Tim Maia era o cara. Naquele instante, naquela cidade, o músico era intocável. Em Copacabana, encurralados num estúdio de gravação, uma orquestra de trinta músicos avança veloz na mesma direção, uma locomotiva que encarrilha um groove avassalador. A editora RCA Victor ofereceu o estúdio e adiantou a quantia impensável de 300 mil cruzeiros, com a promessa de gravarem o magnum opus da soul brasileira. Seriam mais de duas horas de canções ensaiadas até à exaustão, com um embalo capaz de ressuscitar um morto. Subitamente, Tim Maia desapareceu durante três dias. Quando voltou, já não era o cara — não o mesmo.
A contratação de Tim Maia, em meados de 1974, foi uma jogada de bastidores que surpreendeu a Polydor, a editora do músico desde o primeiro álbum, precisamente quando alcançava as centenas de milhares de discos vendidos. O vozeirão maleável do carioca, quer vigoroso, quer gemido, e uma banda afinada ao diapasão rigoroso do R&B afro e latino americano, ascenderam aos píncaros com os singles Réu Confesso e Gostava Tanto de Você. A entrada da RCA na novela, com mais grana, mais controlo criativo, coincidiu, em cheio, com o momento em que a banda forja um novo balanço swingado que envergonha qualquer outra tentativa de soul brasileira.
Na sombra do Corcovado, diante da Lagoa Rodrigo de Freitas, ecoam os ensaios da banda de Tim Maia, conduzida pelo fiel escudeiro Paulinho Guitarra, um exímio melodista, e ainda, que para o opulento patrão não era de somenos, um excelente cozinheiro. A dieta é rigorosa: sexo, drogas e gastronomia farta brutos. O barracão de madeira subia uma íngreme ladeira, Rua Vitória Régia, toponímia que batizou a nova formação de músicos, a banda Vitória Régia, com alguns dos melhores instrumentistas do Rio de Janeiro — Oberdan Magalhães da Banda Black Rio, o organista Robson Jorge ou o baixo pesadíssimo de Beto Cajueiro. A sair do forno, um andamento em contenção, de passada lenta: a guitarra wah-wah chorosa de um lado, uma espectral flauta do outro, e o naipe de metais sempre alerta, de resposta na ponta da língua, que beleza.
Quando estrearam em palco a primeira canção desta fornada, Que Beleza, no Teatro Bandeirantes, em São Paulo, Tim Maia justificou a obtusa poesia mística que, nos últimos dias, acrescentou à melodia: “A próxima música que nós vamos transar aqui é uma música sobre um livro que eu estou lendo que eu acho que todos vocês deveriam ler. Chama-se Universo em Desencanto. É sobre imunização racional. Vamos levar ela.”
“Que beleza é saber seu nome
Sua origem, seu passado e seu futuro
Que beleza é conhecer o desencanto
E ver tudo bem mais claro no escuro”
As dezenas de canções e sessões de improviso que o músico gravou entre o final de 1974 e início de 1975, imerso no fanatismo de uma seita obscura, são hoje uma entidade mitológica da música popular brasileira, uma assombração de um louco genial que nunca largou verdadeiramente Tim Maia, por muito que tentasse apagar esta história, cunhada pela imprensa como a “Fase Racional”. Mais de 50 anos depois, citando o profeta, a felicidade vai brilhar no mundo: os três volumes Tim Maia Racional são reeditados em vinil e na íntegra pela primeira vez. Agradeçam à editora Três Selos Rocinante, que tem revitalizado o mercado brasileiro das reedições. O primeiro volume já está no mercado.
Grão-Mestre Varonil, o maior homem do mundo
Não é exagero: Tim Maia era mesmo o cara. Após os ensaios, a banda Vitória Régia rumava aos subúrbios cariocas, Zona Norte e Baixada Fluminense, a cidade natal de alguma classe média e, sobretudo, de uma maioria de população trabalhadora pobre, construtores das próprias casas, canalização artesanal, eletricidade puxada à candonga, a quilómetros — para não dizer mundos — da Zona Sul da Tropicália e Bossa Nova. O músico convence a banda a apresentar-se com regularidade nos bailes de bares, clubes de futebol e associações de moradores, onde o público maioritariamente negro, por uma noite, também eram o cara: calças à boca de sino, macacão, botas plataforma, e imensas afros, uma indumentária que gritava, após anos de reclusão, liberdade e exuberância.

Estas excursões de Tim Maia abriram caminho para os músicos que protagonizaram uma cena soul carioca, como Toni Tornado, Hyldon, Carlos Dafé ou Cassiano, que a imprensa da época batizou de movimento “Black Rio”, uma lógica e estrutura comunitária suburbana de sistemas de som que foi embrionária dos atuais bailes funk. Um dos músicos que capitalizou da moda foi Tibério Gaspar, que compôs, com António Adolfo, Sá Marina, um dos singles com mais vendas da época, na voz de Wilson Simonal; reza a lenda que a composição foi diretamente inspirada pela leitura de um livro estranhíssimo: Universo em Desencanto. O amigo Tim Maia — como não podia deixar de ser, dopado com o alucinógeno mescalina — deu por ele em casa de Tibério Gaspar, altamente intrigado, a folhear este documento misterioso, assinado por um Manoel Jacintho Coelho. O anzol fisga peixe graúdo.
Na presença de Manoel Jacintho Coelho — “o maior homem do mundo”, “homem sábio e profundo” — uma figura imponente de dois metros, vestido de branco da cabeça aos pés, Tim Maia devorou os ensinamentos do “Grão-Mestre Varonil”, o autor dos 21 volumes de Universo em Desencanto. Ou melhor, sejamos precisos: Manoel Jacintho Coelho nunca escreveu uma palavra, o seu corpo é que canalizava entidades extraterrestres. Passo a explicar, na melhor das minhas capacidades: estas entidades revelaram a esta individualidade que a Cultura Racional, uma sociedade alienígena da maior pureza, é a verdadeira origem do ser humano, e, felizmente, uma leitura repetida de todos os volumes de Universo em Desencanto permite-nos, glória aos ovnis, um regresso à integridade extraterrestre.
Na casa do profeta, em Belford Roxo, outro subúrbio carioca, Tim Maia é urgentemente “desmagnetizado”, um processo inicial para, pelo menos, garantir que o alegado “magnetismo” maléfico abandona o corpo. O tratamento não é conversa, o músico reconhecido pelo consumo desgovernado de drogas e comes e bebes, tornou-se absolutamente abstémio, numa dieta rigorosa, sem carne vermelha. Nos dias seguintes, a nova estrela da RCA não apareceu em estúdio, não pousou os livros, numa derradeira tentativa de salvar-se do seu desencanto.
O início do testemunho é assinalado pelo dedilhar de viola:
“Já virei calçada maltratada
E na virada quase nada
Me restou a curtição
Já rodei o mundo quase mudo
No entanto num segundo
Este livro veio à mão
Já senti…”
Entra a bateria:
“…saudade
Já fiz muita coisa errada
Já pedi ajuda
Já dormi na rua”
O naipe de metais brada aos céus, responde ao baixo subterrâneo, irrompe um clavinet bamboleante:
“Mas lendo atingi o bom senso”
O alegado bom senso foi atingido a custo. Nascido na Tijuca, subúrbio burguês do Rio de Janeiro, em 1942, o filho de Maria Imaculada e Seu Altivo, donos de uma pensão, revelou uma predição para a arruaça: o guri percorria as ruas a cantarolar, insultar, roubar e a comer, numa desobediência crónica que somente encontrava algum foco na música. No snack bar Divino, o centro da vida adolescente da Tijuca, um grupo alargado de amigos dedicados ao rock’n’roll trocava discos, cifras e posters, o que certamente aconteceu um pouco por todo o lado no final da década de 50, com a particularidade destes amigos chamarem-se Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Jorge Ben.
Ao contrário dos ilustres amigos que, poucos anos depois, tornar-se-iam celebridades nacionais com programas de televisão e discos líderes de audiência, Tim Maia seguiu pelo seu próprio caminho, como era seu apanágio. Em 1959, emigrou para Nova Iorque com um vago plano de estudar. Nos cinco anos seguintes, mergulhou de cabeça na explosão da música soul e pop afro-americana, espalhou-se ao comprido numa série de empregos precários, e, como confessa em Bom Senso, fez muita coisa errada: drogas, curtição, furtos e meia dúzia de prisões, culminando, em 1964, na deportação para o Rio de Janeiro.

O resto da década de sessenta foi dedicada a conseguir, com o devido atraso, alcançar o mesmo sucesso que os antigos camaradas do snack bar. Os álbuns de Tim Maia na Polydor, entre 1970 e 1973 — sempre homónimos e com um retrato de rosto, progressivamente mais rechonchudo — estabeleceram as bases para uma indústria de soul music brasileira, que tinha como rei absoluto Tim Maia, intérprete de Primavera, compositor de Não Quero Dinheiro e publicitário de Chocolate, este último, uma encomenda da Associação Nacional dos Produtores de Cacau.
Não é seita, não é doutrina, não é filosofia, não é espiritismo
A mudança foi gradual. Nos meses seguintes à leitura de Universo em Desencanto, emagreceu, cortou o cabelo e começou a vestir-se de branco, como os restantes séquitos do Grão-Mestre, com a iconografia naive da Cultura Racional estampada. “A turma toda do Rádio e da Televisão está impressionada com a transformação do Tim Maia”, escreve a Tribuna de Imprensa. “O rapaz cortou o cabelão, saiu daquela de isolacionismo e está fazendo a pregação, forte e convicta, da filosofia do Racional Superior. E garante que ela é a solução para todos os problemas.”
“O caminho do bem
Pode aguardar
Que o mundo inteiro
Logo saberá
No Brasil primeiro”
O profeta Manoel Jacintho Coelho garante, num depoimento ao Cruzeiro, que vendeu 300 mil livros do Universo em Desencanto no Brasil. O país tropical que fora abençoado por Deus, nas palavras de Jorge Ben, agora era cobiçado pelas entidades extraterrestres. “Há séculos, o homem vive envolto num mistério, perguntando a si próprio quem somos, de onde viemos, para onde vamos, por que existimos e o porquê do desequilíbrio que aflige a humanidade”, reflete, com uma resposta evidente: “O aparecimento do livro Universo em Desencanto, de linguagem simples e composto de 21 volumes, nada mais é do que uma resposta para os mistérios da vida, desvendando-os de forma lógica, simples e clara”. Aos céticos das propriedades miraculosas, a organização não hesita em apontar um caso de sucesso: “Tim Maia e todos os integrantes de seu conjunto não fazem segredo de terem trocado o vício e noites mal dormidas pela paz e divulgação da obra na televisão, no rádio e em praça pública”.
Se esta conversa soa a seita ou doutrina, calma lá, o cara esclarece, sobre um inebriante balanço caribenho:
“Cultura Racional não é religião
Não é seita, não é doutrina
Não é filosofia, não é espiritismo
É um conhecimento do natural do ser humano”
“É legal, a cultura viva racional”. E Tim Maia não era o único com essa opinião: os músicos João Roberto Kelly e Jackson do Padeiro, o comediante Chico Anysio, até Erasmo Carlos namoraram os livros. A meio da década de 70, aos dez anos de Ditadura Militar, generalizou-se um desencanto na classe artística. O regime opressivo censurou, ameaçou, prendeu e deportou a seu belo prazer qualquer crítico, ou simplesmente quem renegasse os costumes ditos tradicionais da família brasileira. Desarmados, os músicos optaram pela reclusão da realidade: Raul Seixas e Paulo Coelho conceberam uma “Sociedade Alternativa”; Jorge Ben pregou o misticismo católico em A Tábua de Esmeralda; Zé Ramalho e Lula Côrtes percorreram o esoterismo ancestral de Paêbirú; ou Arnaldo Baptista, ex-Mutante, assumiu-se completamente Lóki? – “Você tá pensando que eu sou loki, bicho?”.
No estúdio da RCA, o evangelho do Universo em Desencanto foi adaptado às melodias brilhantes que preparavam há meses. Os músicos, todos vestidos de branco, sem autorização para fumar sequer um cigarrinho, abriam as sessões de gravação com trocas de impressões dos livros de Manoel Jacintho Coelho, de forma a garantir que tinham lido a boa nova; o que vale é a beleza desta música, não iam desistir agora da empreitada porque tinham de vestir uma farda, até há quem, como Paulinho Guitarra, aceite com prazer as imposições do Grão-Mestre. O regime franciscano teve uma consequência inesperada: a voz de Tim Maia soltou-se para um estado de limpidez esmagadora, uma projeção mais grave, um agudo ciciante, uma poderosa ressonância que reverbera em cima de cada nota, mesmo quando canta o que só podemos descrever como propaganda literária:
“Leia o livro
Universo em desencanto
Leia o livro
Universo em desencanto
Leia e vai saber o que é encanto”

A banda responde na mesma moeda. O primeiro Tim Maia Racional termina com um inebriante groove de 12 minutos, um coro solar à Sly & the Family Stone, um riff de teclas à Stevie Wonder, e sempre a malhar no mesmo compasso, sem dar a lado nenhum, à George Clinton. O segundo Tim Maia Racional entra a matar com Quer Queira, Quer Não Queira, um ritmo ameaçador esquece o livre arbítrio, queira ou não queira, em breve, “todos vão ler” – e verdade seja dita, a meio desta canção, quem não dança endiabrado a clamar sem pudor a cultura racional é, como sentenciou Dorival Caymmi, ruim da cabeça ou doente do pé.
A RCA foi sucinta: não podemos, de forma alguma, editar estas canções. Tim Maia agradeceu e seguiu em frente; comprou as fitas, fundou uma editora independente, a Seroma Discos, e lançou o primeiro volume de Tim Maia Racional, em 1975, e um segundo volume no ano seguinte, com o apoio logístico da organização de Manoel Jacintho Coelho. Segundo a biografia oficial do músico, de Nelson Motta, que cristalizou como esta carreira é recordada, Tim Maia Racional foi um tremendo fracasso de vendas. Contudo, a história não é tão linear: nos jornais da época multiplicam-se as menções ao primeiro álbum, os jornalistas confessam fascínio pela bizarria, entrevistam o músico e outros séquitos, até o célebre programa Fantástico, da Globo, dedica um especial ao movimento. E mais, após o lançamento, Tim Maia Racional está entre os álbuns mais vendidos no estado do Rio de Janeiro.
O segundo volume de Tim Maia Racional é outra história. A maior dificuldade do músico era alcançar uma distribuição em escala equiparada às grandes editoras, num período em que praticamente não existiam editoras independentes. Depois da novidade do primeiro volume, as vendas de mão em mão, porta em porta, em feiras, nas ruas, e nas pequenas lojas de discos, não conseguem distribuir mais que 20 mil exemplares de Tim Maia Racional, Vol. 2 – estima-se que o último álbum da Polydor vendeu cerca de 300 mil cópias. Os concertos eram outra estratégia de venda, organizados pela Cultura Racional, em recintos improvisados nas ruas, que sequer cobravam bilhete de admissão.
Os lucros escassos remetiam para a seita, a quem Tim Maia já tinha doado a maioria do seu dinheiro. Desesperado, o tijucano tenta de tudo, incluindo, de acordo com Nelson Motta, enviar o disco e o livro, em português, para Nova Iorque, endereço “The Dakota”, o apartamento de John Lennon e Yoko Ono: “Dear Freak. I don’t understand Portuguese. What about LISTEN to this photo”, respondeu em postal, acompanhado por uma fotografia do próprio Beatle, em nu integral, de freak para freak.
Durante este caos, nasceu o primeiro e único filho de Tim Maia que, por indicação do Grão-Mestre, deveria chamar-se Carmelo, Telmo ou Robinson, sendo que Carmelo era um nome especialmente santo, sublinhou. Depois de registar Carmelo Maia, arrependido, entregou o filho à avó, Maria Imaculada, apresentando-o como: Telmo. E foi Carmelo, ou melhor, Telmo, que supervisionou a presente reedição dos três volumes de Tim Maia Racional.
O destino trágico desta viagem alucinada era inevitável. Os músicos abandonaram o barco, temorosos do naufrágio financeiro, as plateias reclamavam do reportório evangelizador, e, a cereja em cima do bolo, o maior clássico das seitas: Tim Maia apanhou Manoel, o maior homem do mundo, em inconfidências sexuais com as diversas esposas da congregação. O biógrafo do músico aponta o dia 25 de setembro de 1975 como o último da Fase Racional; Tim Maia acordou com uma vontade danada de comer, beber e fumar, queimou a roupa branca, destruiu os discos e os livros, renegou o Grão-Mestre e acusou-o à imprensa de usurpar a sua música e fortuna.

O regresso do rei da soul brasileira não foi demorado. Meia dúzia de meses depois do despertar, novamente repleto de magnetismos maléficos, colocou Rodésia a rodar em todas as rádios brasileiras, num período marcado por uma invulgar incursão no comentário político internacional – “Em Guiné-Bissau, não está legal/ Muito menos na Rodésia”. E de seguida, como se nada tivesse acontecido, entrou de anca e pés juntos no género musical menos Racional possível: o sensual e hedonista disco, em Acende o Farol.
Nos anos seguintes, a ordem do síndico — petit nom que recebe dos fãs – é clara: não vale a pena pedinchar por canções Racionais, que esse assunto está arrumado, nem perguntem onde estão os álbuns à venda, que a Seroma Discos garantiu que desapareceram do mercado. Os álbuns tornaram-se pedras de roseta de colecionadores de vinil, foram copiados e prensados clandestinamente edições pirata por todo mundo, surgiu um terceiro volume Tim Maia Racional, com outtakes, e estas canções, em teoria inacessíveis ao público, inspiraram as novas gerações de músicos, ao ponto do principal grupo de hip hop brasileiro chamar-se Racionais MC.
Nas décadas de 90 e 2000, a Fase Racional era o segredo mais mal guardado da MPB: Gal Costa gravou Que Beleza; o filme Cidade de Deus estampou O Caminho do Bem na tela; a Luaka Bop de David Byrne incluiu canções Racionais numa coletânea; em 2006, houve uma única reedição em CD; e, mais recentemente, em 2019, os dois primeiros volumes surgiram nos serviços streaming, ainda incompletos, por entraves de direitos autorais — O Caminho do Bem não está disponível, por exemplo. Nos próximos meses, os álbuns são finalmente reeditados. E, de agora em diante, 2026 será conhecido como o Ano Racional, quando o mestre Tim Maia, o homem sábio e profundo, regressou pleno ao nosso altar, em toda a sua dimensão gloriosa, profundamente errado e certo, genial e louco, alegre e trágico, como esse imenso Brasil.