No sábado de manhã, João Pedro Fabião e a família foram visitar uma feira do livro no Dubai, onde vive há oito anos. Quando voltava de carro com as duas filhas, que já nasceram no emirado, e com a mulher, ela apercebeu-se das mensagens que chegavam em catadupa ao telemóvel sobre estrondos em vários pontos do Dubai. Em casa, ligaram a televisão portuguesa em que só se falava de ataques a atingir Israel e o Irão. Por isso, às cinco da tarde, despreocupados, iam ao supermercado. “Foi quando estávamos a sair de casa que se ouviram mais estrondos”, conta o engenheiro de 38 anos ao Observador. “Vimos também umas manchas da defesa aérea no céu e decidimos ficar.”
À noite, quando a família se preparava para dormir, os telemóveis começaram a vibrar com um aviso oficial sobre um ataque em curso. As pessoas eram aconselhadas a abrigarem-se e a permanecer afastadas das janelas. “Como os nossos quartos têm uma grande superfície de janelas, trouxemos o colchão para a sala, para um sítio mais resguardado, e deitámos as nossas filhas para dormirem connosco”, relata. Às meninas, o pai assegurou que os estrondos se deviam aos canhões que assinalam o pôr do sol, momento a partir do qual os muçulmanos podem comer durante esta celebração religiosa. “No Dubai disparam vários canhões e já fui assistir com a minha filha. Eu disse-lhe, ‘olha, deve ter sido o canhão do Ramadão’”, explica. “A seguir, quando houve mais estrondos, disse que eram foguetes, para ela não ficar preocupada.”

Da janela de casa, João Pedro Fabião consegue ver o porto de Jebel Ali, que foi atingido na manhã de domingo. Até agora, três pessoas morreram nos Emirados Árabes Unidos, confirmou o Ministério da Defesa na segunda-feira, 2.
Contudo, não há presença militar ou policial reforçada nas ruas do Dubai, conta o português. Até esta sexta-feira, as escolas estão fechadas mas asseguram o ensino à distância e as empresas colocaram os seus funcionários em teletrabalho, mediante recomendações do governo do Dubai. “O país está a funcionar normalmente, os serviços estão abertos, os supermercados e os transportes públicos estão operacionais.” Nas lojas, as prateleiras estão cheias, mas há uma perturbação num serviço: num emirado onde as compras costumam ser feitas à distância, as entregas estão mais demoradas. “Normalmente, as encomendas chegam umas horas depois. Neste momento, é no dia seguinte ou daí a dois dias, mas nada extraordinário.”
Elogia o governo local pelo “bom trabalho”. Através das redes sociais, “estão a manter toda a gente informada e de forma bastante transparente, foram divulgados os números de mísseis e de drones que foram abatidos” pelo sistema de defesa antiaérea que protege o emirado. “É positivo porque ajuda a manter a calma e a controlar os boatos, que se espalham muito rapidamente.” Estende os elogios à embaixada portuguesa em Abu Dhabi, cuja jurisdição abrange os Emirados Árabes Unidos, mas também o Kuwait e o Iraque. Durante vários anos, por “falta de pessoal”, a instituição não tinha capacidade de responder aos milhares de portugueses que vivem nos Emirados, mas “as coisas têm estado a mudar nos últimos dois anos e neste processo, a Embaixada tem estado muito bem”.
Para já, João Pedro Fabião sente-se tranquilo e não tenciona voltar, mas salienta que, através de um canal de WhatsApp, a Embaixada de Portugal em Abu Dhabi tem deixado os portugueses informados. Foram partilhados contactos de emergência e atualizações sobre a reabertura do espaço aéreo: para esta terça-feira, estão previstos seis voos com destino à Europa mas apenas para passageiros retidos nos Emirados Árabes Unidos e estão à venda bilhetes para voos da Emirates do Dubai para Portugal, mas ainda não é claro quais serão operados.

Sara Costa, outra portuguesa no Dubai, também não equaciona para já partir. Diz que ainda não sentiu a necessidade de contactar a Embaixada Portuguesa nos EAU devido à informação que recebeu através do canal de WhatsApp que também alerta para a circulação de mensagens falsas. “Sabemos que está a circular uma mensagem sobre voos de evacuação em coordenação com a NATO mas trata-se de uma notícia falsa, colocada por alguém que não é funcionário da Embaixada”, avisavam na segunda-feira. “Há vídeos de incêndios em edifícios que aconteceram em anos anteriores e pessoas estarem a postar essas imagens como se estivessem acontecer agora”, reforça Sara.
Ao Observador, diz que tem vivido os últimos dias com “tranquilidade”, respeitando as diretivas das autoridades e dos meios de comunicação oficiais do governo, que, sublinha, “rapidamente transmitiram orientações claras, apelando à prudência, à permanência em locais seguros, preferencialmente nas residências, e ao evitar de deslocações desnecessárias”. “Falo também por muitos dos meus compatriotas com quem estou em contacto regular, vivemos o dia a dia com serenidade e paciência para aguardar a estabilização da situação e a resolução do conflito”, sublinha.
A engenheira civil, de 36 anos, confirma o teletrabalho e as aulas à distância, e detalha que os trabalhadores em zonas exteriores, como na construção, suspenderam temporariamente as atividades até serem divulgadas novas recomendações.
Sara Costa também destaca o “excelente” trabalho das autoridades dos EAU, “que têm demonstrado um forte sentido de proteção da população, mantendo todos informados sobre a evolução da situação e sobre as medidas a adotar para garantir a segurança”. “As ruas mantêm-se organizadas e calmas e os serviços de emergência têm respondido rapidamente sempre que ocorre algum incidente isolado (devido à queda de detritos de drones ou de mísseis intercetados pelo sistema de defesa aérea do país)”, aponta.
A portuguesa acrescenta que, tendo em conta a dimensão do ataque, “o impacto tem sido mínimo e as consequências praticamente inexistentes, fruto do elevado nível de coordenação, preparação e eficácia das autoridades locais”. “Sem dúvida, aquilo que poderia ser um cenário de pânico não o está a ser para a maioria dos residentes, pois o sentimento geral é de confiança”.
Se a situação não piorar, Sara Costa só pensa sair do Dubai para regressar a Portugal nas férias. “Caso a situação escale, naturalmente ponderarei sair assim que existam voos disponíveis. Caso a situação estabilize e permaneça controlada, não vejo necessidade de o fazer neste momento. Nesse caso, manterei a minha intenção de regressar a Portugal apenas nas datas que já tinha previstas para férias”.
Ataques a cada meia hora, o silêncio da embaixada e a viagem de mais sete horas para Riade
A tranquilidade que João e Sara relatam entre a comunidade portuguesa nos Emirados Árabes Unidos contrasta com a experiência dos portugueses no Qatar. O piloto Raphael Mendonça vive com a mulher e o filho de cinco anos — que também tem nacionalidade britânica — a apenas 15 minutos da base aérea norte-americana de Al Udeid e tem ouvido explosões constantes. Sábado, o primeiro dia de ataques, foi muito “assustador”, recorda ao Observador.
“No primeiro dia foram ataques a cada meia hora, mais ou menos. Tivemos um intervalo a meio da tarde, de uma hora e meia, e depois mais ataques até uma da manhã”, relata o português de 43 anos. “Foi muito rápido, acho que nem eles estavam à espera, mas dizem que estão preparadíssimos porque têm o sistema do Patriot, dos mísseis de interceção. Aquilo parecia que estava a funcionar, só que de manhã eram dois ou três mísseis, depois eram sete mísseis, depois eram dez mísseis e à noite, no segundo dia, tivemos uma onda mais pesada”.

No terceiro dia a família acordou novamente com o som de explosões, pelas 7h. Apesar de no resto do dia não terem ouvido mais ataques e de a situação ter acalmado, o sentimento é agora de constante alerta: “O meu vizinho está a ligar o carro, faz um estrondo e o meu sistema nervoso está assim aos pulos. E tenho que tentar manter a calma por causa do meu filho”.
Raphael Mendonça critica a falta de apoio prestada pelas autoridades portuguesas no Qatar. “A informação que recebemos era um texto a dizer para manter a calma e para seguir as instruções do governo qatari, para ficarmos em casa. Mas nada em concreto, nada a dizer ‘Portugal está a fazer x ou vocês vão ser repatriados'”, denuncia. O português nota que as autoridades britânicas têm sido muito mais competentes. “O Governo britânico mandou um e-mail a dizer que estão a tentar organizar uma evacuação massiva. Só que é preciso paciência, são 200 mil cidadãos no Médio Oriente e vão contactar-nos em breve. De Portugal, nada, zero“.
O piloto explica que nem sequer está no grupo de WhatsApp que a Embaixada Portuguesa do Qatar mantém com os portugueses que aí residem. Apesar de viver neste país há dois anos, e de já ter feito o pedido, nunca foi adicionado, pelo que não está a receber qualquer informação através desse canal. Tem recorrido principalmente ao grupo de WhatsApp da sua empresa, em que trabalha como piloto, para a evacuação. “Já estamos mais de mil no grupo, praticamente quase todos os pilotos estão a levar as famílias para fora daqui. Estamos a organizar caravanas e ajudar-nos uns aos outros”, diz. Também tem conseguido algumas informações através do grupo criado com portugueses durante o Mundial de Futebol no Qatar. “É aí que eu tenho conseguido informações do Portugal, mas tem sido muito pouco”, diz.

“Não é só Portugal, há outros países que não estão a arregaçar as mangas e dão-nos a ideia de que estão à espera que as coisas piorem antes de tomarem ações“, critica Raphael Mendonça. O português não está disposto a esperar. “Eu tenho uma criança de cinco anos, está aqui a chorar porque pensa que vai morrer. Eu estou preocupado com a saúde mental da minha mulher, saúde mental da minha mãe, que também está cá, veio visitar-nos, ela já passou por isso em Angola, e está a ter esses flashbacks emocionais.”
Esta terça-feira o português levou o carro à inspeção para garantir que tudo estava pronto para durante a noite partir para a Arábia Saudita, uma viagem de mais de sete horas. A rota também é uma preocupação. “O Qatar só tem uma autoestrada que leva de Doha até à Arábia Saudita. A bendita autoestrada passa pela base, portanto é uma strike zone, o que está a deixar muita gente preocupada”, diz. A outra opção é ir por uma estrada que dá a volta ao país pelo norte, mas que também obriga a passar por outra base.
O plano é deixar a mulher, o filho e a mãe, que estava de visita, no aeroporto de Riade. Desde segunda-feira que estão a ser operados alguns voos, ainda que a preços muito elevados, com a família a pagar seis mil euros por voo. Da capital saudita a mulher e o filho vão seguir para o Cairo e depois para Londres, e a mãe regressará a Portugal. Já Raphael vai ter de voltar ao Qatar por causa do trabalho, mas ainda não sabe se regressa à casa da família ou procura um sítio para ficar mais perto do centro da cidade. “Mas é aquela coisa, a gente não sabe o que é que eles vão fazer a seguir”.
Os portugueses que saíram do Médio Oriente e não conseguem regressar
Se há muitos portugueses a pensar a sair dos países no Médio Oriente para regressar a Portugal, há quem tenha sido surpreendido pelo início da guerra quando estava em viagem de trabalho ou de férias e não consiga agora regressar a casa. É o caso de Maria Almeida, que vive no Kuwait com o marido — ambos são membros do Portuguese Business Council nesse país. O casal aproveitou os feriados nacionais para ir de férias para o Sri Lanka e já não conseguiu regressar.
“Como nós há muitos que estão em vários países sem hipótese de regresso. Vivemos à distância a situação, estamos em contacto permanente com os portugueses lá, pois tanto eu como o meu marido somos membros do Portuguese Business Council”, diz Maria Almeida. “Como não estou exatamente no terreno, apenas fazemos a ponte entre as embaixadas e a diáspora no Kuwait”, acrescenta.

Devido ao cargo, a portuguesa e o marido têm estado em contacto próximo com o embaixador em Abu Dhabi — também responsável pelos assuntos no Kuwait, onde não há representação diplomática permanente. “O nosso Embaixador e a Cônsul têm estado em permanente contacto telefónico com o meu marido para saber como está o moral dos portugueses mas também para obterem informação de algumas situações que possam estar a acontecer no Kuwait e às quais vamos tendo acesso por conhecimentos que temos e para validação de algumas informações não oficiais”, adianta.
Segundo as autoridades dos Estados Unidos, os ataques iranianos no Kuwait provocaram a morte de seis militares norte-americanos, quatro morreram na sequência de um ataque a uma base no país. Divulgaram também que três caças foram abatidos “por engano” pelo Kuwait durante “um aparente incidente de fogo amigo”, mas que todos os seis tripulantes ejetaram em segurança. A embaixada dos EUA no Kuwait também terá sido atingida por drones iranianos, avançaram fontes dos EUA ao New York Times.
Apesar do aumento da tensão na região, Maria Almeida e o marido planeiam regressar, mas ainda não sabem como. “Estamos no Sri Lanka e o nosso voo tem sido sucessivamente cancelado. Estamos à espera que abra o espaço do Kuwait ou da Arábia Saudita para podermos voltar. Se formos para a Arábia Saudita depois fazemos de carro até ao Kuwait. Essa parte já está coordenada mas falta-nos lá chegar”, relata. Se a situação piorar ou não conseguirem regressar, a alternativa será viajar para Portugal via Banguecoque.
Esta terça-feira, o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas apelou à paciência dos turistas portugueses retidos, remetendo a saída para quando os voos comerciais retomarem. “Tem de haver alguma paciência e compreensão nesta situação excecional”, pediu Emídio Sousa.
Governo está a preparar “eventuais operações de repatriamento”
Quando os Estados Unidos e Israel começaram a atacar o Irão, a prioridade foi retirar os cidadãos portugueses destes dois últimos países. Onze nacionais quiseram ficar, quer por relações familiares, quer por serem casados com iranianos, relatou o ministro dos Negócios Estrangeiros à rádio Observador. “O último [português] que saiu chegou à fronteira turca no sábado”, detalhou Paulo Rangel.

De Israel, chegaram 57 pedidos de assistência às autoridades consulares e deverão crescer. Mas os ataques já se estenderam a outros territórios do Golfo, como o Kuwait, o Bahrain, o Qatar, a Arábia Saudita, Omã e também a outros países da região como o Líbano, o Iraque e a Jordânia. Até agora, 554 portugueses entraram em contacto com o Governo. “Em termos de pessoas que nos contactaram pelas redes e dos números próprios, o que estamos a fazer é, em parceria com Estados amigos, a preparar eventuais operações de repatriamento que sejam necessárias”, afirmou o ministro, que frisou a necessidade de “segurança”. “Há alguns corredores aéreos que estão libertos, não quer dizer que não venham a ser fechados ou que não venham a ser abertos ainda mais. Evidentemente alguns teriam que sair por terra para aeroportos onde o espaço aéreo está aberto de forma mais fluída, mas isso implica que sejam corredores seguros.”
“Nós estamos a fazer isto com muito equilíbrio, com muita confidencialidade”, sustentou Paulo Rangel. “Pedimos a todos os portugueses, àqueles que ainda não contactaram e entretanto mudaram a sua disposição e querem regressar, que nos contactem. Estão amplamente divulgados os números.”
Contudo, nem todos estão corretos. Uma das primeiras preocupações da Embaixada de Portugal em Abu Dhabi foi, através do canal de WhatsApp, avisar que o contacto mostrado após uma pesquisa no Google se encontra “inoperacional”: o número de emergência consular é o +971 50 340 3372.