Andrew Lownie estava na sua secretária a trabalhar quando a notícia da detenção de André Mountbatten-Windsor rebentou. Era perto das 10h do dia 19 de fevereiro quando começou a receber emails e mensagens no telemóvel. Em poucos minutos já tinha mais de 1300 tentativas de contacto. Assume que se sentiu um pouco como uma celebridade. “Todos querem um pouco de si”. O historiador e jornalista é também autor de uma biografia reveladora sobre os antigos duques de Iorque, Entitled: The Rise and Fall of the House of York, lançada em agosto de 2025, apenas dois meses antes de André e Sarah Ferguson perderem os títulos. No livro, já trazia detalhes das práticas polémicas do então príncipe como enviado comercial do Reino Unido, cargo que ocupou entre 2001 e 2011. Mas com a divulgação de mais de três milhões de páginas dos ficheiros do caso Epstein em janeiro, o escrutínio ao irmão de Carlos III cresceu ainda mais. Desde então, muito mudou.

Conversámos com Andrew Lownie dois dias depois do início da ofensiva conjunta dos EUA e Israel contra o Irão. “Questiono-me se a guerra não foi uma espécie de distração”, atira o escritor, que costuma ser frontal e falar sem rodeios. Para o autor da biografia de André, o ex-príncipe já sabia que seria detido — e tem destruído documentos e evidências desde dezembro. Acredita que Beatrice e Eugenie foram “descartadas” pela realeza, que Sarah Ferguson está algures no Reino Unido a viver discretamente e que poderá testemunhar contra o ex-marido num potencial julgamento “para salvar a própria pele”. Considera que Carlos III agiu mal, e deveria ser mais transparente sobre todas as dúvidas que cercam as atividades de André. Acha que a família real “não sabe o que fazer” com a crise que se instalou, e ainda arrisca dizer que William poderá subir ao trono ainda até o final deste ano.
Quando lançou o livro em agosto, Lownie destacava o trabalho de quatro anos e as mais de três mil pessoas contactadas — das quais apenas 300 aceitaram falar. Os ficheiros do caso Epstein trouxeram uma nova camada de informações, que para o escritor confirmam as suas pesquisas, e levaram a polícia de Thames Valley a avançar com uma investigação a André por alegada má conduta em exercício de cargo público. Em causa estará o período em que foi enviado comercial do Reino Unido, entre 2001 e 2011, quando viajou em nome do Governo britânico para países do Médio Oriente e China, com o objetivo de servir como um mediador para negócios entre os países. Porém, a suspeita é que tenha usado os contactos para benefício financeiro próprio, e tenha partilhado informações confidenciais com amigos pessoais — entre eles o próprio Jeffrey Epstein. Para Andrew Lownie, esta é “a pior” amizade que o ex-príncipe chegou a ter, mas há outras que representam risco.

Ao Observador cita, por exemplo, a amizade com o Presidente do Azerbaijão desde 2003, Ilham Aliyev — alegadamente André tinha interesse num complexo de golfe na costa do Mar Cáspio — e com o antigo Presidente do Cazaquistão. Em 2002 o ex-príncipe tornou-se patrono da British-Kazakh Society ao lado de Nursultan Nazarbayev; em 2006 André visitou o país e Nazarbayev foi ao Buckingham Palace e conheceu a Rainha; em 2007 o seu genro, Timur Kulibayev, oligarca muito influente na indústria petrolífera do Cazaquistão, comprou Sunninghill Park, uma propriedade de André em Berkshire, por 15 milhões de libras, o equivalente a 17 milhões de euros, 3 milhões a mais do que o preço pedido, e a usar fundos provenientes de uma empresa implicada num caso de corrupção, avançou em janeiro a BBC.
Mas o escrutínio da imprensa já vem desde os anos em que André ainda detinha o cargo de enviado comercial, quando ganhou a alcunha de Air Miles Andy pelas muitas viagens em jatos privados. Em 2011 o The Guardian questionava, por exemplo, o motivo para o então príncipe ter recebido Sakher El Materi, genro do ex-ditador tunisino Zine al-Abidine Ben Ali e condenado por corrupção na Tunísia em 2011, para um almoço com outros empresários no Palácio de Buckingham. Ainda antes dos documentos do caso Epstein serem publicados, já se especulava sobre a relação próxima com um espião chinês, Yang Tengbo, com quem o ex-príncipe teve negócios. O filho de Isabel II também teve laços fortes com Tarek Kaituni, um empresário líbio que foi condenado por posse de drogas e tráfico de armas em França. Kaituni foi um dos convidados do aniversário de 21 anos da princesa Beatrice, em 2009, e ofereceu-lhe um colar de diamantes no valor de 20 mil euros. Ficheiros divulgados recentemente pelo Departamento de Justiça norte-americano e publicados pelo Telegraph, revelaram que André discutiu com Epstein e Terence Allen, um investidor nos Emirados Árabes Unidos, a possibilidade de um empréstimo de milhões da Líbia para o Dubai. Nos emails, Allen questiona o ex-príncipe sobre uma alegada reunião com Bashir Saleh Bashir, um aliado próximo de Muammar Gaddafi. A última tranche de ficheiros Epstein também revelou que o irmão de Carlos III enviou ao criminoso sexual em 2010 um relatório confidencial com oportunidades de negócios no Afeganistão. Nessa altura, o Reino Unido estava comprometido com a reconstrução de infraestruturas no país, após anos de conflito — o ex-príncipe até esteve com as tropas britânicas em solo afegão e esse documento foi enviado pouco após a visita.
Para Lownie, há ainda outra suspeita: de que Epstein era um ativo russo, e que poderá ter recrutado o ex-príncipe. O escritor acha inconcebível que a família real não soubesse dos passo de André, diz que Isabel II terá mesmo conhecido Jeffrey Epstein, e considera que Carlos III tem a obrigação de falar mais. Recentemente o Mail on Sunday revelou que o monarca recebeu uma carta em 2019 com uma denúncia de que o seu irmão tinha conexões com o banqueiro David Rowland. E de facto o Telegraph divulgou em fevereiro os emails que mostram que o ex-príncipe terá partilhado informações confidenciais sobre uma crise financeira na Islândia ao filho do banqueiro, Jonathan Rowland, antigo diretor executivo do Banque Havilland, que havia comprado ativos de uma instituição financeira islandesa falida um ano antes.
Apesar de ter ressalvas quanto a uma acusação, Andrew Lownie arrisca que, antes do crime de má conduta, André e Peter Mandelson poderão ser julgados pelo crime de traição à pátria. O historiador descarta ainda investigações acerca de crimes sexuais, considerando difícil provar que mulheres foram traficadas sem que as vítimas venham a público. Entretanto, acusado ou não, o biógrafo não acha que André queira passar o resto dos seus dias a viver numa pequena quinta em Sandringham. “Não é o lugar mais excitante do mundo”, dispara Lownie, que garante que o ex-príncipe quer “mais sol e menos escrutínio”. Palpites? Algum país no Médio Oriente, onde André tem boas relações, ou até a China.
Já Lownie, finalmente vê acontecer aquilo que há anos tem pedido: que o ex-príncipe que considera “viciado em sexo e financeiramente corrupto” seja investigado e responsabilizado. Contudo, parece acusar algum cansaço — fruto das entrevistas “das seis da manhã à meia-noite”, todos os dias. Quando esta história acalmar, assume querer dedicar-se a um trabalho que deixou pelo meio. A biografia de uma figura que considera menos escandalosa: o príncipe Filipe.
Da última vez que falámos, em agosto, insistia que os piores crimes de André eram financeiros. Investiga o caso há anos. Como se sente com os recentes desenvolvimentos?
Bem, sinto-me grato que as pesquisas tenham se mostrado verdadeiras, que os documentos divulgados tenham confirmado o que as minhas fontes disseram. Empolgado pelo livro ter tido algum impacto e que continue a correr bem, mas também que esteja a conduzir a um debate sobre transparência. E intrigado por ver o que mais pode vir. Um misto de sentimentos.
Onde estava quando soube da notícia da detenção de André?
Estava na minha secretária, a pensar que estava tudo um pouco parado. Acho que recebi 1200 emails e 136 mensagens de texto. Ainda estou a tentar atualizar-me sobre tudo e todas as pessoas que entraram em contacto. E foi contínuo desde então, entrevistas das seis da manhã até à meia noite, por todo o mundo. É um pouco como ser uma celebridade, todos querem um pouco de si.
Ficou surpreendido com a detenção?
Fiquei surpreendido. Acho que o caso contra ele é muito denso. O material divulgado é muito incriminatório. Está tudo lá, documentado. Mas não pensava que alguma ação seria tomada. Ainda tenho alguma cautela sobre se algo realmente vai acontecer. Acho que vão usar isso como uma forma de abafar o caso. O processo passa a ficar em segredo de justiça a partir do momento da detenção. E acho que vão usar tecnicidades para livrá-lo da acusação. Vão fingir que ele não era um funcionário público ou vão dizer que não conseguiram reunir provas suficientes. Quanto ao tráfico sexual, novamente, é muito difícil. É preciso encontrar as vítimas, convencê-las a tornar o caso público. Para mim a acusação mais óbvia é traição, porque ele divulgou segredos a uma potência estrangeira. E também acho que, se Peter Mandelson for acusado, será muito difícil não acusar André, porque eles estavam a fazer exatamente a mesma coisa.
E acredita que André será formalmente acusado?
Acho que podem acusar Mandelson. Esperava que Mandelson fosse preso antes que André, e que ele seria uma espécie de informante. Começariam por ele, e depois seguiriam com André. É interessante. Acho que o motivo pelo qual ele foi detido era pelo risco de fuga. E acho que estava prestes a desaparecer, e sabemos disso sobre Mandelson (que foi detido pelo risco de fuga). Mas foi por isso que fizeram aquela operação policial ao amanhecer. Foi por isso que bloquearam as saídas. Porque não faria sentido se ele estivesse apenas a ser interrogado.
André já previa a detenção? Estava preparado?
Sim, acho que ele estava pronto. Sei que desde o início de dezembro ele tem destruído documentos. Estava a livrar-se de provas Acho que estava muito ciente que algo iria acontecer.
O que os investigadores poderão ter encontrado nas buscas realizadas à Wood Farm e ao Royal Lodge?
Eu não sei. Claramente, ele deitou para o lixo pedaços de papel, mas se ele foi capaz de limpar discos rígidos, eu não sei. Talvez se tenha livrado dos computadores. Mas claramente haverá material nos computadores de outras pessoas, outras correspondências que ele possa ter guardado. E não sei se foram feitas buscas junto dos seus assistentes privados ou parceiros de negócios. E este material nos EUA parece ser um problema. Os americanos não querem partilhar com os britânicos, o que acho uma pena. Acredito que há muito em jogo no momento. É ainda um bocado incerto.
Acredita-se que a investigação começou depois da divulgação dos mais de três milhões de ficheiros do caso Epstein. Considera que há algo novo e potencialmente incriminador para André nesta última leva de ficheiros?
Sim, há muita informação nova. O facto de Epstein ter sido um ativo russo quase que confirma o que eu já havia descoberto, mas há mais evidências. Algumas das informações que André estava a divulgar a Epstein ou outros, informações comerciais sensíveis, algumas eu já sabia, mas outras não. E eu não tinha as fotografias. Sei que há muita coisa nova. Já tinha pequenos excertos de fontes, mas aqui temos tudo com emails e respostas, que são muito reveladoras. E acho que há muito mais. Há três milhões de páginas que não foram divulgadas. Há coisas rasuradas. Há material que a CIA tem, coisas que não foram passadas para o Departamento de Justiça. Talvez tenhamos mais vítimas a denunciar. O que eu tinha, consegui com a minha investigação. Portanto, isso é gigante, uma conspiração enorme. E eu acho que ainda há muito para se descobrir.
Neste momento há uma investigação acerca dos crimes financeiros. Mas por anos André foi escrutinado pelo comportamento sexual. André poderá ser responsabilizado por algum tipo de crime sexual?
É mais difícil porque é preciso encontrar vítimas e persuadi-las a vir a público. Mas sabemos pelos ficheiros revelados que várias mulheres foram traficadas para ele, e isto é apenas através daquilo que foi divulgado. Pode haver mais informações privadas onde haverá detalhes de mulheres que foram trazidas para ele. E talvez alguém venha a público. Acho que o problema é que há tão poucas condenações por crimes sexuais que as pessoas ficam relutantes em falar e atrair tanta atenção para não levar a uma condenação. E este poderá ser o problema.
Acha que as autoridades poderão ter algum pudor quanto a este tipo de investigação?
Acho que há muita pressão pública na polícia para que faça algo. E levantaram as expectativas com a detenção por crimes financeiros. Então acho que estão a investigar com cautela. Mas também acho que é muito difícil encontrar evidência suficiente para assegurar uma condenação.

Já mencionou a possibilidade da amizade entre André e Epstein ter sido explorada pelos serviços secretos russos ou chineses. Há algo que se possa desenvolver a partir destas conexões?
Estou a investigar. É interessante que outro jornalista, Tim Shipman, escreveu com base nas suas próprias fontes um artigo sobre o elemento da segurança nacional. Acho que o Telegraph também está a pesquisar sobre as conexões de André com os chineses. Acho que há mais para vir à tona sobre este tema. E eu suspeito que quem trabalhou nos serviços secretos sente que foi abandonado à própria sorte. Fizeram o seu trabalho e depois foram culpados por não o terem feito. Há mais a descobrir.
Fala-se muito nas ligações a Epstein, mas a verdade é que André teve outras amizades suspeitas, especialmente durante o período em que foi enviado comercial. Há alguma que considere pior do que a com Epstein?
A pior foi mesmo com Epstein. Acho que a amizade com Ghislaine não foi explorada totalmente, e vem de longe. Mas Epstein parecia ser um tipo de mentor que estava, de certa forma, a puxar os cordões a André. Podemos encontrar, por exemplo, outras amizades. André era muito próximo do Presidente do Azerbaijão e do Cazaquistão. É interessante. Pode haver mais a descobrir sobre estas amizades e o que ele estava a fazer. E se foi efetivamente recrutado como um ativo através de Epstein para os russos, então claramente adoraríamos saber mais sobre todas as conexões e pessoas por trás disso.
Entretanto este fim de semana os EUA atacaram o Irão. A guerra pode colocar o assunto Epstein e André à parte?
Questiono-me se a guerra não foi uma espécie de distração, porque claramente as pessoas estavam a chegar perto de Trump em algumas das acusações. Estavam a remover materiais dos ficheiros, depoimentos legítimos de vítimas. Apesar do ataque ao Irão parecer ter sido planeado há algum tempo, questiono-me se não foi uma forma de mudar a narrativa. Acho que Trump esteve muito envolvido com Epstein. Acho que a relação durou mais do que ele alega, que foi até 2008. Estaria interessado em ver o que poderia emergir. Só é preciso alguns denunciantes para entregar Trump. Como Pam Bondi, que viu os ficheiros, ou algum dos agentes do FBI que estão a rasurar os documentos. Tudo pode mudar. E acho que a família real nunca esperou que estes documentos fossem divulgados e isso os colocou em desvantagem. Agora eles precisam explicar muita coisa sobre o que sabiam sobre André, quando souberam e o que fizeram a respeito.
Se André não for preso, o que há para o seu futuro? Continuará a viver em Sandringham?
Acho que se ele for acusado, ele vai fugir, vai para outro país. E se não for acusado, também pode querer ir para fora, porque Sandringham não é o lugar mais excitante do mundo. Vai querer viver em algum lugar com mais sol e onde sofra menos escrutínio e seja melhor tratado. Neste momento, vive numa quinta modesta com apenas alguns funcionários. Acho que ele sente que tem o direito de viver num palácio com uma grande comitiva de pessoas. Não acho que vá viver os seus últimos dias em Sandringham.
E irá para onde?
É uma boa pergunta. Talvez o Médio Oriente. O problema é que acho que só iria com o apoio da família real. As autoridades, especialmente nos Emirados Árabes Unidos, ficariam preocupadas em acomodá-lo se não fosse o desejo da família real. Portanto o único lugar para onde poderia ir se “fugisse” e a família real estivesse à sua procura seria a China. Não o vejo a ir para a Rússia, mas seria para um país que não se importa com o que o Ocidente pensa, e não tenha um tratado de extradição. Essa é uma possibilidade. Mas quem pode saber o que se vai passar?
Os novos ficheiros Epstein também aprofundaram a relação de Sarah Ferguson com o criminoso sexual. Até que ponto Sarah pode ser envolvida na investigação?
O interessante é que os arquivos realmente prejudicam Sarah. Quer dizer, ela está claramente muito, muito mais envolvida do que as pessoas pensavam. Não sei se ela pode ser investigada. Quer dizer, talvez pela Receita e Alfândega de Sua Majestade… Mas como ela não é funcionária pública e não cometeu tráfico sexual… Mas claro que é uma testemunha importante. Deveria ser chamada para depor perante o Senado, e certamente deveria ser chamada se houver uma investigação neste país. Deveria ajudar a polícia com as investigações. Sarah estava frequentemente nas propriedades de Epstein, sabe exatamente o que André estava a fazer. Acho que pode haver um risco real de que ela, para salvar a própria pele, testemunhar contra o ex-marido.
Também há muitos rumores sobre onde estaria… Tem algum palpite?
Não. Houve histórias sobre ela estar na Irlanda, na Escócia, em algum lugar no continente… Não tenho ideia. A minha suspeita é de que não possa viajar tão facilmente, a não ser em jatos privados. Quem estará a pagar por isso? E o meu instinto diz que ela pode estar no Reino Unido, a viver discretamente com alguns amigos. Ela não é vista há dois meses, mas ainda tem alguns benfeitores ricos. Pode estar a aproveitar um spa na Tailândia. É um grande mistério, ninguém sabe.
Falou-se que poderia vir viver para a casa de Eugenie, em Melides, na Comporta…
Acho improvável que se mude para Portugal. Por mais bonito que seja. Acho que as suas filhas querem se distanciar dela. Acho que ela quer ser independente e em Portugal enfrentaria muito escrutínio da imprensa. Pelo bem das suas filhas, ela vai permanecer afastada.
E como ficam Beatrice e Eugenie dentro da família real?
Sabemos que estão a ser banidas de eventos particulares da realeza, como Ascot. A família real quer distanciar-se de toda a família Iorque. Talvez tenham informações que não são públicas. Talvez seja apenas um gesto de cautela. Mas não, eu acho que as irmãs foram descartadas. Elas percebem que qualquer associação com a realeza poderia prejudicar a imagem da família real.

Há mais algum membro da realeza que possa estar envolvido ou ser implicado?
É uma boa pergunta. Michael Wolfe, um jornalista (que escreveu a biografia de Trump, Fire & Fury), disse que viu fotografias de outros membros da família real com Epstein, que o próprio Epstein lhe mostrou. Não disse quem eram, mas a Rainha sempre apoiou muito André. Suspeito que Epstein a possa ter conhecido. E sabemos que pessoas como Peter Philips e Zara Philips estiveram envolvidos com outro homem chamado Johnny Hon, que esteve envolvido com Sarah Ferguson. Há a possibilidade. Se tivesse que arriscar, diria que os dois também estarão envolvidos. Soube no outro dia que um parente próximo de André, que é da família real, conhecia Epstein desde a metade da década de 1990, o que me surpreendeu. Mas ainda estou a tentar perceber esta história.
Ouviu falar sobre um livro de memórias de Ruthie Henshall sobre a sua relação com o príncipe Eduardo? Poderá ser de alguma forma prejudicial?
Ruthie Henshall já disse que será muito discreta. Claro que vai revelar algumas coisas, e pode avançar algo grande para vender o livro. Poderá falar sobre a sexualidade de Eduardo, mas estou apenas a especular, sobre o que já existem muitos rumores. Pode ter algumas histórias muito interessantes sobre ele, bastidores da sua personalidade. Então acho que ela pode chegar a um equilíbrio entre o gossip sem ser muito problemático.
Quando falámos em Agosto, disse que André não havia sido punido o suficiente pela família real. Entretanto, dois meses depois, perdeu os títulos e foi expulso do Royal Lodge. Considera que foi o suficiente?
Perdeu praticamente tudo. Quer dizer, ele é uma figura praticamente destruída. Mas acho que o importante é descobrirmos exatamente o que ele fazia como enviado comercial. Porque há um custo enorme para os cofres públicos, com a segurança dele e as despesas. Então acho que precisamos de uma investigação sobre isso. Acho também, pelo bem das vítimas, que precisa haver uma investigação adequada sobre o tráfico sexual. Sabe, essas raparigas não estavam a encontrar-se com ele de forma consensual. Então acho que ainda precisa ser responsabilizado pelo que fez. Mas a família real, bem, será que fizeram o suficiente? Simplesmente não sei. Quer dizer, estão a incentivar as pessoas a falar com a polícia? Estão a fornecer material? Estão a ser completamente transparentes sobre o que sabiam? Porque todas as evidências que recebi indicam que tinham muitas dessas informações e as encobriram.
Há dúvidas sobre a quantidade de informação que o Rei Carlos e inclusive a Rainha Isabel II teriam sobre o que André fazia. O que acha que realmente sabiam?
Sim. Mesmo que só lessem os jornais, havia histórias lá. Quando Sarah vendeu acesso a André em 2010, ou quando quantias de dinheiro inexplicavelmente foram pagas aos Iorque no caso Selman Turk em 2022, por que nada foi feito? Por que nada foi feito pelo Palácio, pelos políticos ou, até mesmo, pela polícia?
E por que acha que a família real fez algo em outubro do ano passado (quando Carlos III retirou todos os títulos do irmão)?
Acho que foram obrigados a agir por causa do peso do material que estava a ser divulgado. E ficaram preocupados com o que viria a seguir. Tornou-se insustentável. Houve muitas críticas ao Rei. Isso parece ser um gatilho para que façam algo. Acho que se tornou insustentável para eles permanecerem calados. Tinham que fazer algo. E acho que fizeram um pouco aqui, um pouco ali, na esperança de que seria suficiente. Mas tudo o que fizeram foi enervar o público, que sentiu que estavam a tentar proteger André. Acho que precisam de ser mais implacáveis na forma como lidam com ele.
Como avalia a reação da família real no dia da detenção?
Simplesmente continuaram como se nada tivesse acontecido. E acho que isso não é sustentável agora. Precisam de abordar algumas dessas questões. Acho muito lamentável que, quando a BBC lhes fez uma série de perguntas, perguntas perfeitamente normais, se tenham recusado a respondê-las. Acho que vão ter de fazer alguma coisa em breve. Quer dizer, acho que a indignação pública está a aumentar. Há uma sensação de que estão a encobrir algo e simplesmente não sabem o que fazer. Mas acho que é melhor para eles serem transparentes e assumirem as consequências agora do que deixar que tudo venha ao de cima mais tarde e parecer pior.
Sente que o caso teve impacto nas taxas de aprovação da monarquia?
As taxas de aprovação desceram. Onde caíram drasticamente foi no que diz respeito ao público com 30 anos ou menos, onde 79%, penso eu, são contra a família real agora. Depois, há muitos editoriais nos jornais a dizer que eles precisam de se modernizar. Podem até precisar de sair. Acho que é um momento bastante sério para a família real. Quer dizer, há uma sensação de que deveriam ter autoridade moral, mas na verdade são piores do que muitos criminosos. Existe corrupção financeira no seio desta instituição, que estava a ser basicamente encoberta pela anterior monarca e possivelmente pelo atual.
Já corre alguma pressão sobre o reinado de Carlos III e fala-se até numa potencial abdicação. Acredita que poderá chegar a este ponto?
Bem, eu costumava pensar que ele teria de aguentar. Acho que a sensação é que ele pode ser uma espécie de saco de pancada para levar todas as críticas. Pode fazer sugestões para as reformas que se avizinham. E William pode colocá-las em prática, levaria o crédito, sendo uma espécie de novo líder. Acho que pode ser a estratégia, mas tudo depende da saúde de Carlos. Quer dizer, se ele estiver tão doente como dizem, pode não sobreviver a este ano. E há rumores de que ele passará o trono a William voluntariamente, algures este ano.
E William será diferente?
De novo, é uma boa pergunta. Ele fala muito sobre mudança. Acho que reconhece a necessidade de mudança, mas a mudança significa transparência. E não acho que queira isso. Por exemplo, ele não diz ao contribuinte quanto paga na propriedade do ducado da Cornualha. Então não é particularmente aberto. Não tenho a certeza. Sei que ele quer ser responsável. É uma espécie de controlador quando se fala na administração do ducado da Cornualha. Então não tenho esperança que possa melhorar, a não ser que seja forçado a agir de modo a sobreviver.
Mas este ano reserva algum escrutínio para a família real. O Parlamento está a investigar os contratos de arrendamento das propriedades da coroa…
Sim, temos o Comité de Contas Públicas a olhar para os arrendamentos das propriedades da Crown Estate. E não é justo que Beatrice e Eugenie possam alugar acomodações nos palácios, já que não são membros sénior da realeza [Beatrice mantém um apartamento no Palácio de St. James, onde viveu até 2021; Eugenie ocupa uma residência no Palácio de Kensington, o Ivy Cottage]. Elas têm as suas próprias casas, têm os seus maridos ricos. Então acho que as pessoas vão saber e aquele comité deve fazer algumas recomendações sobre as propriedades da coroa.
Desde a publicação do livro recebeu muito material novo. Está a preparar uma nova edição?
Tenho de fazer a versão de bolso, que deve ser lançada em maio. Ainda não tive tempo sequer de escrever. Hoje estive a escrever uma versão mais curta para a edição polaca, para a atualizar. É uma história em movimento. E para ser honesto, tenho feito entrevistas e recebido novidades nos últimos meses. Não tive tempo para pesquisar e escrever mais nada. Acho que já vendemos também a versão portuguesa, e adoraria ir promover, mas neste momento sinto que o lançamento em Portugal está um pouco longe.
Também está a trabalhar na biografia de outro membro da realeza.
Sim, estava a trabalhar na história do príncipe Filipe, o pai de André. E gostaria de voltar a ela quando tudo isto acalmar. Mas o príncipe Filipe não é, de nenhuma maneira, tão escandaloso quanto o filho. Então será um livro bastante diferente.