Durante décadas, a Europa e o Ocidente cultivaram a convicção de que o diálogo permanente, a diplomacia paciente e a pedagogia política seriam suficientes para domesticar regimes autoritários. Esta crença, além de ingénua, revelou-se moralmente disfuncional. A diplomacia funciona quando ambas as partes reconhecem custos reputacionais e jurídicos. Mas o que sucede quando esses custos são irrelevantes para quem governa pelo medo?
A ofensiva dos EUA e de Israel a Teerão marca uma viragem sísmica no modo como o poder é projetado no sistema internacional e torna cada vez mais inequívoco que o primado da força se sobrepôs ao primado da lei.
Se era desejável? Não.
Se havia outra maneira para colocar termo a um regime destes? Também não.
Durante anos, a Europa passou cheques em branco ao crescimento de movimentos islâmicos radicais e regimes que instrumentalizam a religião como ferramenta de poder político. A diplomacia europeia permaneceu enclausurada numa estética de polidez moral, incapaz de reconhecer e responder à realidade brutal de regimes que praticam repressão interna, exportam violência e subvertem a ordem regional. Enquanto isso, instituições como a ONU, personificadas por secretários-gerais vocais na retórica mas fracos na ação, testemunharam e denunciaram atrocidades que continuaram a acontecer com impunidade evidente.
Ao longo das últimas décadas, o regime iraniano consolidou-se como um dos principais fatores de instabilidade no Médio Oriente. Não apenas pela repressão interna ou pelo caráter teocrático do sistema político, mas sobretudo pelo papel ativo que desempenha no financiamento, armamento e treino de milícias e grupos armados fora das suas fronteiras. O
apoio ao Hezbollah no Líbano, ao Hamas em Gaza e a várias milícias xiitas no Iraque e na Síria transformou o Irão num epicentro de redes armadas que alimentam conflitos crónicos.
Internamente, o regime consolidado após a Revolução Islâmica de 1979 governou através da censura, da perseguição política e da limitação severa das liberdades individuais. A discriminação estrutural das mulheres, a repressão violenta de protestos e a criminalização da dissidência transformaram o medo num instrumento quotidiano de governação. Nesse sentido, a morte de Ali Khamenei parece ter sido bem recebida por muitos iranianos, que vêem na eliminação do líder supremo um verdadeiro momento de libertação histórica. Não porque a mudança esteja garantida, mas porque a continuidade automática deixou de o estar.
Há, contudo, um aspeto que não pode ser ignorado. Durante anos, muitos dos que no Ocidente se afirmam como guardiões da moral internacional nunca demonstraram a mesma energia mobilizadora perante a repressão iraniana. A indignação seletiva tornou-se padrão: campanhas efémeras de hashtags, declarações moralistas nas redes sociais, apelos grandiosos a valores que nunca foram verdadeiramente defendidos com ação consistente. Onde estavam as flotilhas de apoio à liberdade iraniana? Onde estavam os protestos globais exigindo direitos humanos básicos?
Também a nível europeu a hesitação tem sido regra. A ausência de posições firmes, estratégicas e consequentes não nos torna neutros, torna-nos cúmplices por omissão. Ao adotarmos uma postura reativa, incapaz de antecipar a consolidação de regimes expansionistas e ideologicamente inflexíveis, contribuímos para a erosão da credibilidade das próprias instituições que dizemos defender.
A substituição da diplomacia pela força nunca deve ser celebrada ou romantizada. Mas ignorar a natureza de um regime que sistematicamente rejeitou limites também não pode continuar a ser a estratégia. Entre a ingenuidade e o cinismo existe uma terceira via: a lucidez.
À Europa exige-se mais do que simples declarações: carecemos de estratégia, clareza moral, ação concertada e uma vontade de defender não apenas interesses, mas princípios.