Várias editoras acusam a APEL — Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, que organiza a Feira do Livro de Lisboa, de lhes recusar pavilhões no evento sob o argumento de falta de espaço. “A cultura não pode ser um condomínio fechado” é o nome da petição que foi colocada online este fim-de-semana e que conta já com mais de duas mil assinaturas.
Entre os excluídos está a DNL Convergência, distribuidora de livros independente que agrega várias pequenas editoras. Ao Observador, a empresa que representa mais de três dezenas de chancelas adianta que já apresentou uma contestação formal, mas que ainda não recebeu resposta por parte da APEL. “Desde 2022 que tínhamos dois pavilhões, em conjunto com uma das editoras que representamos, no ano passado foi reduzido para um e este ano ficamos sem nenhum”, diz Pedro Cipriano, da DNL, que encabeça a petição que entre os signatários tem profissionais do setor editorial como editores, designers, revisores, livreiros e autores.
Num e-mail enviado a 27 de fevereiro, a APEL justifica a exclusão desta empresa da seguinte forma: “verificou-se um excesso de pedidos para a quantidade de pavilhões disponíveis, o que induziu a necessidade de se proceder a um rateio de acordo com a observância dos critérios regulamentares”. “Após ponderada avaliação da Direção de todos os pedidos, lamentamos informar que não foi possível satisfazer o vosso pedido de inscrição na 96.ª Feira do Livro de Lisboa”, lê-se no e-mail a que o Observador teve acesso.
“Enquanto jovem editora independente temos um catálogo curto, a única forma de estarmos na FLL será através da nossa distribuidora”, diz ao Observador fonte da editora Vírgula d’Interrogação, uma das mais de três dezenas de editoras distribuída pela DNL Convergência. “Negarem esse espaço é impedirem-nos o acesso à maior montra de livros do país”.
“Alegam ‘falta de espaço’, mas o que está em causa é a sobrevivência da bibliodiversidade e o direito de chegar aos leitores”, diz por sua vez a Editorial Divergência, na mesma situação. “O que está em causa é a decisão deliberada de excluir do evento os novos autores portugueses e as editoras independentes”, denunciam numa publicação nas redes sociais.

“O nosso contributo para a dinamização da Feira é significativo”, alega Pedro Cipriano, da distribuidora. “Para ter uma ideia da escala, no ano passado realizámos cerca de 220 sessões de autógrafos e 36 eventos de palco”, entre apresentações, lançamentos, debates e mesas redondas. “Para este ano, apesar das incertezas, já temos confirmadas com as editoras e autores cerca de 75 sessões de autógrafos e 23 eventos de palco.”
Distribuidora acusa APEL de promover a centralização
A DNL Convergência é uma distribuidora com sede em Ansião, distrito de Leiria, região fortemente fustigada pelas recentes tempestades e, num comunicado à imprensa enviado já esta segunda-feira, a empresa sublinha esse facto. A exclusão ocorre “num cenário de particular gravidade para a região, tendo Ansião sido um dos concelhos afetados pelo estado de calamidade devido à tempestade Kristin”, pode ler-se. “Numa altura em que o tecido empresarial local enfrenta uma quebra acentuada de faturação e um contexto económico adverso, a APEL, entidade que deveria promover a descentralização, retira o tapete a um dos principais pólos de dinamização cultural do interior do país”, acusam. Nesse comunicado, a distribuidora fala numa “exclusão de 40 editoras independentes”.
Esta não é a primeira vez que a APEL recebe críticas sobre a atribuição de pavilhões no evento, que decorre anualmente no Parque Eduardo VII, em Lisboa. No ano passado, várias editoras independentes acusaram a APEL de recusar há anos os pedidos para terem mais pavilhões na Feira do Livro de Lisboa, enquanto grupos editoriais de grande dimensão e a restauração continuam a aumentar os seus espaços. Na altura, confrontada com queixas, a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros manifestou-se surpreendida “com algumas reações, uma vez que sempre pautou a sua atuação pela total transparência e abertura ao diálogo.”
O Observador contactou a APEL, mas não obteve resposta até à data de publicação deste artigo.
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