Há momentos em que um país precisa de voltar a olhar para si próprio com honestidade e, ao mesmo tempo, com ambição.
A transição para uma nova Presidência da República é um desses momentos.
Não porque o Presidente tenha poderes executivos, mas sim porque pode orientar, convocar e sinalizar prioridades, ou seja, pode ajudar a transformar aquilo que o país discute todos os dias “ao megafone”, numa conversa mais elevada, mais consistente e mais estruturada.
Mais de meio século depois da revolução, Portugal chega a esta fase do ciclo económico e político com uma evidência difícil de contornar: a sustentabilidade deixou de ser um tema setorial (“do ambiente”, “da economia”, da “segurança social”, da “habitação”, “da educação” ou “da saúde”) e passou a ser uma arquitetura única.
Pessoas, planeta e sistemas sociais formam um todo interdependente. E num país marcado pelo envelhecimento acelerado, natalidade baixa, pressão sobre o SNS, inquietações sobre o modelo de ensino, tensão habitacional e dúvidas legítimas sobre a sustentabilidade de longo prazo do Estado Social, a questão já não é se devemos mudar mas sim, como mudar.
Uma agenda de futuro para o “como mudar” pode assentar em quatro eixos orientadores, simples de enunciar, mas exigentes de concretizar: interdependência global, longotermismo, equidade intergeracional e ponderação científica.
Interdependência global: o futuro já não cabe dentro das fronteiras
A ideia de interdependência global está intimamente ligada ao ambiente, mas não se esgota apenas aqui. Na realidade, a interdependência manifesta-se também na demografia, nas migrações, nos choques económicos, na circulação de doenças e na forma como todos estes fatores pressionam, por vezes de forma simultânea, a saúde pública, o ensino, a habitação e a proteção social.
Portugal sente isso de modo particularmente evidente. Não existe resposta nacional que funcione se ignorar que as cadeias de valor, os ciclos migratórios, as crises sanitárias e os impactos climáticos são, por natureza, transnacionais. A soberania do século XXI não se faz com isolamento, faz-se com capacidade de cooperação, com instituições resilientes e com uma diplomacia económica e social que perceba as ligações invisíveis entre decisões tomadas “lá fora” e efeitos sentidos “cá dentro”.
A Presidência pode ser útil nesta matéria, promovendo uma visão de Estado que leia o país como parte de uma rede maior e que mobilize consenso para políticas que, sendo nacionais, se orientem por objetivos europeus e globais porque os desafios já são, na prática, comuns.
Longotermismo: governar o presente sem hipotecar o amanhã
O segundo eixo da sustentabilidade é o longotermismo (conceptualizado por William MacAskill, filósofo escocês, professor na Universidade de Oxford e autor do livro “What We Owe the Future” de 2022), ou seja, a integração do longo prazo nas decisões do presente.
É a ideia mais simples e, talvez por isso, a mais difícil. A democracia vive de ciclos curtos, enquanto a sustentabilidade exige horizontes longos. O resultado é conhecido: investimentos estruturais adiam-se, reformas complexas evitam-se, e os custos acumulam-se até se tornarem inevitáveis.
Quando falamos de demografia (e.g., envelhecimento, baixas taxas de natalidade, redução relativa da população ativa) estamos a falar de tendências lentas, mas implacáveis. E essas tendências condicionam a produtividade, a base contributiva, a capacidade do SNS, os cuidados de longa duração e o equilíbrio das contas públicas. O futuro não chega de repente. O futuro é a soma de curtos prazos.
Por isso, o longotermismo não é uma preferência “técnica”. É uma obrigação política! Importa reformar a saúde, a edução e proteção social com horizonte de décadas. É urgente adotar uma política de habitação que deixe de ser apenas uma gestão de emergência e que as políticas de apoio às famílias façam sentido na vida real (trabalho, rendimentos, previsibilidade).
Neste contexto, o papel da Presidência não é escrever o programa de governo. Contudo, pode (e deve) pressionar para que as escolhas estruturais não sejam sucessivamente adiadas. Pode convocar os partidos e a sociedade civil para um princípio simples: “decidir hoje com a mesma seriedade com que gostaríamos que tivesse sido decidido há vinte anos”.
Equidade intergeracional: justiça entre quem vive agora e quem ainda não vota
A equidade intergeracional é o teste moral das políticas públicas. Uma sociedade é justa quando consegue proteger a geração presente sem transferir para as gerações futuras a fatura de decisões confortáveis (ou da falta delas).
Numa população envelhecida, o dilema é conhecido: como financiar pensões e cuidados de saúde crescentes sem sacrificar oportunidades para quem começa a vida adulta? Como garantir habitação acessível, mobilidade social e condições de trabalho dignas para jovens e famílias, sem fragilizar a proteção de idosos vulneráveis? Como reforçar o Estado social sem torná-lo insustentável?
A resposta não está em opor gerações. Está em redesenhar solidariedades. Uma política intergeracional séria implica: cuidados de saúde ao longo do ciclo de vida; proteção social adequada para populações envelhecidas; acesso a uma habitação digna para jovens e idosos; modelos de solidariedade que não dependam apenas de transferências financeiras; e novas formas de participação económica dos mais velhos, compatíveis com dignidade e capacidade.
Aqui, a Presidência pode cumprir uma função decisiva: impedir que a política se limite a gerir conflitos imediatos e incentivar um pacto intergeracional. Porque a equidade intergeracional não é “um tema dos jovens” ou “um tema dos idosos”. É uma condição de estabilidade democrática. Quando uma geração sente que o sistema não lhe oferece futuro, cresce o espaço para o cinismo e para soluções fáceis e perigosas.
Ponderação científica: decidir com evidência e não apenas com o instinto
O quarto eixo é a ponderação científica, ou seja, a integração sistemática de evidência demográfica, epidemiológica, económica e territorial no desenho das políticas públicas. Num mundo de disrupções rápidas, o improviso é caro.
Mas há aqui uma condição adicional, tantas vezes esquecida: a evidência só cumpre o seu propósito se for transparente, compreensível e comunicada com responsabilidade.
Informação disponível não é sinónimo de informação útil. Sem um mínimo de enquadramento, sem literacia estatística e económica, e sem uma comunicação pública que traduza os dados em mensagens claras, a produção de evidência cientifica pode transformar‑se paradoxalmente num fator de desinformação.
Quando o público recebe números sem contexto, projeções sem explicação ou diagnósticos técnicos sem tradução prática, abre‑se espaço para leituras erradas, ruído político e perda de confiança institucional.
A ponderação científica exige, por isso, três camadas complementares: boa evidência, boa explicação e boa comunicação.
Na prática, o que significa esta ponderação?
Significa usar projeções demográficas para dimensionar o SNS e antecipar necessidades clínicas num país que envelhece. Significa projetar com rigor a sustentabilidade financeira das pensões e o impacto da transição demográfica nos cuidados de longa duração. Significa basear reformas da proteção social em avaliações robustas e comparadas, e calibrar políticas para reduzir desigualdades evitáveis. Significa, ainda, olhar para a habitação, mobilidade e território como determinantes reais de saúde, produtividade e coesão social (porque viver longe, mal servido e sem tempo também adoece).
Mas implica igualmente comunicar estes diagnósticos de modo claro, pedagógico e responsável, evitando que a divulgação de dados complexos alimente perceções distorcidas ou discursos simplistas. Transparência não é despejo de informação: é capacidade de a tornar inteligível.
Num país onde os sistemas públicos enfrentam pressões múltiplas, decidir sem modelos e sem avaliação é decidir às cegas. Contudo, decidir com modelos que ninguém compreende também não serve a democracia.
Também aqui o Presidente pode ser um aliado do futuro, promovendo uma ética de responsabilidade informacional, defendendo decisões baseadas em evidência clara e escrutinável, e incentivando uma comunicação pública que esclareça, em vez de confundir. Porque a ciência só orienta verdadeiramente quando é partilhada por forma a ser compreendida por todos.
Uma Presidência para o futuro: convocar o país para um novo compromisso
Portugal tem uma oportunidade rara: usar a mudança na Presidência da República para elevar o debate e alinhar o país em torno de uma visão coerente de sustentabilidade.
Uma visão que una pessoas, planeta e sistemas sociais, sem tratar cada tema como um compartimento.
E essa visão terá de assentar em quatro vetores, a saber:
- Interdependência global, para ler o mundo como ele é.
- Longotermismo, para decidir hoje respeitando o futuro.
- Equidade intergeracional, para manter a democracia justa.
- Ponderação científica, para tornar as políticas eficientes.
O país não precisa apenas de mais medidas. Precisa de um rumo. A Presidência pode não governar, mas pode (e deve) ser o lugar onde esse rumo ganha voz, consistência e exigência.
Porque, no fim, a verdadeira sustentabilidade não é um conceito abstrato, mas sim a capacidade de garantir que Portugal continua a ser um bom lugar para viver hoje, amanhã e quando os nossos filhos forem a geração adulta que já não aceitará desculpas.
PS: No próximo dia 12 de março de 2026, a Plataforma para o Crescimento Sustentável, da qual faço parte, realizará na Fundação Calouste Gulbenkian o III Encontro Sustentável, sob o tema “Alternativa Sustentável: Novos Valores, Novos Princípios”. Este encontro reunirá um painel alargado de oradores de referência, que analisará e debaterá precisamente os quatro eixos aqui apresentados – interdependência global, longotermismo, equidade intergeracional e ponderação científica -, enquanto pilares essenciais de uma estratégia nacional de futuro. Será uma oportunidade para aprofundar estas ideias, confrontá-las com diferentes perspetivas e contribuir para a construção de uma visão mais robusta e sustentável para Portugal.