A grande maioria dos insultos atirados a Amy Winehouse eram dirigidos à classe de onde provinha. Se tivesse cedido ao estatuto de classe média que a fama lhe granjeava, a opinião pública tê-la-ia amado. Mas a cantora recusou sempre ceder. Era filha dos subúrbios de Londres, o pai conduzia um táxi pela cidade e as letras das suas canções não escondiam os medos, as desilusões e, principalmente, as inseguranças que viviam agarradas à sua condição de classe trabalhadora.
Para a malograda cantora britânica, que morreu aos 27 anos por intoxicação alcoólica, o corpo foi o veículo que encontrou para recusar o sistema. Dizer não à comida foi dizer não ao mundo. Assim como o foram o álcool e as drogas. Sem ancas, sem seios, sem carne — os amigos diziam que Winehouse tinha uma figura de boneca de porcelana, que podia partir-se a qualquer momento —, o seu corpo serviu para barrar o mundo e criar um espaço alternativo interno, fazendo com que o desejo, a libido, ficasse sob compressão, como uma bomba à espera de rebentar.
Também a dança frenética do vocalista Ian Curtis, que vemos nos videoclips dos singles e imagens de concertos da banda britânica Joy Division, e que se suicidou aos 23 anos, não tinha a ver com estilo ou sensualidade, mas com espasmos, expressão de quão comprimida a sua libido se encontrava. Os espasmos de Curtis e a anorexia de Winehouse foram as formas que ambos encontraram para mostrar a sua raiva ao mundo, enredados num abismo autodestrutivo que acabou com as suas vidas. Aquilo a que Freud chamou de pulsão para a morte, para a destruição, foi levada, no caso de ambos, ao extremo.

Todo este olhar é apresentado pela escritora e poeta norte-americana Cynthia Cruz em Melancolia de Classe (ed. Zigurate), um conjunto de ensaios previamente publicados e reunidos entretanto em livro. Também ela pertencente à classe trabalhadora, mistura no livro autobiografia e ensaio, secundados por referências teóricas (filosofia, ciência política, sociologia) e artísticas (literárias, musicais). Todos — Curtis, Winehouse, assim como Paul Weller dos The Jam e The Style Council, o escritor Mark Fisher, o cantor Bruce Springsteen, Mark Linkous da banda Sparklehorse ou David Berman dos Silver Jews — sentiam, como ela própria, afirma Cruz, melancolia, um sentimento de “nem-nem”: de já não pertencerem à classe trabalhadora, mas nunca se sentirem da classe média. Uns arranjaram forma de sobreviver, outros não, como foram os casos, à semelhança de Ian Curtis, de Fisher, Linkous e Berman.
“Numa sessão de psicanálise, disse ao meu psicanalista que tinha tendência para a melancolia. Ao que ele me respondeu que estes ensaios que tinha escrito sobre o assunto falam sobre raiva”, conta Cynthia Cruz numa entrevista dada ao Observador por videochamada, a partir do seu apartamento em Nova Iorque. “Fiquei completamente em choque. Li os ensaios muitas vezes. Transformei-os em livro e ensinei-os aos meus alunos. Apercebi-me naquele momento que, quando não se lida com a raiva, ela transforma-se em melancolia.”
O livro começa por descrever uma sensação de não-pertença por parte da própria autora quando era adolescente, depois de confrontada por uma colega de escola: não sentia ela vergonha por o pai ser um vendedor — precário — de carros. Ainda por cima, tinha ascendência mexicana. O corte com o mundo exterior começou aí. O estilo de roupa que Cruz usava — estratégico, peças de linhas simples, clássicas e de cores básicas, para não denunciarem que eram compradas num armazém de vendas em segunda mão — a par da música que ouvia, foram o que a manteve viva durante todos aqueles anos, diz no livro. Contava os minutos para sair das aulas e fugir ao bullying para se fechar no quarto a ouvir música até adormecer. Tal como Winehouse, a anorexia foi a forma que encontrou de moldar o corpo ao seu estado de espírito, proporcionando-lhe um mundo alternativo no qual pudesse existir.
Adulta, Cruz decidiu ir para a universidade para fugir à vida de miséria financeira e intelectual que a sua condição de classe lhe reservava. Publicou poesia, escreveu ensaios, deu aulas no ensino superior — sempre em regime não vinculativo. Limou maneirismos, aprimorou vocabulário, quis ser assimilada como pessoa da classe média. Mas deu por si nesse vazio existencial, num espaço-entre. Melancolia de Classe serviu para que voltasse a encontrar-se com a sua própria existência. Mas deixa claro no início da obra que continua a sentir vergonha por ser quem é.
Combater o sistema é também sinónimo de combater o capitalismo. “Este livro foi muito importante para mim”, conta Cynthia Cruz ao Observador. “Estava a tentar entender como era possível que, havendo claramente classes sociais, nos E.U.A. e no mundo, todas as pessoas com quem conversava me diziam que não havia.” Cruz reformula as frases até encontrar a que melhor expressa o que quer dizer, resultantes de um misto entre turbilhão de ideias, insegurança oratória e exercício de auto-superação. “Achei isso muito estranho. E também achei muito estranho que as pessoas mo dissessem com animosidade. Pior, com agressividade.”
Cruz encontrou a resposta política para esta rejeição da existência de classes sociais por parte da sociedade norte-americana no neoliberalismo, que advoga que na sociedade não existem classes, apenas indivíduos, e se rege pela ideia de progresso, fazendo um corte com o passado. Cruz também cita, no livro, o escritor, filósofo e político italiano Antonio Gramsci e a sua definição de “senso comum”, que explica que o sistema faz o indivíduo crer que o problema é ele próprio ao ser-lhe incutida a responsabilidade pelo seu sucesso, tornando difícil aos oprimidos localizar a fonte da sua opressão.

“Tenho uma irmã. Ela é mãe solteira e não é de extrema-direita. Advogada, representa vítimas. Muitas mulheres pobres, muitas mulheres não brancas, crianças”, conta Cynthia Cruz ao Observador. “Diria que ela é apolítica, mas votou Trump pela primeira vez, por motivos fiscais”, conta. “Descobri que a maioria das pessoas no prédio onde morava, em Brooklyn, votou Trump, não porque se alinhavam politicamente, mas porque ganharam muito dinheiro desde que foi eleito. Não são apenas os pobres que votam na extrema-direita, as duas situações são parte de uma mesma coisa.”
Cruz socorreu-se também das teorias do sociólogo francês Pierre Bourdieu para perceber de que forma é incutida ao indivíduo a responsabilidade pelo seu sucesso. Bourdieu defendia que a transmissão do capital social é a forma mais bem escondida de transmissão hereditária do capital e é por isso que tem um peso maior no sistema de estratégias de reprodução. São precisamente os detentores do poder que criam estas classificações. A autora partilha no livro um episódio que se passou consigo e que exemplifica bem esta questão.
Quando era mais nova, frequentou um curso de escrita criativa. Instintivamente, assumiu que os colegas, de classe média, percebiam mais de poesia do que ela. O à-vontade com que falavam, a cadência com que o faziam e a estrutura gramatical das suas frases sugestionaram-na a pensar dessa forma. Isso porque aquelas valências têm um valor, um capital, associado. “Antes de conseguir formular esse sistema, para mim era tudo visceral”, conta. “Porque, se não se tem uma linguagem, tudo se resume à libido.”
Freud define a libido como a energia humana que corre na direção do desejo. A essa direção chamou-lhe a tal pulsão para a morte. Marguerite Duras, refere Cruz no livro, considerava que o milagre da vida, fonte infinita de inspiração — no caso, literária —, residia na proximidade da classe trabalhadora, da pobreza, à libido, por ausência de uma linguagem que sistematizasse essa pulsão e a distanciasse.
Depois deste conjunto de ensaios, Cynthia Cruz debruçou-se sobre Hegel e a loucura e, mais recentemente, tem estado a pesquisar sobre manicómios. “A História diz-nos que os manicómios desapareceram no século XIX, não é?”, diz Cynthia Cruz ao Observador. “Mas tenho um familiar que acabou depois disso numa clínica psiquiátrica na Alemanha. Lá, a lei pode fazer com que não possam sair. Na sequência do Holocausto, as leis alemãs passaram a ser muito complexas. Se acharem que uma pessoa pode vir a ser uma ameaça, para si mesmo ou para outrem, não necessariamente agora, mas no futuro, podem interná-la. E podem dar-lhe medicamentos e mantê-la presa com algemas. Fiquei horrorizada. Comecei a fumar compulsivamente de tão chocante que isto é.”
Cruz não teve como não associar esta questão ao caso de George Floyd, conta, porque o que “os polícias fizeram foi imobilizar alguém como sendo um possível criminoso”. Acontece, diz, o mesmo com os centros de detenção da força policial norte-americana ICE, criada para deter imigrantes em situação ilegal nos Estados Unidos. “Estes centros de detenção estão a apenas um fio de distância do campo de concentração.”