Por razões profissionais (trabalho num programa de TV e gravo um podcast semanal no Grupo Impresa) e lúdicas (costumo correr junto ao rio, próximo do jornal Público), passo algum tempo perto de redações. E sempre tive uma sensação bizarra quando me aproximava desses locais. É que ao pé de meios de comunicação social não há pombos. Até recentemente, não conseguia explicar o fenómeno. Entretanto, os EUA começaram a preparar o ataque ao Irão e fez-se luz: não há pombos porque esses sítios estão cheios de falcões, daqueles bem altaneiros. Desde que o movimento na Base das Lajes começou a aumentar, são vários os artigos em que comentadores defendem uma resposta musculada de Portugal aos abusos contratuais dos EUA. Pelo acordo assinado entre os dois países, os americanos devem comunicar previamente sempre que há trânsito de aviões militares que não estejam em missões da NATO. Parece que desta vez não o fizeram e isso, segundo analistas, devia suscitar uma firme tomada de posição do Governo. Qual? Pois, isso é que é mais difícil saber.
Vamos supor que Portugal se arreliava à séria com o abuso americano e decidia reagir. Em que consistiria o protesto? Uma nota diplomática? Uma multa? A proibição do uso dos Açores como posto de gasolina insular? A denúncia do contrato de arrendamento e expulsão dos inquilinos? Se quisesse mesmo tomar essa atitude arrojada, Portugal disporia de uma vasta paleta de hipóteses, cada uma com os seus méritos. A todas os EUA responderiam da mesma forma: borrifando de alto. Muito alto, mesmo. Da altitude a que os seus aviões reabastecem.
Quando Donald Trump mostrou interesse em anexar a Gronelândia, fizeram-se ouvir os pios indignados dos nossos falcões: “E se ele quiser ocupar os Açores? Deixamos?” Não sou especialista em geoestratégia, não conheço os tratados nem o direito internacional, mas andei na escola com tipos muito maiores do que eu. Com base nessa experiência diria que sim, se os Estados Unidos quiserem os Açores, nós deixamos. Porque a alternativa é não deixarmos, levarmos umas bofetadas e ficarmos sem os Açores à mesma.
Resta-nos escolher de que forma é que deixamos. O Governo optou por fingir que o que os EUA fazem está previsto no acordo. É uma possibilidade. Também podíamos ter agido como o Reino Unido e fazer de conta que não íamos deixar, inventando depois um pretexto para afinal deixar. Qual a menos achincalhante? É indiferente. O resultado ia ser o mesmo. A dependência do Ocidente em relação aos EUA é tal que, nestas coisas da guerra, o livre arbítrio da Europa é uma ficção.
É por isso que chamam aos Estados Unidos o Grande Sutiã. Porque suporta os peitos onde o Ocidente chucha há décadas, desde que abdicámos da nossa defesa e subcontratámos um fornecedor para tratar desses temas (como aliás fizemos com a indústria em geral, com a ciência e com a energia, todas em outsourcing). São tantos os países agarrados às úberes americanas, que é mesmo necessário uma enorme peça de roupa interior feminina par as suster.
Os filmes sobre a Máfia explicam como é que isto funciona. Portugal é uma mercearia de bairro e tem de pagar protecção a um Padrinho. Cede os Açores e, em princípio, não lhe acontece nada. Se um dia quiser deixar de subsidiar a família mafiosa, tudo bem. Só tem de arranjar outra que a substitua. E é essa justamente a questão. Como sabe quem já mudou de companhia de telecomunicações, com maior ou menos oscilação de preços, tirando o design do menu da televisão, a Meo, a Nos ou a Vodafone são basicamente iguais. É o mesmo com superpotências. Por isso, mais vale ficar sob o jugo daquela que conhecemos. Quem é que está para se dar ao trabalho de aprender a mexer num novo telecomando?
Já estou velho para ser culturalmente colonizado pela China. Não me apetece ter de decorar novas referências. Gosto que as minhas analogias sobre política internacional venham de filmes americanos como O Padrinho, não quero ter de começar a ver cinema chinês para substituí-las por outras sobre tríades.