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(A) :: Um dos mais catastróficos erros de cálculo da história militar contemporânea

Um dos mais catastróficos erros de cálculo da história militar contemporânea

O massacre de 7 de Outubro de 2023 ficará para a história como um dos mais catastróficos erros de cálculo da história militar contemporânea. 

Ricardo de Oliveira Ai-Ai
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Todos os líderes de topo do eixo de resistência iraniano estão mortos, Hamas, Hezbollah, Guarda Revolucionária e o próprio Ali Khamenei. O plano parecia simples na teoria, atacar Israel com força suficiente para desencadear uma invasão terrestre da Faixa de Gaza, invasão essa que provocaria uma radicalização das ruas nos Estados árabes e uma reactivação dos proxies iranianos espalhados por toda a região envolvente a Israel, que atacariam em todas as frentes numa guerra de 5 frentes que Israel não conseguiria vencer.

O Irão investiu 40 anos e milhares de milhões de dólares a erguer a sua estrutura de resistência cujo objectivo final – nunca escondido – era a aniquilação total do Estado de Israel e a expulsão das populações judaicas da terra santa, formando um Estado árabe do rio Jordão até ao Mediterrâneo. Essa estrutura de resistência contemplava o Hezbollah no sul do Líbano, o Hamas na Faixa de Gaza, os Houthis no Iémen e outras milícias no Iraque e na Síria. Todavia, quando esta guerra começa, todas estas organizações acabaram por ser humilhadas uma por uma. Yahya Sinwar, o arquitecto do 7 de Outubro, foi procurado, encontrado e morto em Gaza, toda a estrutura de topo do Hamas foi eliminada homem por homem, e o Hamas hoje em dia pouco menos controla que 50% da Faixa de Gaza; a maioria desta encontra-se tragicamente destruída e a população que o Hamas jurou proteger pagou o preço com pólvora, sangue e mortos por uma guerra displicente despoletada pelos seus líderes debaixo da obsessão de destruir Israel, que pôs em marcha uma das mais desumanas cruzadas da história da humanidade, num massacre de palestinianos que nunca poderá ficar fora dos livros de história como um dos episódios mais negros da história das sociedades humanas.

O Hezbollah era descrito como a mais sofisticada força militar não-estatal em todo o mundo, até ao dia em que chega a humilhação do famoso ataque da operação dos “pagers” e dos ataques aéreos que mataram o líder Hassan Nasrallah. Por fim chegava a humilhação que ninguém antecipou, o exército libanês, pela primeira vez em décadas, consegue forçar o Hezbollah a entregar as armas.

Bashar al-Assad, depois de sobreviver a uma década de guerra civil apoiado por Putin, foi deposto por um bando de rebeldes numa questão de dias. De Putin nem sinal, o seu aliado russo não pode vir em seu auxílio quando se encontra atolado em lama e cadáveres nas planícies do Donbass ucraniano. Assim como o seu aliado Ali Khamenei se encontrava comprometido com demasiados recursos aplicados na guerra contra Israel, o Hezbollah, o seu maior pilar militar na Síria tinha sido dizimado, não restava nada que pudesse defender Assad a não ser um voo de emergência para Moscovo, a Síria havia passado para a esfera norte-americana. Bashar al-Assad, o homem em que o Irão investiu 15 anos de recursos para o proteger a si e ao seu regime assassino, esfumava-se em 72 horas como que uma nuvem de gás Sarin.

Muitos julgaram que um ataque ao Irão desencadearia uma guerra mundial entre potências, todavia, nem Rússia nem China vieram em auxílio do seu aliado de Teerão, a vergonha que estarão a sentir depois de verem os seus sistemas de defesa anti-aérea serem eliminados pelo exército norte-americano como quem ateia fogo a um tigre de papel, tanto na Venezuela como no Irão, será suficiente para substanciais rombos reputacionais nas respectivas esferas de alianças, ser protegido por material russo e chinês começa a não convencer totalmente os blocos periféricos. Em apenas um só dia Ali Khamenei foi morto dentro do seu próprio complexo, o comandante da Guarda Revolucionária foi morto num ataque aéreo sincronizado, assim como o Ministro da Defesa e toda a hierarquia militar de topo, 40 anos para construir o que se supunha um regime intocável para toda a cadeia de comando de um país ser eliminada numa manhã.

Num contexto de colapso tão fulminante, o Irão encontra-se agora à beira de uma transição incerta, onde a ausência de liderança central pode tanto abrir portas a uma democratização pragmática alinhada com o Ocidente – apoiada por oposição fragmentada mas ativa, como os monárquicos de Reza Pahlavi ou o “Conselho Nacional de Resistência do Irão” de Maryam Rajavi – quanto degenerar em caos sectário ou fragmentação étnica, recordando o Iraque pós-Saddam. O erro de cálculo do 7 de Outubro não foi apenas militar, mas existencial: subestimar a força tecnológica e a coordenação EUA-Israel, que transformaram uma teia de terror em ruínas num piscar de olhos, expondo as fragilidades de regimes que apostam tudo na assimetria e no ódio obstinado.

A lição para futuros aspirantes a potências revisionistas é inescapável. A história não perdoa quem desafia a ordem estabelecida sem meios à altura das suas ambições.