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A Queda do Regime Intocável

O poder autoritário vive tanto da coerção como da perceção de permanência. Quando essa perceção se quebra, não muda apenas a dinâmica interna, altera-se o cálculo estratégico externo.

João Pedro Gomes
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Durante quase meio século, a República Islâmica do Irão foi tratada como uma constante geopolítica. Um regime repressivo, ideológico e agressivo, mas estruturalmente estável. Mudavam presidentes, alteravam-se equilíbrios regionais, assinavam-se acordos nucleares e impunham-se sanções, mas o núcleo do sistema permanecia intocado. O Líder Supremo, as Guardas Revolucionárias, a teocracia institucionalizada. O mundo habituou-se à ideia de que o regime iraniano podia ser contido, negociado, pressionado ou sancionado, mas não verdadeiramente abalado.

Os ataques conduzidos pelos Estados Unidos e por Israel no final de fevereiro, culminando na morte de Ali Khamenei, quebraram essa perceção de permanência. Não se trata apenas de mais um episódio de escalada no Médio Oriente. Trata-se de um momento de rutura histórica. Pela primeira vez desde 1979, o centro simbólico e operacional do regime foi atingido de forma direta.

O impacto interno não pode ser lido através das lentes simplistas que frequentemente dominam o debate europeu. Durante décadas, a República Islâmica procurou fundir o regime com a nação, apresentando qualquer crítica como traição à pátria. Mas essa fusão nunca foi completa. O Irão é uma civilização milenar, anterior ao islamismo político, anterior à revolução de 1979 e certamente anterior à liderança de Khamenei.

Nos últimos meses, a repressão atingiu níveis de violência que marcaram uma nova geração. Manifestações de proporções históricas foram esmagadas com munições reais, detenções arbitrárias multiplicaram-se, relatos de violência sexual e execuções extrajudiciais tornaram-se recorrentes. O corte sistemático de internet e eletricidade foi utilizado como arma política. Milhares morreram. Muitos mais foram detidos. Hospitais foram pressionados a não reportar feridos. O medo tornou-se método de governo.

É neste contexto que se deve interpretar a reação de muitos iranianos aos acontecimentos recentes. Apesar do controlo informativo, circularam relatos de celebrações em algumas zonas urbanas. Na diáspora, a reação foi mais visível: bandeiras pré-revolução, manifestações espontâneas, discursos de esperança. Para uma parte significativa da sociedade, os ataques não foram percebidos como um ataque ao país, mas como um golpe na estrutura que os governa há 47 anos.

Este dado é politicamente crucial. Durante anos, muitos iranianos perguntaram por que razão a comunidade internacional insistia em negociações intermináveis enquanto o regime reprimia sem limite. O sentimento de abandono gerou algo difícil de explicar a quem nunca viveu sob um sistema repressivo: o desejo de que forças externas neutralizem as estruturas militares do regime para abrir espaço a uma mudança interna. Isso não significa apoio automático a qualquer intervenção. Significa desespero transformado em esperança estratégica.

Mas o Irão não é apenas uma questão interna.

A República Islâmica construiu um modelo de poder assente em três pilares interligados: repressão doméstica, militarização do Estado e exportação de instabilidade externa. Quando enfrenta contestação interna, intensifica a projeção externa. Quando sofre pressão externa, radicaliza o controlo interno. Essa lógica permitiu-lhe sobreviver a sanções, crises económicas e revoltas.

A diferença agora é que o regime enfrenta simultaneamente fragilidade interna e confrontação externa direta. A guerra por procuração deixou de ser suficiente para conter o conflito. O eixo de tensão deslocou-se para o próprio território iraniano.

As consequências ultrapassam largamente o Médio Oriente. O Irão tornou-se, ao longo da última década, um elemento funcional no eixo autoritário global. A Rússia integrou drones iranianos Shahed na sua estratégia de saturação das defesas ucranianas, utilizando-os para prolongar a guerra de desgaste e infligir danos constantes à infraestrutura civil da Ucrânia. Uma República Islâmica fragilizada, incapaz de manter produção, transferência tecnológica ou apoio logístico, altera o cálculo militar em Moscovo.

A China, por sua vez, beneficiou sistematicamente de petróleo iraniano a preços reduzidos, contornando sanções e assegurando uma almofada energética estratégica. Num contexto em que Pequim consolida capacidades militares e prepara-se para cenários de tensão no Indo-Pacífico, esse acesso privilegiado não é um detalhe económico: é um instrumento de poder. Um Irão estruturalmente enfraquecido retira à China uma fonte relevante de flexibilidade estratégica.

Para além disso, o regime iraniano funciona como multiplicador de influência regional através de redes armadas em Gaza, no Líbano, no Iraque e no Iémen, tendo perdido o controlo da Síria em finais de 2024. A sua fragilização altera a dinâmica de vários teatros simultaneamente. O que está em causa não é apenas a estabilidade do Golfo Pérsico, mas o equilíbrio mais amplo entre democracias e regimes revisionistas.

É neste ponto que a reação europeia revela desconforto intelectual. Parte das capitais limitou-se a apelos genéricos à contenção e ao respeito pelo direito internacional. É compreensível temer uma escalada regional. O risco é real. Mas há uma diferença entre prudência estratégica e neutralização moral.

Em vários setores da esquerda europeia e portuguesa, a indignação concentrou-se quase exclusivamente na condenação dos ataques dos EUA e de Israel, como se o regime iraniano fosse apenas mais uma vítima do “imperialismo”. Condenar operações militares é legítimo. Ignorar décadas de repressão interna, terrorismo por procuração e chantagem nuclear é uma leitura seletiva da realidade. Não existe simetria moral entre uma democracia que pode ser criticada publicamente e um regime que prende, tortura e executa opositores como método sistemático de governo.

O debate não deve ser reduzido a preferências ideológicas entre Washington e Teerão. O debate é mais profundo: as democracias conseguem reconhecer quando um regime se tornou estruturalmente desestabilizador do sistema internacional? Ou continuarão a refugiar-se na ideia confortável de que estabilidade significa simplesmente manter o regime existente, independentemente da sua natureza?

A morte de Khamenei não garante o colapso imediato do sistema. As Guardas Revolucionárias continuam poderosas. O aparelho securitário mantém capacidade de repressão. Um processo de sucessão pode resultar numa liderança ainda mais dura. O cenário de transição pode gerar disputas internas, radicalização ou fragmentação. A prudência estratégica continua essencial.

Mas a perceção de permanência foi quebrada. E isso, para regimes autoritários, é muitas vezes mais perigoso do que qualquer sanção.

O poder autoritário vive tanto da coerção como da perceção de permanência. Quando essa perceção se quebra, não muda apenas a dinâmica interna, altera-se o cálculo estratégico externo. Dentro do país, a sociedade começa a imaginar alternativas antes impensáveis. Fora dele, o tabuleiro move-se com rapidez. Moscovo mede perdas operacionais e avalia a sustentabilidade da sua dependência tecnológica iraniana. Pequim recalcula riscos energéticos e exposição geopolítica. As capitais do Golfo, depois de atingidas por retaliações iranianas, aceleram aproximações discretas mas claras ao eixo Washington–Jerusalém, privilegiando segurança sobre ambiguidade. E Washington já não gere o dossiê iraniano por procuração: interveio diretamente porque o limiar estratégico foi ultrapassado.

O que está a acontecer não é apenas uma crise regional. É um realinhamento num sistema internacional em que as fronteiras entre guerras locais e confrontos sistémicos praticamente desapareceram. Se o Irão entrar numa fase prolongada de fragilidade, o impacto será sentido nas linhas da frente da Ucrânia, no Indo-Pacífico e no equilíbrio energético global.

Milhões de iranianos vivem hoje entre o medo e a esperança. Pela primeira vez em quase meio século, o regime deixou de parecer inevitável.

As grandes mudanças históricas não começam com garantias de sucesso. Começam quando a perceção de permanência se quebra e o cálculo do poder deixa de ser previsível. Se a República Islâmica entrou agora nesse território incerto, o impacto não ficará confinado ao Médio Oriente. Moscovo, Pequim, Washington e as capitais árabes já ajustam posições.

O Irão pode sobreviver. Pode endurecer. Pode transformar-se. Mas uma coisa já mudou: o regime deixou de ser tratado como estruturalmente intocável.

E quando uma constante estratégica desaparece, o equilíbrio global deixa de ser previsível.