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Conflito no Golfo pode ter "outros impactos a prazo" para além dos preços. Galp está em contacto com o Governo e prepara cenários

Galp Energia espera pelos próximos dias para perceber impacto da crise no Golfo. Estão em contacto com o Governo e a preparar cenários. E admitem efeitos a prazo, para lá da subida dos preços.

Ana Suspiro
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O conflito no Médio Oriente que atingiu o coração do mercado mundial de petróleo e de gás pode vir a ter impactos a longo prazo que vão além da subida de preços que é reação mais imediata, visível nas cotações desta segunda-feira das duas matérias-primas.

Os impactos de curto prazo e de longo prazo deste choque vão ter consequência diferentes, afirma Maria João Carioca, co-presidente executiva da Galp Energia. “Os preços são sempre onde a reação é mais imediata”, mas “temos a noção de que, a prazo, vem um conjunto de outros impactos que podem naturalmente afetar também o volume.” Entre as consequências possíveis estão as variações no custo do shipping (tráfego marítimo), dos seguros e o planeamento de cargas. “Vai gerar alguma pressão e alguma procura pode contrair se os preços subirem” e será necessário muita flexibilidade para reajustar.

https://observador.pt/especiais/ataque-retaliacao-e-contagio-o-que-esta-em-risco-no-estreito-de-ormuz-e-quem-e-mais-afetado-em-11-respostas/

As declarações foram feitas ao Observador no dia em que a Galp apresentou os resultados de 2025 com um aumento de 20% no lucro ajustado que se fixou em 1.150 milhões de euros. João Diogo Marques, também co-CEO da Galp, confirmou que a empresa tem estado em contacto com o Governo no quadro da situação de crise gerada pelos ataques de sábado ao Irão.

Os dois gestores aguardam pela consolidação dos acontecimentos nos próximos dias que vão permitir perceber melhor qual é o impacto, mas “temos que ter cenários para estarmos preparados”, quer o problema se resolva mais depressa, quer se prolongue e venha a ter efeitos indiretos.

Principal compradora de petróleo e gás natural para o mercado nacional, a Galp tem as suas operações mais focadas no Atlântico, onde estão também os seus principais fornecedores, como são os casos do Brasil, dos Estados Unidos e da Nigéria.

A empresa não tem cargas presas em navios com a marcha paralisada por não poderem passar no Estreito de Ormuz. “A tensão na zona era algo que já se sabia há algum tempo” e, mesmo sem poder antecipar a extensão ou o momento em que o conflito iria deflagrar, “estávamos a ter bastantes cautelas com trânsitos naquela zona. E não temos nada. Nas próximas semanas não temos nada previsto”, afirmou ainda Maria João Carioca.

Ainda assim, as equipas estão “operacionalmente muito focadas em encontrar opções alternativas operacionais. Fazer todo o trabalho para garantir que quaisquer impedimentos logísticos e dificuldades que surgem no contexto atual sejam superadas”, assinalou Maria João Carioca. “Estamos em contacto muito direto com os nossos clientes e com os mercados e a ter muito trabalho para perceber o que está aberto e o que podemos aproveitar”.

Galp já explicou racional de fusão com a Moeve ao Governo e diz que atual crise só reforça esse racional

No dia em que anunciou os resultados de 2025, a Galp reafirmou o objetivo de fechar as negociações para o acordo com a Moeve para a constituição de duas parcerias ibéricas. Uma no retalho de combustíveis e outra no setor industrial onde a empresa portuguesa irá ceder o controlo da refinaria de Sines, mantendo uma minoria de capital “significativa”. O processo ainda não chegou à fase das autorizações regulatórias, mas já houve conversas com o Governo português para “explicar o racional”.

Estas discussões com a empresa espanhola, que tem como acionista principal o fundo soberano do Abu Dhabi, “em nada são afetadas por este contexto internacional”, assegura João Diogo Marques da Silva. Questionado sobre a reserva manifestada pelo ministro da Economia, Castro Almeida, em relação à perda de controlo da única refinaria portuguesa, o gestor respondeu que já houve “a oportunidade de estar em contacto com o Governo e explicar o racional desta transação”. O que passa por reforçar a competitividade e a escala até a nível europeu de investimentos que têm de ser realizados nas infraestrutura industriais em Portugal e Espanha, acrescenta.

O co-CEO da Galp defende também que, no atual contexto em que estamos a viver, uma “eventual transação que possamos decidir só vem reforçar a independência e segurança de abastecimento, competitividade, escala e resiliência deste tipo de ativos. É o lado positivo que tivemos oportunidade de destacar junto do Governo”.

Na sessão desta segunda-feira, as ações da Galp fecharam a subir 7,3%, para 19,545 euros, permitindo que o índice da bolsa nacional (PSI) fechasse com uma baixa ligeira, de 0,04%, para 9.272,47 pontos.