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Quando tratar é investir na vida

A ciência é clara ao demonstrar que a obesidade não é uma opção, não é um problema de carácter. É uma doença metabólica complexa.

Gil Faria
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No Dia Mundial da Obesidade fala-se muito de prevenção. Fala-se de alimentação saudável, de exercício físico e de escolhas conscientes. Tudo isso é importante, mas há uma parte da conversa que, muitas vezes, fica em segundo plano: o tratamento de quem já vive com obesidade instalada e com complicações associadas.

Para essas pessoas, a cirurgia metabólica continua a ser o tratamento mais eficaz de que dispomos e continua a ser sistematicamente adiado.

A cirurgia metabólica não é nova, nem um procedimento experimental. Não é um recurso desesperado, nem um procedimento estético. É uma intervenção terapêutica com impacto profundo na biologia da doença. Atua não apenas na redução da capacidade gástrica, mas, sobretudo, na regulação hormonal do apetite, da saciedade e do equilíbrio energético. Os dados científicos são consistentes: a cirurgia metabólica permite perdas de peso superiores a 30% do peso corporal total, com manutenção a longo prazo. Reduz a mortalidade, diminui drasticamente o risco cardiovascular, promove a remissão da diabetes e melhora de forma sustentada a qualidade de vida. E, mesmo assim, continua a ser encarada como último recurso.

Nos últimos anos, assistimos a uma evolução técnica notável. As cirurgias são realizadas por via laparoscópica, com incisões mínimas, menos dor e recuperação mais rápida. Programas estruturados permitem, em casos selecionados, a realização em regime de ambulatório com alta no próprio dia. Novas adaptações técnicas têm sido desenvolvidas para reduzir efeitos secundários como o refluxo, preservando a eficácia na perda de peso. A cirurgia metabólica de hoje é mais segura, mais previsível e mais personalizada do que nunca.

Em paralelo, surgiram medicamentos inovadores que atuam nos circuitos hormonais da fome. São avanços importantes e ampliam as opções terapêuticas. No entanto, é fundamental compreender as diferenças.

Os fármacos exigem administração contínua e o custo acumulado ao longo dos anos é elevado. Quando são interrompidos, o peso tende a regressar, porque a doença permanece ativa. A cirurgia, por outro lado, é uma intervenção única, com efeito metabólico duradouro. Em termos de custo-benefício, os estudos mostram que, ao reduzir complicações, hospitalizações e medicação crónica, a cirurgia torna-se economicamente vantajosa para o sistema de saúde em poucos anos.

Mas talvez o argumento mais forte não seja financeiro. Seja humano.

A cirurgia metabólica devolve mobilidade, energia, qualidade de vida. Permite que pessoas deixem de depender de múltiplos medicamentos, que controlem a diabetes, que reduzam o risco de enfarte ou AVC. Permite viver mais e viver melhor. Será então legítimo perguntar porque continua a ser subutilizada?

Parte da resposta reside no estigma. A cirurgia ainda carrega o peso de mitos antigos, de imagens ultrapassadas, de complicações eliminadas, mas, acima de tudo, da falsa ideia de que representa um atalho. Mas a ciência é clara ao demonstrar que a obesidade não é uma opção, não é um problema de carácter. É uma doença metabólica complexa. E tratar uma doença não é desistir do doente, nem oferecer um atalho: é cuidar com rigor e cuidado.

Neste Dia Mundial da Obesidade, é essencial dizer com clareza: prevenir é fundamental, mas tratar é inadiável. E quando falamos de eficácia, segurança e sustentabilidade a longo prazo, a cirurgia metabólica continua a ser a ferramenta mais poderosa que a medicina tem para oferecer. Continuar a olhar para a cirurgia como “último recurso” é um equívoco que custa saúde. Porque quando falamos de obesidade grave, adiar o tratamento não é prudência, é permitir que a doença avance.