Um apreciador de literatura compreenderá que uma das suas riquezas é o diálogo, o confronto, colocar questões. Defender Literatura-Mundo, como alguns teóricos da literatura, é saber que a literatura fará perguntas e relações em alguns pontos fracturantes, de modo geral, para as sociedades. Deste modo, não espero que De Profundis, Valsa Lenta (1997) de José Cardoso Pires dê uma resposta fechada sobre a eutanásia, mas, sim, que contribua para o diálogo.
De Profundis, Valsa Lenta narra, em primeira pessoa, a experiência a posteriori de José Cardoso Pires após o AVC que o mergulha numa “morte branca”, acompanhando a perda, e a lenta reconstrução da consciência, da memória e da identidade. Não é frutuoso para esta reflexão que nos deixemos influenciar pelo contexto hospitalar, uma vez que, para questionar a Eutanásia e outras variantes científicas, proponho que se reflita do ponto de vista ontológico. A leitura pode despoletar uma reflexão ontológica em torno da eutanásia, se for entendida como reflexão sobre o que significa Ser — ser humano, ser sujeito, ser vulnerável — mesmo quando a consciência, a autonomia e a linguagem parecem suspensas.
Do ponto de vista Aristotélico, o ser humano, como um sujeito dotado de dignidade intrínseca, não depende da sua capacidade de agir, falar, ler ou decidir, para ter a completa dignidade que lhe é própria. Ao longo da narrativa, quem acompanhava Cardoso Pires não ousou pensar que o autor deixaria de ser Escritor, apesar da afasia provocada pelo AVC. Enfoco na questão do que é ser “Escritor”. Não se deve interpretar como algo Divino, como faziam os Simbolistas; mas como mote de reflecção: o que faz um Escritor? O que é preciso para ser Escritor? Até quando é que se pode ser Escritor? Deixa-se de ser Escritor quando a matéria se altera e se fica sem meio corporal que permita a escrita, como a cegueira ou a afasia? Do mesmo modo, o que faz um Ser Humano? Deixamos alguma vez de Ser humanos? A resposta aristotélica afirma a continuidade ontológica do sujeito; por isso, à luz da narrativa, mesmo quando a identidade se desfaz, persiste o eu apesar da perda de memória e linguagem. Esta resposta clássica permite compreender e reconhecer a vulnerabilidade, que também se encontra o sujeito do romance.
A vulnerabilidade é constitutiva do ser humano, não pode ser usada como critério para justificar a antecipação da morte. A experiência de vulnerabilidade como «estado único da “humanidade ferida”» (como refere João Lobo Antunes, na «Carta-a-um-amigo-novo» que prefacia a obra De profundis, Valsa Lenta, p. 8) constitui grande parte desta obra. O artigo A vulnerabilidade como lugar ético (Toldy & Estrada) recorda que o corpo fragilizado não anula a dignidade e a humanidade. Do mesmo modo e, seguindo a ontologia clássica à nossa metáfora, o sujeito da obra não deixa de Ser Escritor e não deixa de Ser Humano.
Em De Profundis, o «eu» que narra após ser afetado por um AVC que lhe provoca uma queda profunda no abismo da “não identidade”, é o mesmo «eu» que esteve ausente do atual narrador. A vida humana não perde valor ontológico quando a consciência se altera. Existe uma continuidade ontológica que subsiste mesmo quando a consciência se fragmenta. Por isso, não será sensato questionar a humanidade de Cardoso Pires, já que não deixou de Ser mesmo que não soubesse em plenitude dos seus sentidos. Igualmente não deixa de ser Escritor, reforçando a nossa metáfora.
Por fim, o último exemplo paradigmático que gostaria de destacar felicita a recuperação necessária, e que possibilita o testemunho glosado nesta reflexão. A perspetiva ontológica considera a Vida como um Bem (bonum per se), e a obra exemplifica a consciência de que a vida não é propriedade absoluta do indivíduo, por isso é independente da consciência e da vontade do mesmo.
A brevidade de uma obra como De Profundis, Valsa Lenta, realça o papel que a literatura pode desempenhar em áreas que não seriam as expectáveis da sua atuação, neste caso, a bioética, a metafísica e a ontologia. A literatura não oferece respostas fechadas, mas abre questões: Se o Escritor não deixa de o ser quando a linguagem se suspende, porque faz sentido questionar se deixamos ou não de Ser Humanos na vulnerabilidade?