“Os seres humanos são membros de um todo,
Pois todos, no início, vieram da mesma essência.
Quando o tempo aflige um membro com dor,
Os outros membros perdem o sossego.
Tu, que não sentes a dor alheia,
Não mereces o nome de humano.”
As palavras do poeta persa Saadi Shirazi têm mais de 800 anos, mas o seu peso político pode ajudar-nos a avaliar a intervenção americana no Irão. Se não podemos permanecer indiferentes à miséria alheia, que resposta é devida ao sofrimento do povo iraniano? E se essa resposta justifica intervenção externa, quem decide quando e como?
Durante quase meio século, o povo iraniano foi brutalmente reprimido por um regime teocrático. Khomeini e o seu sucessor Khamenei (agora morto pela intervenção americana) transformaram o berço de uma das mais prósperas civilizações num país vergado a um fundamentalismo islâmico, mais preocupado com a destruição dos seus vizinhos e a concentração de poder clerical do que com o bem-estar da sua população. Em resposta a sociedade civil iraniana demonstrou repetidamente coragem extraordinária ao sair à rua em protesto, mesmo sabendo das consequências que a esperavam. Em 2019, o “Novembro Sangrento” resultou em milhares de mortos. Em 2022, as mulheres iranianas protagonizaram o movimento “Woman, Life, Freedom” em resposta ao homicídio de Mahsa Amini. No final de 2025 e início de 2026, nova vaga de protestos contra a crise económica e a repressão. Nova matança. Embora seja impossível determinar números exatos, o número de mortos superará os 30 mil.
Foi este o enquadramento humanitário que Trump apresentou para justificar a intervenção. Citou também o perigo nuclear e o programa de mísseis balísticos, mas sobretudo apelou ao povo iraniano para se erguer contra o regime. Neste sentido, a morte das principais figuras e a destruição das infraestruturas de repressão foram um sucesso. Mas levantam uma questão fundamental: o regime cairá pela decapitação das suas lideranças?
A resposta exige compreender porque é que o Irão não é o Iraque nem a Líbia. O aparato institucional iraniano distancia-se radicalmente dos modelos de Saddam Hussein ou Muammar Gaddafi. Aqueles eram regimes altamente centralizados onde a concentração de poder num só homem esvaziou as estruturas institucionais. Destituído o líder, toda a infraestrutura colapsava. O modelo iraniano é diferente, descentralizado, com cadeias de comando estruturadas para resistirem precisamente ao desaparecimento das principais figuras.
Esta arquitetura insere-se na própria lógica teológica do movimento Shia que, forçado a reorganizar a sua filosofia após o desaparecimento de Muhammad al-Mahdi no século X, desenvolveu uma teologia da ausência. A Ocultação gerou uma delegação institucional da autoridade, onde o poder deixou de residir no carisma de um líder para se alojar na abstração da autoridade religiosa. E uma autoridade abstrata é mais facilmente institucionalizável do que um carisma pessoal. Foi esta forma de pensar a soberania que Khomeini baptizou com o nome Velayat-e faqih após 1979. A morte de Khamenei não levará, portanto, automaticamente ao colapso do regime. A estrutura foi desenhada para sobreviver.
E a reação iraniana que temos testemunhado nas últimas semanas demonstra precisamente esta resiliência institucional. Os ataques iranianos seguem uma estratégia clara de retaliação assimétrica, pondo tremenda pressão económica sobre os países do Golfo que procuraram diversificar as suas economias apresentando-se como destinos turísticos e de investimento seguros. Esta reputação de estabilidade e segurança ficou agora comprometida. O bloqueio do Estreito de Ormuz segue a mesma lógica: causar dor económica suficiente para que Trump, de olho nas midterms, recue antes que o preço da gasolina e a inflação custem demasiado politicamente. O regime não precisa de vencer, precisa apenas de sobreviver tempo suficiente para que o custo político da guerra se torne insuportável para Washington.
Isto coloca a intervenção americana perante três cenários possíveis, todos profundamente preocupantes.
No primeiro, o regime sobrevive. Nesse caso, a lição que extrairão é evidente: a Coreia do Norte, por exemplo, apesar da repressão brutal sobre o seu povo e do desenvolvimento do seu programa nuclear, nunca foi alvo de ataques militares americanos. Pelo contrário, Kim Jong-Un foi tratado com deferência diplomática, recebeu cimeiras presidenciais, viu Trump elogiar publicamente a sua liderança. A diferença entre o tratamento dado à Coreia do Norte e ao Irão reside precisamente no armamento nuclear. Quem o possui conquista imunidade, quem não o possui fica vulnerável. Para mais, os ataques americanos desacreditarão completamente os moderados dentro do regime iraniano que, durante anos, defenderam o caminho diplomático e negociaram o JCPOA. A violação unilateral do acordo por Trump em 2018 já tinha fragilizado essa posição. Agora, com ataques militares diretos, qualquer argumento a favor da moderação ou do diálogo fica definitivamente desacreditado. O poder consolidar-se-á nas mãos dos hard-liners, precisamente aqueles que sempre argumentaram que o Ocidente só respeita a força e que a única garantia de sobrevivência do regime passa pelo armamento nuclear.
Mas se a sobrevivência do regime é preocupante, o seu colapso pode ser ainda mais perigoso. No segundo cenário, o regime cai, mas a ausência de uma oposição coesa e organizada mergulha o país no caos. Décadas de repressão brutal eliminaram sistematicamente qualquer estrutura organizativa capaz de oferecer alternativa credível ao regime. O que resta são grupos dispersos, divididos por linhas ideológicas, étnicas e regionais, sem coordenação nem liderança unificadora. Neste cenário, o Irão correria o risco de seguir o caminho da Líbia pós-Gaddafi: um colapso institucional total, milícias rivais a disputarem o controlo territorial, potências regionais a alimentarem proxies locais, e o país a fragmentar-se em zonas de influência. Um colapso iraniano não significaria, por isso, apenas uma crise humanitária regional. Significaria material nuclear potencialmente acessível a atores não estatais, grupos separatistas, ou milícias rivais — precisamente o cenário que a intervenção americana pretendia evitar.
No terceiro cenário, Trump consegue enfraquecer o regime suficientemente para extrair um acordo melhor que o JCPOA negociado por Obama, declara vitória e retira-se. Nesse caso, a justificação junto do seu eleitorado poderá ser mais fácil no curto prazo. Mas Trump terá traído a confiança de milhões de iranianos que veem na intervenção americana a única forma de libertação e que saíram à rua confiando nas promessas do presidente americano.
É aqui que chegamos à contradição central desta operação. Trump fez carreira política a criticar as aventuras humanitárias dos neoconservadores, fazendo do isolacionismo, o chamado America First, uma das suas principais bandeiras. Agora adota retórica idêntica à que passava a vida a condenar: questões humanitárias, nation-building, levar liberdade e democracia ao povo iraniano. É o discurso que estávamos habituados a ouvir dos neocons do partido republicano para justificar intervenções externas.
Se Trump pretende genuinamente mudança de regime, será forçado a abraçar os argumentos que durante anos ridicularizou. Terá de apresentar à sua base (já fraturada pelos ficheiros Epstein) o aumento de preços para os americanos e a morte de militares como preço a pagar pela libertação do povo iraniano. É uma venda difícil a um eleitorado condicionado pelo próprio Trump a rejeitar automaticamente qualquer intervenção externa. E se a mudança de regime depende da mobilização da sociedade civil iraniana, Trump precisa de garantir que apoiará os insurgentes incondicionalmente. O povo iraniano tem de sentir esse apoio, caso contrário, dificilmente haverá mobilização suficiente para destronar os ayatollahs. Contudo, até agora, Trump não foi claro quanto às suas intenções.
O que torna esta operação particularmente perigosa é precisamente isto: a aparente ausência de qualquer plano de longo prazo para o Irão. A administração americana não apresentou estratégia para o dia seguinte à queda do regime, não articulou visão para a reconstrução institucional, não delineou como pretende evitar o colapso em guerra civil ou a fragmentação do país. Trump parece mais interessado na operação em si, na projeção de poder americano, na decapitação espectacular do regime, do que no futuro do povo iraniano.
Para um presidente que pretende ficar para a história como aquele que finalmente pôs fim ao regime dos Ayatollahs, Trump aparenta demonstrar um desinteresse notável pelas consequências das suas próprias ações. Mas mais do que uma incoerência pontual, esta contradição reflete de certa forma a natureza da presidência Trump: orientada para a performance, para o momento espetacular, não para a governação paciente. A operação na Venezuela funcionou precisamente porque era cirúrgica, limitada, com objetivos claros e uma oposição organizada pronta a assumir o poder. O Irão, no entanto, é ordens de magnitude diferente. Ainda assim, conseguir uma mudança bem-sucedida de regime no Irão seria uma vitória incontestável.
Conhecendo estes riscos, o presidente americano decidiu avançar. Talvez encorajado pelo sucesso venezuelano, talvez inebriado pela possibilidade de eternização histórica, talvez simplesmente por julgar ser esta a melhor oportunidade antes das midterms para consolidar a base à volta de uma guerra e tomar a iniciativa antes de uma potencial maioria democrata limitar o seu poder. As motivações importam menos do que o facto: lançou uma intervenção militar de consequências potencialmente catastróficas sem articular publicamente qualquer visão para o que vem depois.
Este segundo mandato de Trump revela uma disposição crescente para usar a força militar como instrumento de política externa, sem constrangimentos aparentes em relação ao direito internacional. As tarifas eram a arma preferida, mas deixaram de ser a única. O que se torna cada vez mais evidente é que Trump tem pouco ou nenhum interesse em preservar a ordem internacional que emergiu do pós-Segunda Guerra Mundial, aquela mesma ordem agora distante que permitiu aos Estados Unidos consolidarem-se como potência hegemónica incontestável.
No seu lugar, procura erguer uma doutrina pautada pelos seus interesses imediatos e pelos interesses de curto prazo americanos, onde a construção de valores e instituições é sempre secundarizada em relação à acumulação de poder e recursos. A intervenção na Venezuela ilustrou bem este padrão: o regime de Maduro foi, em grande parte, deixado intacto em troca de abrir o mercado petrolífero aos americanos. A retórica humanitária serviu de justificação, mas o objectivo era transaccional. Se Trump seguirá esta mesma lógica no Irão — instrumentalizar o sofrimento do povo iraniano para extrair concessões antes de declarar vitória e retirar — não sabemos.
O que sabemos é isto: o povo iraniano demonstrou durante décadas o seu desejo de emancipação. Trump lançou uma operação que pode libertá-lo ou mergulhá-lo no caos, mas nunca esclareceu qual dos desfechos pretende garantir. A história ensina-nos que regimes podem cair num dia, mas que Estados demoram décadas a reconstruir-se, que sem uma estratégia concreta para o dia seguinte, a intervenção transforma-se num salto no escuro. Até pode existir um plano, mas se existe, Trump escolheu não o partilhar nem com o povo iraniano, nem com o eleitorado americano. E sem essa clareza, os iranianos não sabem se valerá a pena arriscar as suas vidas, e os americanos não sabem pelo que estão a pagar.
Saadi falava em não permanecer indiferente à miséria alheia. Trump invocou essa miséria. Resta saber se para a aliviar ou apenas para a instrumentalizar.