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Entre a decapitação e a escalada: o Irão, Trump e o risco de uma crise Euro-Atlântica

O conflito deixou de ser uma troca entre Israel (com apoio dos EUA) e Irão. Com meios navais gregos, caças britânicos, franceses a caminho e ataques a território do Reino Unido a dimensão mudou.

Rui Martins
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Antes de mais, é preciso recuar um passo e olhar para a possível origem deste conflito. Nada disto nasce no vazio. O Irão está sob pressão há vários anos (sanções, sabotagens, confrontos indiretos através de proxies) e temos uma Administração norte-americana que interrompe negociações e opta por uma ação militar direta com demasiada facilidade. Quando se passa da dissuasão para o ataque preventivo, muda-se o patamar estratégico. E isso raramente acontece apenas por razões militares…

Mas quando se aborda este conflito é importante perceber que estamos num equilíbrio delicado: Pode haver quem defenda uma mudança de regime em Teerão – e realisticamente essa mudança, sejamos claros, se for mesmo acontecer a curto prazo, só poderá virá de fora – mas isso não significa apoiar uma campanha aérea prolongada que inevitavelmente multiplicará baixas civis e consolidará ressentimentos. Existe uma linha muito estreita entre enfraquecer um regime tirânico e destruir um país. E quanto mais tempo dura, mais este risco aumenta e aumenta a possibilidade de o país cerrar linhas em torno de um regime que apesar de odioso, é o regime nacional e que está a ser agredido a partir do exterior e que, apesar de impopular tem alguns milhões de apoiantes incondicionais (muitos por razões económicas) no seu interior e na numerosa diáspora iraniana.

Donald Trump parecia acreditar que poderia executar uma operação relâmpago, esmagar a liderança iraniana e forçar um colapso rápido. Mas o Irão não é um Estado periférico sem profundidade estratégica. É uma potência regional com massa demográfica, influência histórica e capacidade militar relevante. O incidente de “fogo amigo” no Kuwait (3 F-15 abatidos, sem baixas, pelo sistema de defesa aérea local) pode repetir-se mais vezes se o conflito se mantiver nesta intensidade durante mais do que 2 ou 3 semanas. Por outro lado, a tensão naval no Estreito de Ormuz com ataques a petroleiros, instalações de produção e distribuição de gás e petróleo nos países do Golfo farão aumentar os preços dos combustíveis no mundo (apesar da maior diversificação europeia em termos de fontes e da redução da dependência – via renováveis – dos combustíveis fósseis do Médio Oriente).

Apesar destes riscos porque é que Trump decidiu avançar sem consenso sólido no Congresso, sem coligação internacional ampla e sem preparar a opinião pública para uma guerra prolongada levanta uma pergunta inevitável: porque agora? Desde logo, porque tem pressa e está habituado a agir sozinho. Mas também porque as eleições intercalares são um fator clássico na política americana. Conflitos externos tendem a recentrar o debate em segurança e liderança. Soma-se a isso a reativação cíclica do caso Jeffrey Epstein, que continua a gerar pressão mediática sobre figuras do establishment.

Mas, no plano estrutural, eliminar o Líder Supremo não equivale automaticamente à queda do regime. O sistema iraniano é institucionalmente denso e fortemente apoiado pela Guarda Revolucionária Islâmica. Não é um regime que colapse por um processo simples de decapitação de lideranças. O sucesso aparente do caso venezuelano pode ter insuflado o ego de Trump (o principal condicionante em todas as suas acções) até um nível perigoso: o Irão não é, nunca foi e nunca será a Venezuela do Médio Oriente: é um adversário muito mais poderoso, resistente e com um eixo de apoio regional (proxies e alianças com Rússia e China) que a Venezuela não possuía.

O que observamos agora: nestes primeiros dias de Março, é uma escalada de intensidade crescente, tanto militar como política.

Por um lado, os ataques israelitas contra instalações do regime em Teerão decorrem de forma praticamente ininterrupta desde a manhã de 2 de março e agora que as defesas aéreas foram anuladas em plena luz do dia. Conforme anunciado por Benjamin Netanyahu, a campanha aérea não só continua como está a intensificar-se, agora com foco em alvos estratégicos e infraestruturas críticas do regime.

A escalada ganhou uma dimensão nova com o envolvimento direto de membros da NATO: a Grécia anunciou o envio de meios navais e aéreos para o Mediterrâneo Oriental e para Chipre. Serão destacadas duas fragatas da Marinha Helénica, incluindo a nova FDI HN HS Kimon, de construção francesa, um navio moderno concebido para guerra antiaérea e anti submarina num ambiente de alta intensidade. Por seu lado, a Royal Air Force confirmou que caças Eurofighter Typhoon iniciaram patrulhas aéreas de combate sobre o Golfo Pérsico e que já terão abatido múltiplos drones iranianos com destino ao Qatar (país que, note-se, no passado serviu de “safe haven” a dirigentes do Hamas e talibãs).

A este respeito, importa sublinhar um ponto importante: Akrotiri e Dhekelia são territórios soberanos britânicos. O Reino Unido é membro da NATO. Se ativos ou territórios britânicos forem diretamente atingidos por forças iranianas, a questão deixa de ser apenas regional e passa a tocar no núcleo do artigo 5.º da Aliança.
A pergunta estratégica começa a ser colocada em vários círculos: se o regime iraniano atingir diretamente infraestruturas de um Estado NATO, deverá a Aliança responder formalmente? Ou continuará a resposta a ser calibrada, caso a caso, para evitar uma guerra aberta entre blocos?

O envolvimento de forças gregas e britânicas, somado à intensificação israelita, transforma o conflito numa crise potencialmente multinível: Israel vs. Irão, mas também Irão vs. Estados com presença militar no teatro, incluindo membros da NATO e talvez dos Estados do Golfo: Isto altera o cálculo iraniano. Continuar a atacar diretamente estas forças pode criar uma aliança anti-Irão que, até ao momento, não existe. Mas não o fazer pode ser interpretado internamente como fraqueza. É o clássico dilema de escalada.

Perspetiva para o futuro:

a curto prazo (semanas):

  • Continuação de ataques israelitas intensificados sobre Teerão e infraestruturas estratégicas.
  • Maior presença naval no Mediterrâneo Oriental e Golfo Pérsico.
  • Interceções aéreas frequentes por forças britânicas e possivelmente francesas e gregas em torno de Chipre.
  • Elevado risco de incidente direto entre forças iranianas e ativos de um país NATO.

a médio prazo (meses):

Duas possibilidades principais:

  • Contenção controlada: A NATO evita ativação formal do artigo 5.º, limitando-se a defesa de ativos específicos e pressão diplomática. O conflito permanece regionalizado, embora volátil.
  • Alargamento formal: Um ataque inequívoco contra território soberano britânico ou forças de um membro da Aliança pode desencadear resposta coordenada. Isto transformaria a guerra numa confrontação direta entre o Irão e uma coligação ocidental estruturada.

O conflito deixou de ser apenas uma troca indireta entre Israel (com apoio dos EUA) e Irão. Com meios navais gregos destacados, caças britânicos em combate, franceses a caminho (O Charles de Gaulle, navio-almirante da Marinha Nacional Francesa e o maior porta-aviões da Europa Ocidental) e ataques ao território soberano do Reino Unido na equação, a dimensão estratégica mudou.

A questão deixou de ser apenas se o regime iraniano resiste aos ataques (sendo que deverá resistir, pelo menos a curto e possivelmente até a Médio Prazo): A questão agora é se o conflito permanece regional ou se estamos perante o início de uma crise de segurança euro-atlântica com consequências imprevisíveis