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Vai a economia resistir à guerra?

As economias têm estado submetidas a sucessivos choques, revelando uma resistência notável. Vão resistir aos efeitos da guerra com o Irão?

Helena Garrido
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O estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo mundial, está basicamente encerrado. Por ali passam igualmente fornecimentos de Gás Natural Liquefeito, fertilizantes e alumínio, para citar alguns dos mais importantes produtos. As transportadoras mais importantes suspenderam os seus serviços na região e seguem rotas, mais caras, pelo Cabo da Boa Esperança. As seguradoras anunciam agravamento de tarifas ou cancelamento de apólices. Há portos danificados assim como infraestruturas de gás e petróleo. O Qatar anunciou a suspensão da produção de gás depois das suas infraestruturas terem sido atingidas pelo Irão. A Arábia Saudita também suspendeu na segunda-feira a produção da sua refinaria Ras Tanura na sequência de um ataque iraniano.

Praticamente desde o primeiro dia percebeu-se que os alvos de Teerão não eram apenas os interesses americanos na região. Os ataques que está a fazer parecem mostrar que o Irão está disposto a ir mais longe, provocando danos nas infraestruturas produtivas da região e inviabilizando o transporte marítimo. Estamos perante uma situação com um poder de desestabilização que pode superar os efeitos da invasão da Ucrânia pela Rússia. No caso do gás, usando dados revelados pelo Financial Times, estão em causa 120 mil milhões de metros cúbicos por ano que compara com 80 mil milhões do gasoduto russo, que deixou de fornecer a Europa em 2022.

Se o enquadramento político é preocupante, as consequências económicas estão aí para se fazerem sentir a muito curto prazo. E, desta vez, a economia global e a europeia em particular pode não conseguir resistir. Até agora tem conseguido evitar afundar-se apesar do choque inflacionista energético gerado pela guerra na Ucrânia. E, nos últimos tempos, tem conseguido aguentar o crescimento, apesar da loucura do tira e põe tarifas, da crise da Gronelândia, da acção na Venezuela e mais recentemente o novo abalo de tarifas. Mas a dimensão destes efeitos reúne condições para, desta vez, poder ser diferente.

Não parece existir uma economia, das que fazem mexer os ponteiros, que não seja afectada pelo que se está a passar. Mesmo os Estados Unidos, hoje autónomos em matéria energética, não ficarão imunes à subida do preço da energia e aos efeitos indirectos do abrandamento das outras economias. De acordo com os dados, as economias mais afectadas pela disrupção das exportações de energia que passam pelo estreito de Ormuz são as asiáticas, nomeadamente a China e a Índia. O impacto na China está a ser desvalorizado pela sua diversificação de fornecedores, o mesmo não acontecendo na Índia.

Mas há um efeito que é transversal: o dos preços. Numa altura em que os bancos centrais, na Europa e nos Estados Unidos, ensaiavam novas descidas de juros, este choque, que pode ser o maior dos últimos anos, vai colocá-los na posição de esperar mais um pouco para ver até onde pode ir a inflação. Há estimativas que apontam para a possibilidade de o petróleo chegar aos cem dólares, previsões que só são moderadas pelo facto de o seu preço ter já subido cerca de 20% desde o início do ano até ao dia do ataque dos Estados Unidos ao Irão. Aparentemente já existia um elemento de medo nesses preços já que a Agência Internacional de Energia estimava que existia um excesso de oferta no mercado.

Para os países daquela região o que se está a passar afecta seriamente o seu estatuto de segurança que faz deles centros financeiros e de negócios. Pelo menos a Arábia Saudita e os Emiratos Árabes Unidos têm todo uma activo intangível de segurança que passou a estar danificado, com efeitos na economia. Algumas empresas vão seguramente equacionar reajustar as suas localizações.

Ainda que os mercados sejam um melhor indicador de curto prazo do que um antecipador do que se vai passar na economia, os primeiros sinais estão dados. Além da energia, o que se está a passar tem condições para afectar seriamente o turismo, levando até em conta o papel que as companhias aéreas daquela região, como a Emirates e a Qatar, têm na distribuição de viajantes pelo mundo. É nesse contexto que se pode entender o impacto que o conflito está a ter nas empresas cotadas da designada “indústria da paz”, como os grupos hoteleiros e as companhias aéreas.

No meio de tudo isto, Portugal está exposto não apenas à subida de preços desencadeada pelo choque energético, mas também ao esperado agravamento resultante da onda de tempestades que assolou o país. Além disso, um abalo no sector do turismo, gerando medo de viajar, pode ter um impacto muito negativo num país em que esse sector tem um peso significativo, quer em termos de produção como em emprego.

Além disso, se olharmos para o que tem sido o perfil de crescimento da economia portuguesa nos últimos dois anos temos todas as razões para nos preocuparmos. Tem sido o consumo a grande locomotiva, em grande parte alimentado pela descida de impostos e apoios a pensionistas com rendimentos mais baixos que quem alimentado o crescimento. E este modelo de aumentar o poder de compra tem forçosamente de desaparecer este ano face aos gastos que os danos das tempestades geraram.

Pode ter chegado ao fim a resistência que as economias têm revelado aos sucessivos choques que a têm assolado praticamente desde a pandemia, em 2020. Uma capacidade que levou já a The Economist a baptizá-la como economia “teflon”. A dimensão do choque a que estamos a assistir com este conflito no Médio Oriente tem todas as condições para romper o teflon. Há um limite para a resistência das economias, mesmo com juros baixos e distribuição de dinheiro dos orçamentos.