Não vale a pena dar muitas voltas. As mais recentes (e violentíssimas) declarações de Pedro Passos Coelho são um óbvio embaraço para Luís Montenegro. Por uma entre muitas razões: é impossível defender, com objetividade, que a AD esteja a conseguir estar à altura das (muitas) expectativas que criou na primeira e segunda campanhas para as eleições legislativas. Montenegro veio para ser diferente de Costa e romper com o estado de coisas; mas, dois anos depois, o ar que se vai respirando no país não parece, para já, ser, no essencial, assim tão diferente.
Depois da pacificação das corporações, exercício necessariamente útil mas sempre precário, da descida de impostos (sobretudo para os mais jovens), da tentativa de reconciliação com os pensionistas e das leis relacionadas com a imigração, o Governo parece estar com dificuldades em recuperar a iniciativa política. Pior: quando tenta explicar ao país aquilo que está ou quer fazer, acaba sempre atropelado por algum acontecimento que não controla.
Na Saúde, não há luz ao fundo do túnel; na Habitação, os preços continuam proibitivos e as casas uma miragem para quem não seja mais do que remediado; na Justiça, a reforma pela qual todos clamam está ainda por conhecer; na Economia, um Governo de direita continua com um crescimento anémico e arrisca-se a regressar aos défices (graças a uma catástrofe para a qual ninguém podia estar preparado); quanto às futuras gerações, por muitos arranjos florais que se façam, ainda ninguém sabe como se vão pagar as pensões de amanhã e existe um número que continua a ser absolutamente dramático: quase 20% de desemprego jovem.
As eleições presidenciais desastrosas para a AD foram apenas o lado mais visível dessa dificuldade em recuperar a narrativa. Não foi apenas Luís Marques Mendes que perdeu, como muito boa gente no PSD se esforçou por tentar vender; perante um candidato a porta-voz oficioso do Governo, foi também o próprio eleitorado da AD a dizer que não estava a gostar do filme a que está a assistir.
Por mais tifosi que sejam, os dirigentes e governantes do PSD não estão, naturalmente, desligados da realidade. E é precisamente a consciência de que as coisas estão a escapar ao controlo que ajuda a explicar o porquê de as declarações de Pedro Passos Coelho terem doído tanto. É que, por muitas e compreensíveis condicionantes que existam (eleições consecutivas, instabilidade permanente, uma nova realidade parlamentar), o antigo primeiro-ministro tem alguns pontos válidos. Mais: alguns eleitores e elementos da AD parecem estar a concordar cada vez mais com Pedro Passos Coelho.
Acontece que o PSD não foi o único destinatário de Pedro Passos Coelho. Aliás, a 24 de fevereiro, a grande observação crítica do antigo primeiro-ministro foi uma: Luís Montenegro estava a ficar demasiado parecido com António Costa, um primeiro-ministro patologicamente “alérgico” a reformas durante os oito anos em que esteve no poder — oito anos em que José Luís Carneiro também participou, primeiro como secretário de Estado, depois como ministro.
Habilidosamente, o líder socialista ignorou essa parte do discurso de Passos e preferiu divertir-se com o embaraço de Montenegro, aproveitando para criticar a falta de reformas do atual Governo. Para que não restassem dúvidas, o antigo primeiro-ministro ainda disse pelo menos mais três vezes (aqui, aqui e aqui) que era preciso romper de vez com o imobilismo a que o PS condenou o país. Mas Carneiro nunca quis verdadeiramente saber desse pormenor.
Acontece que o PS está nisto há dois anos. Com maior ou menor taticismo, Pedro Nuno Santos ainda sugeriu que o partido deveria fazer uma reflexão crítica sobre o que tinha falhado nesses oito anos. Antes e depois da primeira derrota nas legislativas. Quando, em 2025, o PS teve um resultado desastroso, Pedro Nuno Santos foi-se embora, Carneiro fez-se líder muito rapidamente e, desde então, o partido que nas últimas três décadas mais tempo passou no poder parece pouco ou nada interessado em refletir sobre os seus erros e insuficiências.
No fundo, a nomenclatura do PS tem uma fisgada: quando o PSD cair, o poder mudar-se-á para o Rato com toda a naturalidade. Foi sempre assim que aconteceu e será sempre assim. Numa dança perpétua e particular a dois que os socialistas têm um direito quase divino a conduzir. Mas já que José Luís Carneiro está tão atento e divertido com as críticas de Pedro Passos Coelho a Luís Montenegro, convinha que lesse tudo o que o antigo primeiro-ministro disse.
Não é preciso muito tempo e a citação até é bastante clara. Avisa Passos: “Acho muito pouco provável que, no dia em que o PSD perca as eleições, seja o Partido Socialista a ganhá-las. Muito provavelmente, é o Chega. É o partido que está mais próximo de poder aspirar a amealhar algum descontentamento que possa ser gerado pelo exercício de poder governativo”.
Um partido que nas últimas legislativas se viu humilhantemente atirado para o terceiro lugar em número de deputados, perdendo pela primeira vez na história o estatuto de força liderante na oposição, deveria estar mais preocupado com o seu próprio futuro do que com a guerra aberta entre Pedro Passos Coelho e Luís Montenegro. É que o antigo primeiro-ministro também pode vir a ter razão sobre o PS.