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Viriato Soromenho-Marques e Os Protocolos dos Sábios de Sião

Pode discutir-se a eficácia, o momento, e outros pormenores de intendência; o que não se pode é fingir, com má-fé, que o agressor crónico é uma vítima cândida e que quem lhe responde é o incendiário

José António Rodrigues do Carmo
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Há criaturas que, não fora o hábito nacional de tratar a mediocridade  doutorada com reverência, passariam por aquilo que são: profissionais do ressentimento, da indignação selectiva, e da duplicidade moral. Viriato Soromenho-Marques (VSM, daqui em diante) é um desses espécimes que só vê o mal quando ele é judeu ou americano.

Em entrevista à CNN Portugal, VSM, sem corar de vergonha, brindou o público com a tese de que “é Israel quem domina os EUA”.

A frase, que alguns incautos tomaram por análise geopolítica, é apenas a reciclagem de um libelo antigo e viscoso, que os Protocolos dos Sábios de Sião, fabricados pela polícia secreta da Rússia czarista, deram à estampa: a ideia, velha, feia e estúpida  de que os governos são marionetas manipuladas por judeus:  «Controlaremos os governos … e os chefes de Estado serão nossos instrumentos.»

Adolf Hitler, no seu Mein Kampf, desenvolveu exactamente o mesmo argumento, atribuindo aos judeus o controlo dos Estados através do domínio económico e mediático: «O judeu tornou-se senhor do aparelho económico das nações e, através dele, domina os Estados.»

Quando um professor universitário do século XXI repete, sem pudor,  esta cavalidade conspirativa, estamos já no domínio do transtorno mental.

Mas o cardápio não ficou por aí. Houve ainda o “terrorismo de Estado israelita e norte-americano”, a previsão de que o Irão seria lançado no “caos, fragmentação e guerra de consequências incalculáveis”, e outras hipérboles próprias de quem a razão já deserdou e, em  desespero, transforma cada acção militar de Israel e dos EUA numa miniatura do Apocalipse.

O que não houve foi uma linha, uma vírgula, um suspiro sequer sobre a natureza do regime iraniano, e sobre a sua culpa e o karma, no que lhe está a acontecer.

Convém recordar aquilo que VSM omite descaradamente:

– O regime saído da revolução de 1979  é teocrático, repressivo e milenarista; financia, arma e orienta grupos terroristas como o Hezbollah no Líbano, o Hamas em Gaza, os Houthis no Iémen, e uma constelação de milícias xiitas no Iraque e na Síria; transformou o Líbano num país refém; atacou quase todos os países vizinhos desde o Paquistão a Chipre; promoveu atentados contra civis israelitas, desde a  Argentina à Austrália; proclama, com regularidade  que o “pequeno Satã” deve ser apagado do mapa; acumula milhares de mísseis balísticos, como instrumento de chantagem regional, e lança-os sobre cidades; desenvolve um programa nuclear que visa obter armas nucleares; reprime mulheres que ousam mostrar o cabelo; enforca dissidentes; dispara sobre manifestantes.

Tudo isto é factual, verificável, documentado. No entanto, para VSM, a culpa pelo que lhe está a acontecer é de quem lhe responde e pretende pôr fim a isto de uma vez por todas, depois de décadas a encaixar golpes.

Contrariamente à miopia mental de VSM, que só vê judeus e americanos, há  razões objectivas pelas quais um ataque às capacidades militares iranianas faz todo o sentido.  A primeira é que  regimes ideológicos que proclamam a destruição de outros Estados como condição para a vinda do Mhadi,  não podem ser deixados  acumular meios para o fazer. Segundo, cada míssil destruído é um míssil a menos sobre Telavive, Riade, ou outros povos. Terceiro,  a protecção de aliados e rotas energéticas é vital para a estabilidade global e também para a vidinha tranquila e confortável do Sr. Marques, a cantar de galo enquanto outros fazem o que tem de ser feito.

Pode discutir-se a eficácia, o momento, e outros pormenores de intendência  que escapam à alegada sageza da criatura.  O que não se pode é fingir, com má-fé, que o agressor crónico é uma vítima cândida e que quem lhe responde é o incendiário.

Há, além disso, outras contradições na postura de VSM. O mesmo indignado que denuncia a “submissão europeia” aos EUA engole, sem pestanejar, a narrativa de um regime que mata milhares de pessoas por causa de um lenço. O crítico do “imperialismo” teórico, fecha os olhos ao imperialismo real que lhe entra pelos olhos dentro . O alegado defensor dos direitos humanos reserva a sua eloquência para a democracia imperfeita e silencia-se perante a brutalidade de uma teocracia que massacra milhares dos seus cidadãos em meia dúzia de dias..

Para mim, VSM é apenas um paladino de salão, armado de citações e abstrações, combatendo dragões que só ele vê,  enquanto ignora o incêndio real à porta. E repetir insinuações sobre o “controlo” judaico dos EUA é apenas o velho demónio do  antissemitismo, a mostrar a cauda de forma despudorada.

Como é que tal conjunto de asneiras passa por sofisticação? Desde quando é virtuoso desculpar a tirania e a malvadez em estado puro?

Mas a verdade paira sobre a VSM, mesmo que ele a tente enxotar com repescagens dos Protocolos e do Mein Kampf: a  instabilidade no Médio Oriente não nasce das respostas israelitas ou americanas, mas  de décadas de agressão sistemática, de financiamento de proxies, de uma ideologia que glorifica o martírio e promete a aniquilação do outro. A responsabilidade primeira não é de quem se defende; é de quem, ano após ano, construiu um arsenal com a intenção declarada de o usar.

Se VSM quer falar de caos e fragmentação, que comece por olhar para os seus bem amados aiatolas e o que fizeram ao Irão. Se quer denunciar terrorismo, que olhe para  o patrocínio de milícias que transformam bairros civis em escudos humanos e lançam milhares de mísseis sobre povoações. Se quer brandir a moral, que comece por olhar a sua no espelho.

Porque é profundamente hipócrita  acusar o bombeiro de piromania enquanto se oferece gasolina ao incendiário. E alguém que  debita a retórica venenosa de VSM,  não se limita a errar, já abdicou há muito da  lucidez.