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O fim do fim da História

A teoria de Fukuyama foi, durante algum tempo, confortável, mas o Fim do “fim da história” dita que é preciso aceitar o desconforto de saber que nada pode ser tomado por garantido

Luís Nunes dos Santos
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Quando Fukuyama escreveu o “fim da história”, a guerra fria terminara, o comunismo soviético colapsara, o fascismo era uma memória derrotada, e a democracia parecia ter esvaziado quaisquer alternativas à convergência da humanidade para a síntese liberal, com mais comércio, mais integração económica, mais classes médias, mais direitos e, portanto, mais democracia.

O que se seguiu, porém, foi um desmentido sistemático. O optimismo teleológico revelou-se cego. Ao contrário do entusiasmo de inspiração kantiana que marcou os anos 90, a crença de que a sinergia entre democracias e instituições internacionais produziria uma paz estável entre grandes potências foi-se esfumando. A experiência demonstrou que a “paz perpétua” é uma aspiração, não uma descrição da realidade.

O “fim do fim da história” é a fórmula mais acertada para descrever o nosso tempo. Hoje vemos que não apenas falhou a ideia de que a história se deixou “finalizar” com a democracia liberal, como ruiu também a ilusão de que a paz, a prosperidade e a liberdade no Ocidente eram património adquirido. Fukuyama foi desmentido pelos factos num Ocidente que, atravessado pelas fragilidades das suas próprias democracias, expõe hoje, sem cerimónias, a falência dessa ilusão.

O regresso da lógica de “blocos de influência” e a combinação explosiva de revisionismos autoritários com o cansaço democrático nas sociedades ocidentais desenham hoje um tabuleiro multipolar, povoado por regimes que rejeitam explicitamente o modelo ocidental e exploram as vulnerabilidades abertas pela própria globalização para o contestar.

A fissura central entre o “fim da história” e o mundo actual é o esquecimento que floresce pelas sociedades. O conforto material e a amnésia histórica combinaram-se para produzir uma cultura política que trata a liberdade como se fosse um dado adquirido, e não o resultado de escolhas, sacrifícios e sangue derramado. Esse esquecimento é visível na ligeireza com que se relativizam regimes e ideias autoritárias, na facilidade com que se romantizam autocracias e no cinismo com que se desdenha da própria ideia de Ocidente.

É precisamente neste ponto que se torna necessário recuperar um passado que não é mito, como o sacrifício dos soldados aliados que vieram libertar a Europa em 1945. Lembrar os jovens arrancados às suas vidas, famílias e projectos, para atravessar o Atlântico rumo a campos de batalha onde a probabilidade de morte era real. Apesar disso, aceitaram arriscar a vida para impedir que a Europa se afundasse na podridão do Nazismo.

O mundo que discute política europeia, direitos fundamentais e polémicas culturais irrelevantes só é possível porque, antes dele, houve quem desembarcasse na Normandia e tombasse anónimo sob a terra com a clara noção de que ali se jogava algo maior do que a sua própria biografia. Esse sacrifício não pode ser esquecido da nossa história atlântica.

Revisitar a história desses soldados é um acto político. Hoje, o Ocidente aparece cansado de si próprio, dividido e quase desistente, é preciso reavivar as questões: o que estamos dispostos a preservar e a defender? Que riscos aceitamos correr?

Ou estamos já demasiado anestesiados pela suavidade da desistência, pelos neutralismos ingénuos, pelos pacifismos unilaterais e isolacionismos egoístas?

É importante abandonar o grande mito da paz automática, reforçar a capacidade de dissuasão e reconstruir pedagogicamente a memória da primeira metade do século XX para que não se repitam os erros.

A teoria de Fukuyama foi, durante algum tempo, confortável, mas o Fim do “fim da história” dita que é preciso aceitar o desconforto de saber que nada pode ser tomado por garantido, nem mesmo a democracia liberal que se julgava definitivamente incontestada.