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A Guerra de Donald Trump

Trump parece querer trocar o modelo de gestão permanente por um outro de estabilidade e previsibilidade — mesmo que por métodos duros.

Jorge Coutinho de Miranda
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Há uma tentação quase automática — e confesso que a compreendo — de encaixar qualquer ação americana no Médio Oriente no molde do passado recente: “mais uma guerra”, “mudança de regime”, “o mesmo filme”. Mas essa leitura, hoje, é preguiçosa. E pior: impede-nos de perceber o que está realmente em jogo.

O que está a acontecer com o Irão (e a forma como Donald Trump enquadra este dossier) não se entende apenas com as categorias habituais da política externa. Entende-se melhor se subirmos um degrau e olharmos para a arquitetura: a ligação entre energia, finanças, cadeias logísticas e segurança. Trump, goste-se ou não, não pensa como um professor de relações internacionais. Pensa como um construtor: alicerces, fluxos, custos, dependências e — acima de tudo — resultados.

Por isso, quando se fala em “desmantelar o regime iraniano”, convém não cair na caricatura. Não se trata, necessariamente, do modelo clássico “instalar um governo amigo” com ocupação e administração estrangeira. Trata-se de outra lógica: retirar oxigénio a um sistema — financeiro, militar e político — até ele perder capacidade de coacção interna e de projeção externa. É menos “invasão” e mais “estrangulamento”. Menos “tomar o país” e mais “tirar-lhe o volante”.

O Irão é um nó. Não é apenas um Estado com ambições regionais; é um mecanismo de instabilidade com múltiplas ramificações: proxies armados, dissuasão assimétrica, ameaça às rotas marítimas, chantagem energética e, acima de tudo, a ameaça nuclear. E aqui há um ponto que raramente se diz com frontalidade: ninguém — nem aliados europeus, nem rivais regionais, nem mesmo potências que por vezes se apresentam como alternativas — quer normalizar a ideia de um Irão nuclear. A razão não é moral; é estrutural. Porque um Irão nuclear não estabiliza: torna permanente a chantagem.

Ora, se aceitarmos que a política externa americana está cada vez mais subordinada a uma política económica interna (re-industrialização, repatriamento de cadeias de valor, atração de investimento e energia), então o nó górdio iraniano ganha outro peso. Não é apenas o risco de conflito; é o risco de disrupção contínua. E disrupção contínua significa prémio de risco elevado, seguros mais caros, energia mais volátil, rotas marítimas inseguras, investimento reticente e capital a fugir para intermediações que prosperam em turbulência.

Não é preciso acreditar em cabalas para reconhecer uma realidade simples: em qualquer sistema, há sempre interesses instalados que prosperam com determinada arquitetura — e que perdem quando a arquitetura muda. Durante décadas, o Ocidente viveu com um modelo em que centros de intermediação financeira, mercados de seguros, plataformas de clearing, redes de compliance e de sanções, e uma diplomacia de “gestão do conflito” coexistiam com uma região permanentemente instável. Esse modelo produz vencedores. Também produz dependências.

A questão decisiva é esta: Trump parece querer trocar este modelo de gestão permanente por um outro de estabilidade e previsibilidade — mesmo que por métodos mais duros. Trocar a lógica de manter o tabuleiro em tensão controlada pela lógica de fechar nós estratégicos que bloqueiam uma reconfiguração maior.

E há um segundo ponto, ainda mais sensível: a paz, hoje, não se obtém com sermões nem por comunicados; obtém-se por construção. Construção de corredores económicos, reconstrução de infraestruturas, integração produtiva, compromissos de investimento, segurança marítima assegurada, energia previsível. Pode soar cínico, mas é pragmático: se se quer um Médio Oriente com menos guerra, é preciso reduzir as fontes de guerra. E uma delas é a existência de um regime que combina financiamento de milícias, projeção regional e ameaça nuclear como seguro de vida.

Objetivos de Trump e da sua equipa:

  • desmantelar capacidade: degradar infraestruturas militares e componentes do programa nuclear, reduzindo a ameaça direta e a capacidade de extorsão.
  • desmantelar financiamento: cortar receitas, travar redes de evasão, bloquear cadeias logísticas e tecnológicas que alimentam o aparelho de segurança do regime.
  • desmantelar legitimidade interna: acelerar fraturas sociais e políticas, tornando o custo de manter o regime superior ao custo da mudança.

A discussão pública raramente distingue estes níveis. Mistura tudo e acaba em slogans. Mas é precisamente nesta distinção que se percebe o risco — e a diferença para o passado recente. O risco é óbvio: desmantelar sem plano de estabilização pode criar um vazio pior do que o status quo. O passado ensina que vácuos políticos no Médio Oriente têm um talento particular para serem ocupados por forças mais radicais, mais violentas e menos controláveis.

A diferença, se existir, terá de estar na recusa de repetir o modelo da ocupação: não gerir um país de fora, não administrar a transição como se fosse uma empresa insolvente, não exportar instituições por decreto. Criar condições, sim; substituir a sociedade, não. Esta é a única forma de tornar plausível a tese de que “não é um novo Iraque”.

E depois há a narrativa. O establishment mediático, sobretudo europeu, continua preso a uma realidade de 2003. Vê o mundo em binário: guerra/paz, invasão/retirada, aliado/inimigo. Mas o mundo já funciona em camadas: energia, chips, rotas, sanções, bancos correspondentes, investimento soberano, seguros, logística. Quem controla a arquitetura controla o resultado. E Trump, com todos os defeitos, percebe isto instintivamente.

No fundo, o que está em causa não é apenas Teerão. É a centralidade. O mundo está a passar de uma globalização de intermediação para uma globalização de blocos. E Trump está a tentar garantir que o bloco americano tem indústria, energia, capital e segurança suficientes para mandar — e para não depender de terceiros quando o risco sobe.

A pergunta séria não é se gostamos do estilo. A pergunta séria é: esta estratégia reduz a instabilidade — ou apenas a desloca? E, se a reduz, a que preço, e com que garantias de transição?

Se queremos discutir como adultos, é por aqui. Sem slogans. Sem nostalgias do passado. Sem fantasias. Com arquitetura. Porque é aí que, hoje, se decide o futuro.

Viva La Libertad Carago!