Depois de uma primeira reação contida na segunda-feira, quando o mercado abriu pela primeira vez desde o ataque americano e israelita ao Irão, os preços do petróleo e sobretudo do gás natural ganharam força nesta terça-feira. É a reação ao fecho do Estreito de Ormuz, oficializado pelo Irão na segunda-feira à noite e à suspensão da produção por parte do maior fornecedor de gás natural liquefeito (GNL) na região. Mas, acima de tudo, à incerteza sobre a duração da ofensiva contra o Irão e a capacidade deste retaliar, afetando a produção, mas sobretudo o transporte de petróleo e gás a partir do Golfo Pérsico.
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Na Ásia, principal cliente de gás do Qatar, já há notícias de racionamento no uso de gás na Índia com a ativação de planos de emergência, noticia a Reuters. Outros países como o Japão, Taiwan, Bangladesh e Paquistão não esperam um impacto imediato, na medida em que já receberam as cargas previstas para este mês, mas estão a tentar diversificar as suas fontes de importação.
A União Europeia começou por indicar que não estava em causa o abastecimento ao continente, na sequência do ataque que começou no sábado e das medidas de retaliação do Irão a vários países do Médio Oriente. Para esta quarta-feira, foi convocada uma reunião do grupo de coordenação do gás para avaliar o impacto deste conflito no abastecimento e coordenar resposta à crise. E uma situação que pode agravar o efeito na Europa é o baixo nível das reservas de gás no continente, abaixo de 30% da capacidade. O gás armazenado nos vários hubs europeus está ao nível mais baixo desde a crise provocada no abastecimento pela invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, ou seja há quatro anos.
Os níveis de reservas estão particularmente baixos na Alemanha e no Norte de Europa depois de um inverno frio e esta seria a altura para as empresas irem ao mercado recompor os stocks. Uma tarefa que será muito dificultada pela crise no acesso ao gás natural liquefeito (GNL) do Médio Oriente. Apesar da Europa não ser a maior cliente deste GNL, em particular do Qatar que representa cerca 7% das suas compras, não vai deixar de ser afetada pela corrida às cargas de GNL por parte dos países asiáticos.
Essa é umas das razões que explica a subida dos preços no principal índice europeu para o mercado spot — o TTF dos Países Baixos saltou mais de 50%. O custo do gás para entrega em maio passou de 31,5 euros por MW hora para cerca de 53 euros por MW hora, durante esta tarde. Ainda estão longe do nível atingido na crise de 2022 — mais de 300 euros por MW — mas já há quem receie uma repetição, sobretudo porque a Europa tem cada vez mais alternativas de abastecimento depois de ter decidido já este ano fechar as portas ao gás natural liquefeito russo até 2027.
Este cenário é referido pelo grupo de reflexão (think tank) Bruegel numa análise da passada segunda-feira. “A maior vulnerabilidade da Europa é o GNL. Se o fluxo de GNL que chega do Estreito de Ormuz for interrompido, a disponibilidade de gás spot para entrega no curto prazo encolhe imediatamente. A Europa seria então forçada a competir com as compradores da Ásia por cargas flexíveis no mercado diário — é um cenário que foi visto durante a crise de energia entre 2021 e 2023”.
Num estudo realizado em junho de 2025, o Instituto de Oxford para os Estudos da Energia produziu um modelo para simular os impactos do fecho do Estreito de Ormuz no mercado global do gás e estimou que o choque no preço da perda do gás liquefeito fornecido pelo Médio Oriente “será similar ao choque no preço de 2022 que se seguiu à invasão da Ucrânia pela Rússia”. Conclui ainda que um choque similar ao de 2022 teria “consequências duras para os orçamentos dos governos da Europa e da Ásia”. Esta análise admite até que a União Europeia poderia adiar o plano de banir o gás natural liquefeito russo que foi aprovado já este ano para ser concretizado até 2027.
E Portugal?
O mercado português está mais protegido numa eventual crise de abastecimento de gás, porque os principais fornecedores estão a Ocidente — Nigéria e Estados Unidos — e existem contratos de longo prazo com as grandes empresas de energia, em particular a Galp que opera também como vendedora no mercado internacional. Estes contratos dão maior segurança no abastecimento e também no preço. No entanto, e durante a crise de 2022/23, uma dessas empresas, a americana Venture Globals, desviou entregas contratadas pela Galp para outros clientes (que pagariam mais). Esta falha está em arbitragem, mas a Galp continua a contar com as cargas deste fornecedor, explicou João Diogo Marques durante a conferência com analistas, após a apresentação dos resultados.
“Estamos muito focados na entrega de cargas deste operador. Tudo tem sido cumprido. Esperamos receber este ano 15 cargas”. A Galp está muito ativa na gestão do risco dos contratos de gás, em contacto direto com os clientes e procurando oportunidades no mercado.
Outra consequência de uma nova crise do gás é o contágio ao mercado da eletricidade. Portugal e Espanha têm estado, para já, relativamente protegidos na exposição ao gás natural, devido à abundância de fontes renováveis — em particular hídrica — na produção de eletricidade.
A Península Ibérica tem conseguido preços muito inferiores ao resto da Europa e, durante as cheias de fevereiro, Portugal até teve dias com preços historicamente baixos. Até ao início desta semana, os preços grossistas da eletricidade continuavam baixos, porque as centrais a gás estavam apenas a ser usadas para serviços de sistema e não para produzir energia. Mas a negociação desta terça-feira para os preços que vão vigorar na quarta-feira revela uma aceleração. O preço ibérico passou de 28,4 euros por MW para 56,4 euros por MW. Não são preços anormais, mas estão muito acima dos registados nas últimas semanas.