O membro fundador do Livre Filipe Caetano anunciou esta terça-feira o ponto final da sua ligação ao partido. De saída, deixou críticas aos processos internos por “não serem acolhidas opiniões divergentes” à principal linha do partido e ao excesso de “personalismo” de Rui Tavares.
Em declarações ao Observador, Filipe Caetano identificou os dois episódios de “gestão errada” do Grupo de Contacto do Livre que mais contribuíram para a sua desfiliação: as primárias das europeias de 2024, em que ele próprio seria um dos escolhidos para integrar as listas do partido, e as eleições internas para a coordenação do núcleo territorial de Lisboa em janeiro de 2025, nas quais diz ter sido um “negociador” entre duas fações do partido.
Fonte oficial da direção do Livre admitiu ao Observador alguma surpresa com o anúncio feito nas redes sociais pelo antigo jornalista da TVI/CNN. “Fomos bastante surpreendidos pela decisão do Filipe Caetano. Lamentamos e aproveitamos para publicamente agradecer o seu percurso no partido. Estamos crentes que continuaremos no futuro a lutar em muitas causas comuns.”
Segundo explica o próprio ao Observador, o descontentamento nasceu com os “muitos erros cometidos” pela direção do Livre após Francisco Paupério ter sido o membro mais votado na primeira volta das primárias abertas, em abril de 2024. A votação de membros externos na segunda volta chegou a ser vedada, mas seria revertida, e, após as europeias, acabariam mesmo por ser introduzidas alterações às regras das primárias.
“Achei que o partido falhou e levou a mal a forma como o Francisco juntou uma série de pessoas que votaram nele, apenas porque foi fora do seguidismo que existe internamente”, explica o atual editor executivo do canal Conta Lá, que foi o nono candidato na lista do Livre ao Parlamento Europeu. Na opinião de Filipe Caetano, as alterações feitas pela direção “desvirtuam totalmente a ideia inicial do partido” das primárias abertas.
Foi na sequência dessas europeias que, segundo conta ao Observador, este fundador do Livre procurou demonstrar internamente o seu desconforto, tendo sido recebido por Rui Tavares no gabinete do grupo parlamentar do Livre na Assembleia da República. “Estava com vontade de fazer alguma mudança interna e eu sentia que, para o partido crescer mais, devia criar mais pontes de diálogo internas”, explica. Isto porque, assegura, existem “fações dentro do partido” cujas divergências se vincaram após o sucedido nas primárias das últimas europeias.
Sobre o seu interlocutor nessa conversa, Filipe Caetano sublinha que “respeita muito intelectualmente” Rui Tavares, mas também aponta falhas ao principal rosto do Livre. “O Rui tem feito um trajeto muito importante para o partido, mas no fim das contas é tudo centrado nele. Podem estar a aparecer figuras novas como Isabel Mendes Lopes ou Jorge Pinto mas, entretanto, houve figuras que saíram”, defende, dando os exemplos de nomes como André Barata e Renato Carmo.
Depois de falar com o porta-voz do Livre no Parlamento, Filipe Caetano reuniu com Tomás Cardoso Pereira, que encabeçava a lista alinhada com a direção do partido à distrital de Lisboa. Segundo conta ao Observador, ambos concordaram que algum “apaziguamento interno” após as europeias “seria importante para o partido” e concordaram em fundir as duas listas que integravam. O atual chefe de gabinete do grupo parlamentar do Livre e deputado em substituição de Mendes Lopes terá demonstrado disponibilidade para se afastar da formação dessa lista conjunta à distrital de Lisboa por reconhecer as “resistências internas à sua pessoa”, acrescenta Filipe Caetano.
No entanto, prossegue, Cardoso Pereira recuou na sua palavra e “afirmou-se como o líder de uma fação”, encabeçando a lista A. Por sua vez, Filipe Cardoso afastou-se do processo após as negociações para juntar as listas terem ido por água abaixo e ocupou último lugar na lista S, que teve 38% dos votos, menos 20,5% que a lista A. O antigo jornalista diz ao Observador que a decisão de se desvincular do partido foi tomada nessa altura, depois do que considera ter sido “uma espécie de golpe palaciano instigado pela fação principal” do Livre.
Contudo, Filipe Caetano afirma ter deixado passar a sequência de eleições nacionais ocorridas desde então para “ninguém pensar que [tem] uma agenda escondida” atrás desta desfiliação. “Nunca quis um púlpito para falar sobre isto, falei internamente”, garante, acrescentando que continuará a fazer parte do espaço político do Livre, apesar de o partido não poder mais contar com o seu voto como adquirido. “Quando o partido parece estar no seu pico, se a minha saída pode servir para alguma coisa que seja uma reflexão interna, que não querem fazer para não mostrar divisão interna”, sentencia.
Esta versão choca frontalmente com a perceção de uma fonte mais alinhada com a direção, que classifica a participação de Filipe Caetano no Livre como “sempre intermitente”. Sobre as críticas que este fez no anúncio público da sua desfiliação, nomeadamente à “falta de flexibilidade” dos processos internos ou ao “pouco espaço para vozes desalinhadas com o círculo central”, também se levantam dúvidas. “Nunca disse nada disso internamente. Não houve um alerta”, acrescenta a mesma fonte.
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