(c) 2023 am|dev

(A) :: Num mundo cada vez mais "top", o Jovem Conservador "foi ultrapassado pela direita"

Num mundo cada vez mais "top", o Jovem Conservador "foi ultrapassado pela direita"

Após uma década "contra o bom senso" e com um novo espectáculo de humor, os criadores do Jovem Conservador de Direita refletem sobre o percurso do Doutor e do Estagiário, "democratas de ocasião".

Mariana Carvalho
text
Francisco Romão Pereira
photography

Dez anos se passaram desde que o pretenso candidato à liderança do PSD e futuro primeiro-ministro de Portugal se assumiu como “pai benevolente do povo português”, na primeira publicação do Facebook assinada como Jovem Conservador de Direita (JCD). Uma personagem ambígua e não identificada — além da fotografia de stock retirada da internet, de um “young right-wing conservative” — dividiu opiniões numa altura em que a Geringonça, coligação constituída pelo PS, Bloco de Esquerda, PCP e o Partido Ecologista “Os  Verdes”, alterou o contexto político do país, em outubro de 2015.

Por trás da página de sátira, irónica e previsivelmente enviesada à direita, estão dois ovarenses com particular queda para a comédia e gosto por política — Bruno Henriques e Sérgio Duarte —, que o sucesso cavalgante do Jovem nos primeiros anos de atividade depressa obrigou a abandonar o conforto do anonimato: Bruno deu corpo à personagem que o público já conhecia e Sérgio ao Estagiário, “fiel escudeiro não remunerado do Doutor” — título que, aliás, inspirou vários dos trabalhos protagonizados pelo Jovem (como o primeiro livro A Era do Doutor e a revista Le Docteur) e com o qual tratam todas as figuras da atualidade, desde o Dr. Luís Montenegro à Dra. Taylor Swift.

Com um novo espectáculo ao vivo na estrada, depois da estreia em Viseu a 10 de janeiro, celebram-se os dez anos de carreira e o estado do mundo, que, na opinião deste Jovem, “está top”. O contexto político radicalizou-se mais do que ele, assume, e as opiniões impopulares e ousadas que semeava nas redes sociais em 2015 tornaram-se norma, reconhece.

Foi nos bastidores de O Mundo Está Top — que depois de esgotar sala em Lisboa a 24 de janeiro, regressou para mais três noites no Auditório do Liceu Camões, entre 20 e 22 de fevereiro —, que o Observador entrevistou Bruno Henriques e Sérgio Duarte, desta vez despidos do fato e da gravata.

Como é que o Bruno e o Sérgio entram em personagem? Quais são os traços distintivos do Jovem Conservador de Direita? Os tiques e os elementos de caracterização?
Bruno Henriques (BH) — É altivês, apenas isso. Basta pensar: se eu fosse um idiota, como é que me comportaria? E depois penso sempre naquele estereótipo do CEO que as pessoas têm de venerar só por existir.

Sérgio Duarte (SD) — Mas tu mudas o penteado e nota-se que a tua personalidade muda ali qualquer coisa. E o teu olhar.

BH — É altivês. E fazer o penteado com o risquinho ao lado.

Mas a gravata também é uma parte importante. Já vos ouvi dizer que até desporto se faz de fato e gravata…
BH
— Tem de ser. Para ter dignidade… E como não usamos fato e gravata no dia a dia, sentimos que é uma máscara de carnaval.

E existe method acting no Jovem? Baseiam-se em experiências vossas para interpretar as personagens?
BH — Para isso era preciso existir acting. Mas não, nunca tivemos treino disto. Tu fizeste algum workshop em segredo?

SD — Não. Interpreto o Estagiário, que sou eu próprio numa versão mais estúpida, no sentido em que, quando uso aqueles vocabulários de jovem dos anos 90, estou só a interpretar um jovem muito mal.

BH — Já eu, digo coisas que normalmente me deixariam de boca aberta ou indignado, mas com um ar sério como se fossem a coisa mais correta à face da terra. Só isso.

Mas imagino que no início, tiveram de criar um perfil para a personagem. Ou sempre foi uma coisa muito espontânea?
SD — Foi mais isso. A primeira vez que o Bruno apareceu em público como personagem, sem experiência de performance, foi na apresentação de um livro do José Soeiro e do Adriano Campos. Levava um texto preparado, mas a atitude era o estereótipo de um idiota, de um político com mania. Mas é uma boa pergunta, porque sinceramente nunca pensei muito nisso. Foi sempre muito orgânico. Primeiro, essa apresentação com texto; depois, a ida à televisão, ao programa da Cristina, falar sobre os 100 dias da presidência do Marcelo. Aí foi sem texto, era o que saísse no momento.

BH — Sim, a ideia era dizer a coisa mais absurda, mantendo cara séria e uma postura impositiva. Tudo inspirado na imagem que eu tinha de um douchebag [canalha].

Mas não conceberam um passado para o Jovem, uma infância, antecedentes familiares? De que é que ele gosta, por exemplo?
BH — No início tínhamos muito isso. Decidimos que ele vinha da zona de Ourém, porque é onde fica Fátima — pela proximidade religiosa…

SD — E um sobrinho que ficou de esquerda, porque foi de Erasmus; e um padre mentor, que andava ali a roçar a pedofilia, mas de uma forma muito pouco explícita.

BH — O Jovem é um tradicionalista, mas, sempre que fala de homossexualidade, fica no ar: qual será mesmo a orientação dele? No fim, reproduz o estereótipo do conservador que quer passar uma boa imagem da família, defender os valores corretos, mas com um certo desbragamento.

SD — E já numa altura em que se afirma a cultura incel, o Jovem é solteiro e não tem o mínimo interesse em mulheres. O máximo que faz para conquistar uma pretendente é dizer “Mandem-me candidaturas e logo vejo se vale a pena”. Ou seja, ter relações com mulheres é chato, uma perda de tempo.

BH — Porque ele tem esse lado corporativo, de “tudo é trabalho” — uma ideia que está muito disseminada nas redes sociais hoje.

"O Jovem nasceu no final de 2015, na altura da formação da Geringonça e quando começou a haver uma paranoia na internet de 'Ai Jesus Senhor, que isto se vai tornar na Coreia do Norte'. Em vez de mandarmos água para a fervura, fizemos o contrário, que foi dizer 'Pois vai, isto vai ser ainda pior'."
Bruno Henriques

Como é que se conheceram, como começou o projeto do Jovem?
BH — Conhecemo-nos em 2014, na altura para fazer stand-up comedy. Percebi que o Sérgio era de Ovar, como eu, através de uma página de humor que ele tinha. Contactei-o, fomos tomar café e tornámo-nos amigos aí. O Jovem nasceu no final de 2015, na altura da formação da Geringonça e quando começou a haver uma paranoia na internet de “Ai Jesus Senhor, que isto se vai tornar na Coreia do Norte”. Em vez de mandarmos água para a fervura, fizemos o contrário, que foi dizer “Pois vai, isto vai ser ainda pior”. Depois o Sérgio decidiu criar a personagem e chamou um conjunto de pessoas para participar, que entretanto foram saindo. Só restámos nós.

SD — Na altura, eu e gente que conhecia andávamos a trollar [provocar na internet] com os nossos perfis, e eu disse “Olhem, está aqui o Jovem, se se quiserem juntar, usem esta página do Facebook, faz mais sentido”. Publicávamos textos em personagem, porque achávamos piada aquilo. No início havia mais pessoas, que, por motivos pessoais, abandonaram o projeto. Como nós já tínhamos uma relação pessoal mais próxima, fomos ficando até hoje.

De facto, recuei até às publicações mais antigas da página e notei que, no início, escreviam mesmo muito.
SD — Éramos cinco, três dos quais escreviam com mais frequência. Ultimamente, ganhámos outras dimensões, a personagem cresceu, depois começamos a publicar crónicas, um livro, fizemos sketches para o Canal Q, agora temos o podcast, e pronto, foi evoluindo por aí.

O Jovem era mais radical quando começou?
BH — A realidade é que se tornou mais radical. Porque, quando o Jovem começou, estava a nascer o movimento populista nos Estados Unidos e no Brasil, depois aconteceu o Brexit… E com os populismos, o Jovem, que na altura parecia um radical conservador, foi ultrapassado pela direita. Mas manteve-se mais ou menos na mesma linha ideológica, não se radicalizou, ao contrário do que aconteceu em Portugal e noutros países da Europa.

SD — Não se radicalizou e também mudámos a nossa maneira de escrever, porque nos afeiçoámos um bocado à personagem e não queremos que ele seja tão idiota e bidimensional que se torne estúpido e repetitivo.

BH — E, sobretudo, o Jovem não é um negacionista de algumas coisas, como as alterações climáticas ou o racismo. Ele reconhece que existem e que são más, mas às vezes há imperativos maiores que se impõem, como o imperativo económico.

No início vocês tinham uma faceta meio ambígua, porque as pessoas não percebiam muito bem se estavam a falar a sério…
SD — Sim, também tínhamos esse objetivo de enganar, para aparecerem pessoas indignadas, ou até mesmo que concordassem com aquilo que dizíamos, o que também acontecia. A certo ponto, isso começou a incomodar-nos e passámos a ser mais deliberadamente cómicos, porque já não queremos tanto enganar, mas divertir, entreter, rir da realidade — é sátira.

No início, essa ambiguidade jogou a vosso favor? Conseguiram conquistar um público mais vasto?
BH — Sem dúvida, e o facto de não atribuirmos uma cara também. O anonimato atraía a curiosidade das pessoas, que se perguntavam quem é que escrevia para o jovem.

SD — Mas na internet, por pouco subtil que seja, vai sempre haver gente que não sabe do que se trata, e ainda apanhamos pessoas assim. Tal como pessoas que concordam com as afirmações do Jovem.

A certo ponto, a vossa página foi mandada abaixo. Depois fizeram um espectáculo sobre isso.
BH — O “Quem Calou o Doutor” [de 2018], precisamente.

Mas o que aconteceu? Receberam múltiplas denúncias?
BH — Foi isso. Aquilo chegou a ser notícia no telejornal da SIC, não foi? Fomos entrevistados e o Jovem foi tendência do Twitter nesse dia, porque a página foi abaixo. Creio que o motivo foram uns textos que publicámos contra o PNR [Partido Nacional Renovador, atual Ergue-te]…

SD — Sim, esses textos eram muito denunciados. Agora os processos para banir uma conta são mediados por algoritmos e inteligência artificial. Na altura, funcionava por denúncias múltiplas, aquilo por defeito deitava abaixo e, após X número de publicações denunciadas, a página acabava. Os textos do PNR eram sempre denunciados, e também aqueles mais mórbidos de…

BH — “In memory“, obituários que fazíamos de celebridades, também eram muito denunciados, porque havia pessoal que ficava ofendido. Eventualmente, conseguimos recuperar a página, porque o terceiro elemento do Jovem conhecia alguém…

SD — Foi cunha. Recuperámos a página por cunha.

"Pessoalmente, eu não gosto de cinismo, daquela coisa de "é tudo mau”. E o Jovem deixa-nos mais bem-dispostos, permite brincar com a realidade... É um escape. Se não tivéssemos isto, estávamos em casa a resmungar com as notícias."
Sérgio Duarte

A personagem original é o Jovem. Em que circunstância surge o Estagiário?
BH — Nas primeiras aparições, o Jovem aparece rodeado dos estagiários, primeiro, e depois do Estagiário único. Mas suponho que foram os sketches do Canal Q que exigiram o diálogo, a conversa a dois.

SD — Sim, consolidou-se no Canal Q, eu aparecia de fato e gravata ao lado do Bruno, em sketches do Doutor a microgerir o Estagiário, por exemplo. E também nos vox pops, na interação com pessoas. O facto de sermos dois permitia uma abordagem diferente: o Doutor sempre muito sério, o Estagiário mais estúpido. O Estagiário é o palhaço.

BH — E depois no podcast é essencial esse diálogo, o pingue-pongue entre Doutor e Estagiário. E nos espectáculos ao vivo também. No primeiro espectáculo, o Quem Calou o Doutor?, em que houve a tal denúncia da página, o Estagiário apareceu em palco, fez uma introdução, e o resto foi quase tudo um monólogo do Jovem. Mas, a partir daí, decidimos fazer os espectáculos de forma mais orgânica, com alternância entre momentos do Estagiário e do Doutor…

SD – Eu também tinha de fazer alguma coisa, não é? Ter um momento de protagonismo para mim.

O facto de viverem os dois em Ovar é um desafio à expansão do Jovem, tendo em conta que o país é tão centralizado?
BH — Quanto mais nos perguntam isso, mais acreditamos que sim. Mas, se calhar, é verdade. Imagino que, quando alguém nos faz um convite, pode pensar duas vezes: “aqueles tipos estão lá em cima, é mais difícil virem para aqui”.

SD — Gravamos o podcast de forma autónoma em Ovar, e quando queremos marcar uma digressão a vários sítios do país, não há qualquer tipo de constrangimento geográfico. Agora, já aconteceu cancelarem uma oportunidade em que a desculpa foi essa. Mas não sabemos se foi de facto, não é?

BH — Se calhar só não quiseram admitir que não gostavam de nós.

Quais são as grandes inspirações do Jovem, dentro e fora da política?
SD — Dentro, os clássicos, o [Ronald] Reagan e a [Margaret] Thatcher, no fundo os ideólogos e economistas dessa área política, o [Friedrich] Hayek e Milton Friedman. Em Portugal, o Passos Coelho…

…Nuno Melo?
SD — O Nuno Melo é diferente, o Doutor sente-se o mentor do Nuno Melo, é mais o contrário. O Nuno Melo é que…

BH — Usufrui da sabedoria do Doutor. E depois há ali um desvio, quase uma atração pelo Nuno Melo, que muitas vezes parece física, noutras vezes é saudade da sua presença. Mas, no fundo, isto só começou para o chatearmos.

SD — É um tipo que nos irrita e queremos chateá-lo. Mas nunca tivemos nenhuma reação dele…

E quem são as maiores inimizades do Jovem?
BH — Tudo que é de esquerda.

SD — E o Chega.

De onde vem a alcunha de André Ventura, o “Doutor Cabeça de Geleia”?
BH — Não foi uma escolha consciente. Decidimos os dois, na altura em que o André Ventura começou a ganhar este protagonismo todo e a aparecer constantemente em tudo quanto é canto de comunicação social, e sobretudo nas redes, tratá-lo quase como uma espécie de Voldemort, que é aquele cujo nome não deve ser pronunciado, a fim de evitar convocar…

SD — … os algoritmos.

BH — Decidimos atribuir um nome que sugere uma ideologia moldável. A cabeça de geleia pode andar para qualquer sítio: sabemos que o Ventura se atira para qualquer lado ideológico consoante as oportunidade que tem, é um oportunista.

"O Klu Klux Klan foi destruído pela comédia, pela sátira. Começaram a ridicularizar os rituais em que homens adultos se juntavam, metiam lençóis pela cabeça e faziam saudações. A sátira ajudou, na altura, a desconstruir aquilo como gente ridícula que é. Se calhar, um miúdo que acredita "O André Ventura até é fixe, até diz umas verdades”, pode ouvir um bit bem feito a cascar na extrema-direita e deixar de dar crédito ao Chega."
Sérgio Duarte

Quando apareceu, o Jovem chegou a bastante gente muito rápido. Recentemente, tem sido mais difícil atingir novas audiências? E qual o motivo?
SD — Sentimos essa estagnação e vemos que, nas pessoas que assistem aos nossos espectáculos, existe pessoal de bastante idade. Mas isso não nos incomoda. Acho simplesmente que a internet mudou e agora vive muito de tik toks e vídeos de curta duração. Não sabemos comunicar bem dessa forma.

BH — Já não temos o fator novidade, que atrai sempre mais. O Jovem teve um alcance e, neste momento, estamos a colher os frutos dessa altura. Com os dez anos do projeto, temos sentido o crescimento do número de ouvintes do podcast e das pessoas que vêm aos nossos espectáculos.

SD — Temos, de facto, dificuldade em captar novas gerações e o crescimento não tem sido tanto como no início. Mas é isso, a internet mudou e a forma como as pessoas consomem conteúdo também. Na nossa altura, o Facebook era a cena e agora ninguém vai lá…

BH — Sim, é onde temos mais seguidores ainda. A maior parte talvez já tenha falecido…

SD — Mas somos muito maus a fazer marketing e vender-nos, somos pouco estratégicos. Temos o [podcast de literatura] Livros da Piça também…

BH — Isso trouxe-nos muito público novo. Público que também começou a ouvir o Jovem e público de idade jovem.

O Jovem assume uma posição bastante crítica e sarcástica em relação à sociedade. Isso às vezes não vos pesa, não vos puxa para baixo?
SD — Não gosto de cinismo, daquela coisa de “é tudo mau”. E o Jovem deixa-nos mais bem-dispostos, permite brincar com a realidade… É um escape.

BH — Sabe bem ver comentários que dizem “este é um assunto tão delicado, tão pesado, obrigado por terem feito este post para o tornar mais leve”.

SD — É uma forma de lidar. Se não tivéssemos isto, estávamos em casa a resmungar com as notícias.

Tendo em conta que há pessoas que adquirem informação não por via das notícias, mas através dos comediantes que veem, não pode a comédia influenciar a forma como pensam sobre política, nem que seja pela exposição à política?
BH — Não acho que a comédia faça política, mas posso, de facto, sentir-me mais politizado por acompanhar o Daily Show ou outros programas de sátira de política. O humor, primeiro, faz rir, mas também pode assumir uma posição. Ou seja, o Jovem não é só cínico, tem uma posição acerca dos assuntos e quer transmiti-la de forma humorística. Não para mudar pensamentos, não para informar…

SD — Mas pode acontecer.

Ou seja, a comédia pode escrutinar a política?
SD — Escrutinar e não só. O Ku Klux Klan foi destruído pela comédia, pela sátira. Começaram a ridicularizar os rituais do Ku Klux Klan, em que homens adultos se juntavam, metiam lençóis pela cabeça e faziam saudações. A sátira ajudou, na altura, a desconstruir aquilo como gente ridícula que é. Se calhar, um miúdo que acredita que “o André Ventura até é fixe, até diz umas verdades”, pode ouvir um bit bem feito a cascar na extrema-direita e deixar de dar crédito ao Chega. O humor pode ser extremamente persuasivo. O Daily Show, como eu, era contra a Guerra do Iraque, ou seja, não me fez mudar de opinião. Mas foi bom ver alguém com o impacto e a piada do Jon Stewart ter a mesma opinião do que eu e esclarecer-me sobre esse assunto. É relevante o facto de uma pessoa não estar sozinha.

E à medida que os comediantes ganham visibilidade mediática, não pode o público confundir as posições que têm sobre política com a comédia que fazem?
SD — Acontece-nos as pessoas tentarem descortinar a nossa opinião através daquilo que dizemos como personagem. E às vezes é fácil de perceber, outras não tanto. Já aconteceu sermos criticados injustamente, por acharem que estamos a defender uma coisa que, na verdade, estamos a atacar.

"[O espectáculo 'O Mundo Está Top'] é uma posição irónica do Jovem para descrever o regresso de ideias fascistas e a normalização de posições que achávamos ultrapassadas. Acima de tudo, para o Jovem o mundo está melhor com a erosão do socialismo. (...) Neste momento, as pessoas não se importam de dizer 'Ok, o nazismo é mau, mas pior é ser socialista', sem sequer compreenderem o que é realmente o socialismo ou o que é que trouxe de bom."
Bruno Henriques

Se partem do princípio que o Jovem é um idiota, deduz-se que, na maior parte das questões, têm uma opinião oposta à dele. Mas já aconteceu defenderem posições idênticas?
BH — Não muitas vezes. Porque tentamos sempre que o Jovem tenha a posição contrária ao bom senso.

SD — Mas aconteceu agora na tempestade, por exemplo. O Jovem foi crítico do André Ventura quando ele deu “umas garrafinhas de água” às vítimas, mas disse “Ainda bem que ele faz isso porque é assim que se mantém popular”. Não é óbvio, mas está lá a nossa opinião toda. Como estamos a escrever em personagem, há que dar aquele twist de “Claro que ele tem de fazer isto. É inevitável, porque se ele não for um palhaço, não consegue agradar a palhaços”.

BH — O Jovem acredita que a melhor qualidade de um político é não ter princípios, adaptar-se aos momentos. Ou seja, está a elogiar e a criticar ao mesmo tempo.

O Mundo Está Top é o sétimo espectáculo do Jovem. Gostam de estar em palco? Qual é o vosso meio privilegiado para comunicar?
SD — Se me fizessem essa pergunta há dez anos, eu diria a escrita. Não queria o mínimo de protagonismo. O palco era impensável, ainda por cima com momentos de improviso. Agora gosto mais. Tiro mais gozo disso, sinto-me mais confortável.

BH — O objetivo inicial sempre foi escrever. E se o personagem não tivesse cara, melhor, podíamos ficar pela escrita. Agora dão-me gozo as três grandes nuances: escrever, o podcast e estar em palco, a coisa está equilibrada.

Com base no cartaz do espectáculo, O Mundo Está Top porque Portugal está no chão, o Parlamento cheio de porcos, porque Nuno Melo controla o sistema solar e lança um raio que consome a Constituição e porque o wokismo e os imigrantes estão a ser varridos. Entretanto, o Jovem brinda com um copo de vinho, montado num unicórnio. É este o mundo de sonho do Jovem?
BH — Não é o mundo de sonho, mas melhorou. De há 10 anos para cá, melhorou imenso. Pessoas que estavam na franja e ultrapassadas, de repente, estão na vanguarda do mundo, dez ou mesmo 100 anos depois.

SD — Temos uma ilustradora muito boa, que tem feito os nossos cartazes, ilustrou o nosso livro e as nossas revistas também, e ela gosta sempre de meter pormenores subtis nas ilustrações. O pedido que fizemos para o cartaz tinha coisas horríveis que — e ainda bem — não ficaram.

BH — Sim, mas no fundo o espectáculo é sobre a ideia de que o mundo só melhorou nos últimos dez anos, o que, como é óbvio, é uma posição irónica do Jovem para descrever o regresso de ideias fascistas e a normalização de posições que achávamos ultrapassadas. Acima de tudo, para o Jovem o mundo está melhor com a erosão do socialismo. O socialismo está a ser varrido de Portugal e do mundo, está a ser vilipendiado em todas as redes sociais e, neste momento, as pessoas não se importam de dizer “OK, o nazismo é mau, mas pior é ser socialista”, sem sequer compreenderem os conceitos ou a História.

O Jovem é democrata.
SD — O Jovem já disse várias vezes que a democracia é boa, desde que as pessoas também não tenham demasiado poder.

BH — Ele defende uma democracia controlada pelas melhores pessoas, ou as pessoas que, na sua visão, têm as ideias certas.

SD — Desde que a economia esteja bem, pode haver democracia. Mas se a democracia for incompatível com as metas económicas, pode ser preciso repensar algumas coisas.

BH — Sim, ele é um democrata de ocasião.

No início, o Jovem afirmava ser o futuro primeiro-ministro de Portugal. O que é que ele acha de Luís Montenegro?
BH — É a pessoa certa no cargo certo. Como não é muito competente para o cargo, é ideal, porque pelo menos não se atravessa à frente das pessoas que realmente fazem andar a economia, que são os CEOs das empresas. Não intervém muito, quanto menos intervém melhor.

SD — E não tem grandes princípios ali a limitar a atuação dele. É adaptável.

O que é que preocupa mais o Jovem no mundo atual?
SD — É o wokismo. Já não se pode dizer nada. E o que estão a fazer às crianças nas escolas, essas coisas. Ele alinha nas críticas à disciplina de Educação para a Cidadania, não porque seja muito convicto, mas porque é uma boa distração, porque deixa as pessoas entretidas a discutir nessas guerras culturais.

BH — Ele não se importa muito com esses assuntos, mas participa na mesma linha de pensamento, porque, enquanto as multidões estão indignadas com essas coisas, as pessoas competentes conseguem mudar coisas estruturais, tipo o sistema de saúde.

O Bruno e o Sérgio também fazem o podcast Livros da Piça e o programa Alegria de Viver na rádio local de Ovar, AVFM. Consideram-se almas gémeas no âmbito profissional?
SD — De facto, é uma sorte encontrar alguém com quem nos identificamos e partilhamos tantos interesses, com quem trabalhamos bem. Nesse sentido somos privilegiados.

https://www.youtube.com/watch?v=9Iwc9NsjwIU

Em 2017, fizeram um vox pop para o Canal Q, que recentemente recuperaram no canal de YouTube do Jovem, em que perguntaram às pessoas de Aveiro se preferiam prescindir da gestão pública das autarquias a favor de empresas privadas. Todas, segundo dizem, responderam que sim.
BH — Todas.

SD — Só houve uma senhora que ficou indignada, que disse “Isso não tem jeito nenhum” e virou costas, mas nem a conseguimos filmar, portanto, não aparece no vídeo. Foi a única exceção. No final, tínhamos mais de dez assinaturas.

BH — Aí percebemos que, quando uma pessoa aparece de fato na televisão e diz coisas com convicção, mesmo que estejam erradas, há muitas pessoas que acham “Este indivíduo fala bem, é eloquente”. Isto apesar de abordarmos pessoas na rua com aquele jargão já gasto, o de “há muita corrupção na política, sobretudo política autárquica, e uma forma de acabar com a corrupção é acabar com as autarquias, e as pessoas abdicarem do seu direito de voto”. O facto de dizermos isto com convicção, e de forma rápida… há muitas pessoas que nem sequer conseguiram processar o quão estúpido era.

SD — Isso assustou-me genuinamente na altura, porque eu estava à espera de ser insultado. Mas também tenho a impressão de que algumas nem processaram bem o que estávamos a dizer.

BH — E também pode ter sido o constrangimento de serem filmadas. Mas se aquilo é uma amostra da realidade, é assustador.

SD — A esperança que temos na humanidade reside naquela única senhora que se recusou a assinar.