(c) 2023 am|dev

(A) :: Dos mísseis balísticos aos hipersónicos, passando pela massa de drones. O "escudo" de armas iranianas que os EUA querem destruir

Dos mísseis balísticos aos hipersónicos, passando pela massa de drones. O "escudo" de armas iranianas que os EUA querem destruir

Mísseis balísticos de curto alcance foram utilizados em ataques ao Iraque. Contra Israel, o Irão terá utilizado mísseis que chegam mais longe. No arsenal contam-se ainda drones e mísseis hipersónicos.

Marina Ferreira
text

Foi esta segunda-feira admitido pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio: a operação militar que decorre no Médio Oriente tem como objetivo a destruição “dos mísseis balísticos de curto alcance do Irão e a ameaça da sua Marinha”. A mudança de regime surge em segunda linha num plano conjunto dos EUA e de Israel para atingir o “escudo” do programa nuclear — o armamento tradicional que o regime iraniano desenvolverá há várias décadas.

“Vai chegar a uma altura que eles têm tanto armamento convencional que ninguém pode fazer nada sobre o seu programa nuclear. Estavam a fazer isso, a tentar colocar-se numa posição de imunidade”, garantiu Rubio em declarações aos jornalistas.

O Irão possui não só o maior, mas também o mais diversificado arsenal de mísseis do Médio Oriente, com opções para todos os ataques. Entre os mísseis balísticos de curto e médio alcance contam-se as suas vantagens e desvantagens — os que chegam menos longe são mais rápidos e permitem ataques regionais eficazes, os que chegam mais longe exigem maior logística de lançamento, mas têm potencial para atingir alvos tão distantes como Israel ou países do sudeste da Europa, e a prova disso são os ataques dos últimos dias.

think tank Center for Strategic and International Studies (CSIS) destaca que na última década o Irão “investiu significativamente no aprimoramento da precisão e letalidade das armas convencionais“, as tais referidas por Rubio. Os avanços tornaram as forças de mísseis iranianas numa ameaça para os EUA — sendo conhecidos os planos para o desenvolvimento de um míssil capaz de atingir território norte-americano.

Do lado iraniano, o programa de mísseis é defendido como uma necessidade de dissuasão, tendo em conta os inimigos de Teerão. A maioria dos governos ocidentais argumenta que os mísseis do Irão alimentam a instabilidade regional numa tentativa de lançar o futuro papel de lançamento de armas nucleares.

https://twitter.com/IDF/status/2027820586471195030

Os mísseis balísticos de curto alcance que podem ser lançados em vagas para dificultar interceção

Dentro do arsenal iraniano há mísseis balísticos de curto alcance que percorrem entre 150 a 800 km e foram construídos para atingir alvos militares próximos e para ataques regionais rápidos — alguns deles terão sido já utilizados contra o Iraque, por exemplo.

Como destaca a Al Jazeera, os sistemas principais, dentro de um alcance mais reduzido, incluem as variantes do míssil Fateh, com motores de nova geração, e os mísseis mais antigos Shahab-1/2.

O facto de terem um alcance menor é uma vantagem em várias frentes — incluindo pelo facto de poderem ser lançados em grande número ao mesmo tempo, reduzindo assim o tempo de alerta para os territórios atacados e dificultando também a sua interceção.

Foi esta a estratégia utilizada pelo Irão em janeiro de 2020, quando Teerão lançou dezenas de mísseis contra bases militares dos EUA em solo iraquiano, em retaliação contra o assassinato de Qassem Soleimani. Na altura, o ataque danificou a infraestrutura visada e deixou mais de 100 militares americanos com traumatismo cranioencefálico, demonstrando que o Irão podia infligir grandes prejuízos sem igualar o poder aéreo dos EUA.

Na altura, o Pentágono avançava que pelo menos uma dúzia de mísseis tinham sido usados no ataque às duas bases. O exército iraniano afirmava que tinham sido lançados 22 mísseis, e que mais dois dos 17 apontados à base de Al-Asad não tinham deflagrado.

Exigem mais logística, mas chegam mais longe. Os mísseis usados nos ataques contra Israel e bases norte-americanas

“O programa de mísseis balísticos do Irão tem o maior inventário da região e Teerão está a enfatizar a melhoria da precisão, letalidade e fiabilidade dos seus mísseis”, lê-se no relatório anual de avaliação de ameaças, elaborado pelo Serviços Secretos nacionais dos Estados Unidos em 2024, que estimava que o Irão tivesse nessa altura entre 2 mil a 3 mil mísseis, entre os de curto e médio alcance.

Para lá dos 1.000 km, os mísseis de médio alcance podem atingir distâncias a variar entre os 1.500 e os 2.000 km. Nestes, incluem-se sistemas como o Shahab-3, o Emad, o Ghadr-1, as variantes do Khorramshahr e o Sejjil.

https://twitter.com/Missile_Defense/status/2028606152485880258

São eles que garantem a capacidade do Irão de atingir alvos mais longínquos. Podem ter, assim, a capacidade de atingir Israel e instalações dos EUA no Qatar, Bahrain, Kuwait, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

A Al Jazeera destaca os mísseis Sejjil, de combustível sólido, como um sistema que permite um lançamento mais rápido do que os mísseis de combustível líquido. Trazem vantagens caso o Irão necessite de opções de resposta rápida, com uma boa capacidade de atingir os alvos pretendidos.

Mísseis hipersónicos vs mísseis de cruzeiro: como escapam aos sistemas de defesa aéreos

O Irão dispõe também de mísseis hipersónicos: que, tal como se depreende pelo nome, são muito mais rápidos e podem escapar aos sistemas de defesa. Estes funcionam prevendo a a trajetória do míssil, que neste caso faz um percurso até ao seu alvo com ziguezagues e guinadas para confundir os intercetores, que acabam por deixar de funcionar. Por isso mesmo, os mísseis hipersónicos são o equipamento mais útil do arsenal iraniano.

Os mísseis cruzeiro, ainda que mais lentos, também podem ter este comportamento imprevisível, uma vez que voam mais perto do solo, com motores turboélice ou a jato que lhes permitem fugir das defesas aéreas e atingir alvos com alta precisão. Dentro do arsenal iraniano incluem-se sistemas cruzeiro que são usados tanto​​contra alvos terrestres como navais.

Desde 2015, o Irão tem fornecido aos rebeldes houthis do Iémen mísseis balísticos e de cruzeiro cada vez mais avançados, bem como veículos aéreos não tripulados de longo alcance, destaca o think tank Center for Strategic and International Studies (CSIS)

Em setembro de 2019, o Irão lançou ataques coordenados com veículos aéreos não tripulados e mísseis de cruzeiro contra as instalações petrolíferas da Arábia Saudita em Abqaiq e Khurais. Já nessa altura demonstrou um alto grau de precisão, com os ataques a interromperem temporariamente a produção na refinaria de petróleo de Abqaiq, que fornece de 5 a 7% do petróleo consumido diariamente no mundo.

Os drones produzidos em massa que já terão chegado ao Chipre

Aos diferentes tipos de mísseis soma-se a produção em massa de drones. O mais conhecido dos equipamentos produzido pelo Irão são os drones da gama Shahed, que Teerão tem enviado para a Rússia há vários anos, com o objetivo de serem usados na guerra contra a Ucrânia.

Os drones poderão vir a adicionar uma camada adicional de pressão contra os países vizinhos iranianos. São fáceis de lançar em grande número e por isso mesmo usados também em ataques por ondas, como acontece com os mísseis balísticos de curto alcance. Os enxames de drones servem para desgastar as defesas aéreas e manter aeroportos, portos e instalações de energia em alerta constante por longos períodos de tempo, como acontece em várias cidades ucranianas.

Analistas citados pela Al Jazeera afirmam que a tática de desgaste terá um papel determinante se o confronto no Médio Oriente se continuar a intensificar e prolongar, com Donald Trump a referir que a ofensiva deve durar entre “quatro a cinco semanas”, mas a admitir que pode prolongar-se para lá desse prazo.

Esta segunda-feira foram “intercetados com sucesso” dois drones que se dirigiam à base militar britânica em Akrotiri, no Chipre, lançados pelo Hezbollah. Depois disso, a base  foi evacuada, avançou a agência France-Presse (AFP).

Antes disso, o Presidente cipriota já se tinha dirigido ao país. Reconhecia a inevitabilidade de estarem situados tão perto de uma zona com grande instabilidade, que se acentuou bastante nos últimos dias. “Estamos localizados numa região com particular instabilidade geopolítica, que enfrenta uma crise sem precedentes”, admitiu Nikos Christodoulides.

[Depois de anos em fuga, o guru é finalmente detido. Mas o movimento de yoga e as escolas em todo o mundo continuam a funcionar. Ouça o último episódio de “Os segredos da seita do yoga”, o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro e aqui o quarto e aqui o quinto episódio]