalmente da afirmação de que Passos Coelho está errado. Nesse momento, os dois caminhos divergiram definitivamente. Não há nenhuma crítica de um adversário político que tenha reduzido de forma tão imediata o espaço do PSD de Montenegro como a reação de Hugo Soares. Nesse momento, o PSD de Montenegro assumiu pela voz de Soares o ativo tóxico do seu situacionismo e desistiu de ser o PSD reformista proposto por Passos Coelho. A consequência eleitoral é clara: quem quer o PSD bom, não pode apoiar o PSD mau de Montenegro e Soares.

2 As reformas passam a ser o centro da discussão política – Nos últimos anos, a imigração foi o tema praticamente único do debate, com o Chega a assumir o papel de referência polarizadora. Isto não significa que o tema não continue a ser importante, que não tenha de ser debatido e que não continue a criar clivagens. Todavia, o regresso de Passos Coelho ao palco político deslocou o eixo da discussão para a necessidade de reformas estruturais no país. No roteiro político de Passos Coelho, a imigração é um tema importante que deve ser tratado. Mas as reformas estruturais são a prioridade das prioridades. Ora, em matéria de reformas, o mapa político é totalmente diferente daquele que resulta do posicionamento sobre as questões da imigração. Quem é favorável à privatização da TAP? Quem defende a reforma laboral? Quem tem coragem para discutir o modelo da Segurança Social? Quem está disponível para afrontar interesses instalados e para desagradar aos grandes agregados eleitorais em nome de uma visão de médio e longo prazo? Quem fica de um lado e quem fica de outro? Com as reformas no centro do debate, a relevância e o posicionamento de cada um dos atores políticos altera-se substancialmente.

3 As linhas vermelhas mudaram de lado – Numa avaliação mais superficial, dir-se-á que o discurso de Passos Coelho acabou com as linhas vermelhas ao afirmar que Montenegro deveria ter negociado com o Chega. É de facto assim, independentemente do juízo que se possa fazer sobre essa afirmação. Mas, na prática, é mais do que isso. O que aconteceu é que Passos Coelho passou as linhas vermelhas para o lado de André Ventura. Se a dinâmica da confrontação política for ditada nos próximos meses pelo eixo das reformas estruturais, é André Ventura que tem de posicionar-se: está disponível para viabilizar reformas, reformas a sério, reformas que terão até custos eleitorais? Ou a tentativa de colagem ao discurso reformista de Passos Coelho é mero oportunismo que levará mais adiante a um recuo em todos os temas determinantes, como já aconteceu a propósito da reforma laboral. É que aí, o cálculo eleitoral fez Ventura colocar-se imediatamente do lado do bloqueio e do situacionismo. Se o posicionamento político do Chega continuar a ser anti-reformista e persistir na tentativa de agradar a todos, dos funcionários públicos aos pensionistas e aos mais variados grupos de pressão e interesses, já não serão outros a isolar o Chega. Será o Chega a isolar-se a si mesmo.