“Agora vamos ter o Manchester City, já estou mesmo a ver”. Ainda na zona mista do Santiago Bernabéu após o jogo da segunda mão do playoff da Liga dos Campeões frente ao Benfica, Thibaut Courtois já falava de um futuro adversário nos oitavos antes do sorteio. Havia duas hipóteses em cima da mesa, o guarda-redes belga apontava logo para o cenário teoricamente mais complicado. Era quase como, sendo o menos culpado de tudo o que se tem passado na época do Real Madrid, soubesse que existe uma atração indisfarçável entre esta equipa dos merengues e os piores cenários. Fora do relvado tudo está assim, nas quatro linhas o cenário só tende a piorar – e quando todos pensavam que os dois triunfos europeus diante dos encarnados poderiam ser uma rampa de lançamento para a redenção até ao final da temporada, eis que a crise se instalou de vez.
https://observador.pt/2026/03/03/real-madrid-perde-com-getafe-e-fica-a-quatro-pontos-do-topo-da-liga-espanhola/
Os três triunfos consecutivos na Liga entre os dois encontros frente ao Benfica, que aumentaram para oito o número de jogos seguidos a ganhar na competição, pareciam ser uma regra para vigorar. Não foram. Mais uma vez, o Bernabéu passou a linha da desconfiança e expressou o descontentamento após ver nova derrota frente ao Getafe, em assobios e numa autêntica debandada a partir do 85.º minuto quase como se não houvesse mais nada para ver perante a incapacidade de anular o único golo do jogo. Ninguém escapou ao escrutínio de um tribunal à beira de um ataque de nervos perante a irregularidade do Real e foi com cânticos de “Florentino, dimisión” vindos de um setor em específico do estádio que o conjunto agora orientado por Álvaro Arbeloa adensou uma crise há muito instalada mas que conhece capítulos para muitos impensáveis.
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O que falha? Quase tudo. O Real é demasiado frágil do meio-campo para trás, tem pouca criatividade do meio-campo para a frente e procura sem encontrar referências um pouco por todo o lado. A técnica não faz de um conjunto de jogadores uma equipa, a tática não é a melhor para as características dos disponíveis e as lesões em catadupa mais não são do que um reflexo do trabalho de base mal feito. Em 12 jogos, Arbeloa teve quatro derrotas. Numa semana, os dois pontos de avanço na Liga passaram a quatro de atraso para o Barça. “Ninguém vai atirar a toalha, isto é o Real e não nos rendemos”, apontou o treinador num discurso quase redondo que dá a volta a tudo menos aos problemas que assolam a formação da capital espanhola. Se em 28 jogos Xabi Alonso ganhou 20 e perdeu apenas cinco, Arbeloa está quase a atingir esse registo de desaires em metade dos compromissos. “Não me cabe a mim fazer avaliações”, comentou. Os números tratam de fazê-lo.
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Em 20 dias, o Real Madrid joga o que ainda tem esta época. Perdeu a Supertaça frente ao Barcelona, foi eliminado pelo modesto Talavera da Taça do Rei, corre atrás dos catalães na Liga e enfrenta um City que já ganhou esta época no Bernabéu nos oitavos da Champions. Seguem-se Celta Vigo (fora), Elche (casa) e o dérbi caseiro com o Atl. Madrid além da eliminatória europeia até à paragem das seleções. Sem Mbappé, sem Bellingham, sem Eder Militão, sem Camavinga, sem Dani Ceballos, de novo sem Rodrygo (que voltará a ter uma paragem longa confirmando-se os piores receios), agora sem os castigados Álvaro Carreras, Huijsen e Mastantuono – um dos poucos criticados de forma aberta por Arbeloa, depois de ter sido expulso por palavras ao árbitro já nos minutos finais da partida. Os reforços que chegavam para melhorar o presente e dar outro futuro ao Real Madrid estão sobretudo a trazer os fantasmas do passado, quando o fim da era dos galáticos atirou o clube para uma crise desportiva e institucional como há muito não se via no Bernabéu.
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Arbeloa também não passou ao lado da contestação, com a tripla substituição operada aos 55′ com as saídas de Trent Alexander-Arnold, David Alaba e Thiago Pitarch para as entradas de Dani Carvajal, Dean Huijsen e Rodrygo a iniciar o coro de assobios às opções que foi tomando ao longo da segunda parte. “Os adeptos que assobiaram a substituição do Thiago tiveram razão, entendo e aceito porque estava a fazer um grande jogo”, disse o técnico após o encontro. “Percebo toda a insatisfação mas jogando mal, pior ou de forma regular, merecemos marcar mais golos do que o Getafe porque criámos oportunidades claras para isso”, acrescentou numa postura que acaba por desarmar a própria crítica… tendo em conta que fala a concordar com ela. Ainda houve mais um episódio de tensão a envolver Vinícius Jr. com Allan Nyom pela forma como festejou a vitória no final (num “despique” que vinha do encontro da primeira volta) e Rüdiger arriscou a expulsão com duas joelhadas seguidas num adversário no chão que passaram ao VAR mas aquilo que sobrou foi o resultado.
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Também no balneário o ambiente não será o melhor. De acordo com o El Chiringuito, todo o clima estará demasiado tenso, com qualquer críticas apontada a motivar logo uma resposta e uma discussão. “É assim que estão as coisas no Real. Se um peso pesado levanta a voz, surgem logo outras a questionar o que diz e acusações mútuas. É preocupante que um balneário não tenha dois ou três líderes que possam falar de forma aberta e serem francos devido à tensão”, comentou o jornalista Edu Aguirre no mesmo programa.
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“Fim da ambição na Liga? Não. Agora não podemos ter outro objetivo que não seja ganhar os 36 pontos que ainda estão em jogo, é uma distância que acredito que possamos recuperar. Sei que agora parece não haver grande esperança, temos de voltar aos triunfos. Sabemos que há muito para melhorar. A responsabilidade é minha, nada a apontar aos jogadores. Tivemos ocasiões para marcar, é certo. Podemos jogar melhor, também é certo. Não posso dizer nada do esforço dos jogadores, o responsável pela derrota sou eu e não me desculpo com as ausências e com as baixas que temos na equipa”, comentou Arbeloa na conferência, admitindo de forma discreta que muitas vezes a equipa tem tendência para dar a bola a Vinícius Jr. e esperar que o avançado brasileiro resolva, o que torna mais previsível todo o jogo em posse do Real Madrid.
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Se antes a questão era sobre quem se seguiria ao técnico no final da temporada, agora as preocupações estão todas centradas naquilo que ainda conseguirá fazer esta época perante o cenário mais negativo de tudo estar hipotecado de vez até à paragem para as seleções em março. E no ano em que Florentino Pérez foi reeleito presidente sem ter qualquer oposição na corrida eleitoral (apesar das ameaças que se foram surgindo, por Enrique Riquelme neste caso), toda a crise do futebol dos merengues promete continuar a chegar ao topo do clube, que pela primeira vez assumiu a possibilidade de entrada de investimento externo.