Os colunistas, como os políticos, são todos iguais, mas uns, ao contrário dos porcos, são iguais de uma maneira muito mais odiável.
O colunista, já se sabe, nasceu para ser detestado: é assim a vidinha e não há nada a fazer. O propósito da coluna é suportar o peso do mundo, e quem não está para isso pode sempre pegar num martelinho e esfarelar a sua. Já se sabe, mas nem sempre se soube, e podemos mesmo dizer que esta é uma das descobertas mais extraordinárias do nosso tempo: as pessoas parecem interessar-se muito mais por aquilo que odeiam do que por aquilo de que gostam.
Imagine-se, por absurdo, que Mariana Mortágua pegava nos seus blocos de notas e, de Keffiyeh às costas a fazer de trouxa, se mudava de cravos e bagagens para o Observador; melhor – trocava. Assentava arraiais no Observador, e o José Manuel Fernandes ia-lhe ocupar a cadeira ainda fria no ISCTE.
O jornal ia abaixo com uma explosão colectiva de cólera. Milhares de comentários em protesto, os artigos dela invadidos por milícias furiosas, o jornal transformado na caixa-forte do tio Patinhas, tais eram os ganhos em visualizações, a crise da imprensa resolvida; na Universidade, a eterna propensão cábula dos estudantes finalmente curada. Centenas de alunos a ouvir em loop o Contra-corrente, como nunca ouviram uma aula, a apontar furiosamente as falhas, tudo porque, quando lê uma opinião, ao contrário do que acontece quando escolhe um almoço ou uma família, o homem parece preferir aquilo de que não gosta.
Acontece, no entanto, que é preciso um talento especial para ser odiado. Nem todos o conseguem. E o ódio também segue caminhos próprios, não inteiramente compreensíveis. É preciso um esforço de má vontade para odiar um Jaime Nogueira Pinto, esforço esse que poucos estão dispostos a fazer. Como o próprio diz, é um “fascismo de rosto humano”, conta histórias divertidas, e custa a odiar pessoas assim. O ódio ao colunista, que é um ódio particular, quase persecutório, não pode ser dirigido a um Jaime Nogueira Pinto – é desajustado.
Isto mostra, aliás, que não é um problema de radicalismo, ou de diferença de ideias, o grande motor do ódio. Jaime Nogueira Pinto deve ter ideias minoritárias sobre tudo pelo menos desde o tempo da Patuleia, e ainda assim não consegue ser detestado em condições. O caso não pode ser ideológico.
Pensemos, por outro lado, em Pedro Marques Lopes. Um maciço impenetrável de banalidade. O toro mais húmido da floresta, incapaz de produzir uma faísca, por mais espicaçado que seja. Nem sequer estas palavras são adequadas, já que sugerem um tipo de banalidade de alguma maneira assinalável. Não é isso que nos interessa; o que é característico de Pedro Marques Lopes é a sua capacidade de produzir sobre qualquer assunto o pensamento mais comum que se pode gizar, como se fosse um gémeo mental da primeira ideia de cada homem sobre cada coisa; no entanto, o mundo ferve de ódio contra ele. Friso que o problema não está no facto de Marques Lopes não pensar nada que todos os outros não pensem, é até preciso um talento especial e admirável para conseguir captar com clareza o ar do tempo – é simplesmente o facto de conseguir, com isso, despertar a ira das pessoas. Não há centro mais preciso, opinião mais redonda, e o povo chuta-o como se a redondez fizesse dele uma bola, e não um simplicíssimo quadrado.
Julgo que seria uma ofensa a ambos considerar Marques Lopes mais radical do que Nogueira Pinto, mas esta é uma prova de que o ódio não é ideológico: ataca, e poupa, à direita, à esquerda e ao centro.
Um passeio pelos alfobres do ódio (uma visita rápida ao Twitter), em bicos de pés para não pisar a lama, mostra depressa que um Henrique Raposo, um Alberto Gonçalves, um Pacheco Pereira, aqui e ali uma Clara Ferreira Alves, amealham muito mais ódio do que um João Pereira Coutinho ou um Manuel Loff, por mais esforço que este faça para que a direita o deteste como detesta Marques Mendes.
O que me interessa, então, é perceber porque é que isto é assim. Porque é que há uns colunistas tão mais odiados do que outros. Ora, o que me parece é que a sanha tem também a sua lógica e, por mais labirínticos que sejam, os seus padrões.
Em primeiro lugar, as pessoas detestam traidores. Um colunista que “mudou” desperta sempre um enérgico ódio. De nada adianta que ele diga que está igual, que foi o mundo que guinou para um lado ou para o outro, enquanto ele se manteve, firme como um tronco, a resistir ao arrastar da corrente – se quer ser árvore, que seja um sobreiro, já que a cortiça flutua. De certeza que Maria João Marques navegou num caudal de ódio muito mais profundo quando a multidão descobriu a sua veia feminista; de nada interessa que ela prove, por A mais B, que essa veia sempre esteve lá; a guerra mudou de frente, e ela, que fizera a recruta no tiro-ao-Sócrates do tempo da maioria absoluta, de repente estava do outro lado – traição.
Mesmo dentro dos traidores, há casos especialmente graves, e os piores são os que, no abandono de um campo, insistem em deixar um pé para trás: se forem Zitas Seabras, em que cada um vai à sua vida, tudo bem; mas Pachecos Pereiras, que deixam uma mão entalada, a impedir de fechar a porta, à Martim Moniz, e nessa mão exibem o cartão do PSD, é que o mundo não tolera. Não tivesse Pacheco Pereira sido um dia um bom laranja, ou tivesse lançado mesmo a laranja às urtigas, e podia hoje amarelecer em paz no meio dos seus livros; sentava-se num cantinho do recreio, junto ao Sérgio Sousa Pinto, e ninguém o maçava. A deserção, contudo, parece ser a tormenta do colunista.
Há um género parecido, embora contrário – já que uns não saem bem e outros não entram bem – que também gera um ódio grande: o do náufrago. O público, indignado, pergunta-se como foi João Miguel Tavares parar às páginas do jornal com o seu nome; parece claro que, almofadado no Observador, teria menos cascas de ovo para varrer ao fim do dia. O furar da bolha, além de exemplificar de uma maneira muito curiosa o sedentarismo digital, mostra um fenómeno muito curioso: o de como boa parte do escândalo surge, não porque as ideias são verdadeiramente escandalosas, mas simplesmente por contraste.
Há outro tipo de ódio bem diferente destes – quase oposto, podíamos dizer – absolutamente fascinante. Pareceria naturalíssimo. O ódio mais básico e justificado do jogo. É natural que a esquerda deteste Alberto Gonçalves, que a direita vaie Carmo Afonso; falam grosso, “zurzem” (este maravilhoso verbo que só o vocabulário da polémica jornalística usa ainda) nos adversários e, da mesma maneira que causam fúrias homéricas nos zurzidos, reúnem legiões de admiradores: faz parte. O curioso não é isto; o curioso é o modo como os detractores usam estes colunistas especialmente audíveis ora como representantes, caricaturados ou não, das ideias do polo oposto, ora como representantes escondidos do que esse polo pensa realmente. Alberto Gonçalves fala sobre um coelho, seja ele um mau ou um melhor, e algures um aprendiz de detective julga que desmascarou o que a direita bafienta pensa realmente sobre minorias étnicas ou parlamentares; o divertido não é apenas o facto de se achar que as opiniões verdadeiras do outro lado do espectro andam escondidas; é o facto de se achar que os colunistas mais sonoros eram precisamente os guardiães desse segredo ideológico que, por descuido, não conseguiram, logo eles que não escondem nada, conter. Não é preciso ser um prodígio de subtileza para descobrir o que pensa a Carmo Afonso – ela di-lo, e di-lo com especial clareza. E se alguém diz outra coisa, o mais provável é que a pense (é o que costuma acontecer), e não que o esconda, ganhando assim uma união hipostática secreta com o pensamento de João Miguel Tavares. O ódio ao representante é muito útil aos poços especialmente férteis no sentimento porque garante que mesmo os colunistas que não parecem odiáveis o são. Eles pensam na verdade como o Daniel Oliveira, estão apenas calados enquanto o Alberto e o João Miguel, a Carmo e o Daniel, descuidados, os denunciam.
Há, no entanto, uma espécie de colunista que não parece coleccionável nestas etiquetas tomográficas e que passa, ainda assim, os dias ensopado em ódios. Um Henrique Raposo. De cada vez que escreve – e escreve muitas vezes! – irrita todos. O seu lado e o dos outros, a direita e a esquerda. Isto não tem tanto que ver com as ideias, parece-nos, mas sobretudo com uma característica própria de alguns tipos de cérebros, que estão constantemente a tentar fazer das coisas mais irrelevantes prenúncios ou consequências de ideias políticas mais vastas. Um esquerdista sincero pode querer pegar no filho e dar uns tiros com uma pressão de ar num quadro de cortiça, sem se preocupar em saber se está a financiar a indústria do armamento, a educar um espírito belicista, ou até a contribuir para a perpetuação da oligarquia latifundiária do Alentejo; por muito que a Clara Não não deixe, ninguém gosta de estar constantemente a policiar os seus gestos, palavras e omissões, nem está disposto a considerar-se menos liberal por ter um dia usado uma esferográfica que beneficiou das distorções no mercado causadas por medidas proteccionistas que mantêm as nossas fábricas de canetas, injustamente, a funcionar.
Todos estes ódios concorrentes, além de nos permitirem odiar com renovado requinte e uma consciência esclarecida todo um naipe de gente, revelam duas coisas que nos parecem importantes.
Nunca, quando se pensou a democracia, se pensou no papel que o ódio ocuparia no centro da vida política. Girard explicou-o em relação aos políticos, com o seu bode expiatório, e em relação à imprensa a evidência está à vista. A promoção do povo a categoria política revelou um povo mais interessado na função expiatória do poder do que em garantir a sua própria representação, e a nossa relação com a imprensa é exemplo disso mesmo.
Ao mesmo tempo, o que há em comum nos vários tipos de ódio é a tentativa, feita com uma agressividade espantosa, de expulsar a nuance e a ressalva do discurso público. Isto é, ao mesmo tempo, causa e consequência dos nossos sistemas políticos. A nossa relação com a opinião publicada mostra que só há espaço no discurso público para a opinião que se encontra dentro de alguns, poucos, arquétipos pré-definidos. O que foge a isso é exortado, com a violência conhecida por todos, a acomodar-se a esses mesmos arquétipos. Isto diminui, obviamente, o número de opiniões com que temos contacto; mas é bom lembrar que foi também este o modo que escolhemos para nos organizarmos politicamente: reduzimo-nos a um pequeno número de hipóteses básicas e arquetípicas – mais ou menos Estado, mais liberdade ou mais igualdade – e obrigamos as ideias políticas a conformarem-se a esses pastelões. Não há outra forma de o fazer, enquanto o espaço público for massificado e organizado para arregimentar multidões? Provavelmente não, mas isso não quer dizer que esteja certo.