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Indústrias culturais: solução política ou problema disfarçado?

A reflexão crítica sobre as indústrias culturais não é um exercício teórico abstracto, mas uma necessidade concreta da política cultural contemporânea em Portugal.

Carlos Vargas
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Em Portugal, a expressão indústrias culturais entrou de forma progressiva, mas decisiva, no vocabulário das políticas públicas a partir do final da década de 1990, consolidando-se nos anos 2000. Desde então, passou a integrar documentos estratégicos nacionais, programas de financiamento, candidaturas a fundos europeus, planos de desenvolvimento regional e discursos políticos sobre modernização, competitividade e inovação.

A cultura começou a ser apresentada não apenas como um direito fundamental ou um bem simbólico, mas como um sector económico com potencial de crescimento, capaz de gerar emprego qualificado, dinamizar centros urbanos, atrair turismo e contribuir para a afirmação internacional do país. Em particular, num contexto marcado por fragilidades estruturais da economia portuguesa, a cultura passou a ser vista como um recurso alternativo, flexível e alinhado com a economia do conhecimento.

No entanto, esta reconfiguração do lugar da cultura levanta questões fundamentais. Até que ponto a adopção do modelo das indústrias culturais respondeu efectivamente aos problemas históricos do sector cultural em Portugal? Que práticas foram valorizadas e quais foram marginalizadas? Que paradoxos emergem quando um conceito com origem crítica é aplicado de forma normativa e instrumental?

Da crítica teórica à política pública: um conceito deslocado

Tal como noutros contextos europeus, o conceito de indústrias culturais chega a Portugal já profundamente transformado. A sua origem crítica, associada à denúncia da mercantilização da cultura, raramente é explicitada no discurso político ou institucional. De facto o termo é adoptado, sobretudo, como categoria técnica e administrativa, associada à modernização do sector cultural.

Em Portugal, este processo ocorreu num contexto específico: um país com fraca tradição de investimento público continuado na cultura, marcado por descontinuidades políticas, forte centralização administrativa e uma histórica fragilidade das estruturas culturais fora dos grandes centros urbanos. A introdução do conceito de indústrias culturais surge, assim, como promessa de solução para vários problemas ao mesmo tempo: a) profissionalizar o sector cultural; b) reduzir a dependência do financiamento público directo; c) integrar a cultura em estratégias de desenvolvimento económico; e d) legitimar a cultura junto de áreas governativas tradicionalmente alheias a este sector.

No entanto, esta apropriação ocorreu frequentemente sem reflexão crítica sobre o significado do conceito. Aquilo que, na sua origem, era uma advertência contra a submissão da cultura à lógica industrial, passou a ser apresentado como modelo desejável. Tal deslocamento conceptual tem efeitos importantes. Ao assumir que a cultura deve funcionar como indústria, tende-se a naturalizar critérios como eficiência, competitividade e crescimento, desvalorizando dimensões fundamentais da criação cultural, como o risco, a experimentação e a dissidência.

Cultura como motor económico: promessas e limites no contexto português

A viragem economicista das políticas culturais em Portugal intensificou-se sobretudo a partir da integração mais sistemática da cultura em programas de financiamento europeu e em estratégias de desenvolvimento territorial. A influência de organismos internacionais como a UNESCO e da agenda europeia para as indústrias culturais e criativas contribui para este enquadramento.

A cultura passou a ser mobilizada como argumento em várias frentes: a) reabilitação urbana e regeneração de centros históricos; b) promoção do turismo cultural; c) criação de emprego jovem e qualificado; e d) internacionalização da “marca Portugal”. Exemplos visíveis incluem a aposta em grandes eventos culturais, festivais internacionais, equipamentos emblemáticos e projetos de requalificação urbana associados à cultura. Em cidades como Lisboa e Porto, a cultura foi frequentemente integrada em estratégias de revitalização urbana, articuladas com o turismo e o imobiliário.

Estes processos produziram resultados ambivalentes. Por um lado, contribuíram para aumentar a visibilidade da cultura, melhorar infraestruturas e criar novas oportunidades profissionais. Por outro, favoreceram modelos culturais fortemente dependentes do consumo turístico e do mercado, tornando muitas práticas culturais vulneráveis a flutuações económicas e a dinâmicas de gentrificação.

Além disso, a lógica economicista revelou limites claros em territórios fora dos grandes centros urbanos. Em muitas regiões do país, o discurso das indústrias culturais não se traduziu em investimento estruturado, mas antes em projetos pontuais, frequentemente dependentes de financiamento temporário e sem continuidade. A promessa de que a cultura poderia resolver problemas estruturais de desenvolvimento revelou-se, assim, parcial e desigual.

Centralização, desigualdade territorial e homogeneização cultural

Um dos problemas mais persistentes das políticas culturais em Portugal é a forte centralização geográfica. Lisboa e, em menor grau, Porto concentram a maioria dos equipamentos culturais, dos apoios públicos, das oportunidades profissionais e da visibilidade mediática. A adopção do modelo das indústrias culturais, longe de contrariar esta tendência, tende frequentemente a reforçá-la. Projectos com maior potencial de mercado, escala e visibilidade internacional localizam-se, quase inevitavelmente, nos grandes centros urbanos, onde existem públicos mais amplos, infraestruturas adequadas e redes institucionais consolidadas.

Por sua vez, regiões do interior e territórios de baixa densidade populacional enfrentam dificuldades acrescidas para integrar-se neste modelo. A exigência de sustentabilidade económica, frequentemente associada aos programas de apoio às indústrias culturais, penaliza práticas culturais de proximidade, cuja relevância é sobretudo social, educativa ou identitária.

O resultado é um paradoxo evidente: políticas que proclamam a descentralização e a diversidade cultural acabam por reforçar desigualdades territoriais e simbólicas. A cultura local é valorizada enquanto “recurso” ou “tradição”, mas raramente recebe investimento estrutural que permita a sua continuidade e renovação.

Em simultâneo, a lógica industrial tende a favorecer formatos culturais reconhecíveis e facilmente comunicáveis, contribuindo para uma certa homogeneização estética. Mesmo quando se fala em diversidade, esta é frequentemente reduzida a uma diversidade de produtos, e não de processos ou de visões do mundo.

Indústrias culturais, criativas e economia criativa: um campo conceptual difuso

Em Portugal, a confusão entre indústrias culturais, indústrias criativas e economia criativa é particularmente evidente. Estes termos são frequentemente utilizados de forma intercambiável em documentos oficiais, candidaturas a financiamento e discursos políticos, sem clarificação conceptual.

Esta imprecisão tem consequências práticas. Ao alargar excessivamente o campo das políticas culturais, incluindo actividades como a publicidade, o marketing, o design comercial ou o desenvolvimento tecnológico, dilui-se a especificidade da criação cultural enquanto bem público. Sectores com maior capacidade económica e organizacional tendem a captar uma parte significativa dos recursos disponíveis, enquanto áreas tradicionalmente fragilizadas, tais como o teatro independente, a dança contemporânea ou as artes visuais experimentais, permanecem dependentes de apoios intermitentes.

Por seu turno, a integração da cultura em políticas de empreendedorismo e de inovação, embora possa ser positiva em determinados contextos, introduz uma lógica empresarial que nem sempre é compatível com os tempos, os métodos e os objectivos da criação artística. Em muitos casos, os criadores são incentivados a assumir simultaneamente os papéis de artistas, de gestores, de comunicadores e de empreendedores, num contexto de precariedade estrutural. A retórica da criatividade e da autonomia esconde, frequentemente, a ausência de condições materiais estáveis para o trabalho cultural.

Valor cultural, valor social e valor económico: o dilema das políticas públicas

No contexto português, a tensão entre diferentes regimes de valor assume particular intensidade. O investimento público em cultura é historicamente reduzido e politicamente vulnerável, o que aumenta a pressão para justificar a cultura em termos económicos. No entanto, esta justificação tem custos. Quando o valor económico se torna o critério dominante, práticas culturais fundamentais para o reforço da democracia, a saber, a experimentação, a crítica, a educação artística ou a participação comunitária, tornam-se estruturalmente frágeis.

Este dilema é visível, por exemplo, na precarização generalizada do trabalho cultural em Portugal. Apesar do discurso sobre o par dinamismo/ inovação, muitos profissionais da cultura enfrentam carreiras descontínuas, baixos rendimentos e fraca proteção social, revelando as limitações do modelo industrial aplicado à cultura.

As políticas culturais enfrentam, assim, uma escolha difícil: proteger aquilo que o mercado não protege ou submeter-se à lógica do mercado em nome da sustentabilidade. Acontece que a adopção acrítica do modelo das indústrias culturais tende a favorecer a segunda opção, fragilizando a missão pública da cultura.

Uma agenda para o futuro da cultura em Portugal

A reflexão crítica sobre as indústrias culturais não é um exercício teórico abstracto, mas uma necessidade concreta da política cultural contemporânea em Portugal. Os três paradoxos analisados ao longo deste texto – entre valorização económica e missão pública da cultura, entre diversidade proclamada e desigualdade efectiva, entre profissionalização e precarização – têm impactos directos nas práticas culturais, nas condições de trabalho e no acesso à criação.

Neste contexto, torna-se fundamental que o Fórum Cultura, actualmente a ser organizado pelo Ministério da Cultura em várias cidades do país, incorpore esta reflexão de forma séria, consistente e informada. Um espaço público de debate sobre cultura não pode partir do pressuposto de que o modelo das indústrias culturais é consensual ou isento de problemas. Pelo contrário, deve reconhecer a complexidade do conceito, os seus limites e os efeitos diferenciados que produz nos diversos territórios e tipologias da actividade cultural.

Integrar esta discussão implica criar espaço para questionar critérios de avaliação, prioridades de financiamento e modelos de desenvolvimento cultural, sem reduzir a cultura à sua dimensão económica. Salvo melhor opinião, a verdadeira relevância do Fórum dependerá da sua capacidade para promover um debate plural, capaz de articular rigor conceptual com escuta activa dos agentes culturais.

Num contexto de fragilidade estrutural do sector cultural em Portugal, pensar criticamente as indústrias culturais é uma condição indispensável para políticas públicas mais equilibradas, conscientes e sustentáveis. De resto, a pergunta permanece e justifica-se: as indústrias culturais funcionam enquanto solução política ou subsistem como problema disfarçado? Talvez a resposta mais produtiva seja reconhecer que as indústrias culturais só podem ser parte da solução se forem acompanhadas por uma política cultural que esteja consciente das suas contradições e, claro está, que esteja disposta a enfrentá-las.