Passaram quase três dias desde que os Estados Unidos lançaram o primeiro ataque que fez deflagrar uma guerra no Irão e que rapidamente alastrou ao resto do Médio Oriente. Mas essa guerra já tinha sido declarada por Teerão no final de 2025. “Estamos numa guerra total com os EUA, Israel e a Europa, eles não querem que o nosso país fique de pé”, declarou o Presidente do Irão, Masoud Pezeshkian no dia 27 de dezembro de 2026.
Apesar das acusações do chefe de Estado iraniano, os países europeus não estiveram envolvidos nos primeiros ataques lançados pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irão, na manhã de sábado — e os líderes fizeram questão de, nas suas reações, vincar essa posição. Mas essa realidade rapidamente se alterou. No domingo, o Reino Unido colocou aviões da Força Aérea (RAF) nos céus do Qatar, numa “patrulha aérea defensiva” para abater drones iranianos.
A segurança das tropas britânicas no Médio Oriente não é, contudo, a única preocupação de Londres. Esta segunda-feira, as autoridades do Chipre deram conta de duas tentativas de ataque com drones na base da RAF em Akrotiri, já no espaço europeu. Apenas um dos ataques foi bem sucedido, com “danos mínimos”, mas instalou-se a questão: pode a Europa, um dos aliados mais próximos dos Estados Unidos, ser arrastada para uma guerra no Médio Oriente?
Os interesses europeus não são apenas securitários, mas económicos e migratórios, destaca Ellie Geranmayeh, analista do programa do Médio Oriente e Norte de África no think tank ECFR, num artigo de análise. Uma guerra generalizada no Médio Oriente pode afetar o comércio global (com especial destaque para o aumento no preço dos combustíveis) e obrigar à deslocação forçada de milhares de pessoas desta região para a Europa.

Apesar de nenhum país da Europa estar particularmente interessado em ver uma guerra generalizada no Médio Oriente de novo, as reações à ofensiva norte-americana expuseram um continente fraturado, quer no seio da União Europeia (UE) quer nos outros membros europeus da NATO, como o Reino Unido e a Turquia. E essa divisão pode ameaçar uma já deteriorada relação transatlântica.
O dilema europeu. Os “defensores da ordem liberal” que querem ver o regime iraniano a cair
Quando, na manhã de sábado, os Estados Unidos e Israel atacaram o Irão, a informação não tinha sido transmitida à maior parte dos aliados europeus. Seguiram-se contactos para Washington, para tentar perceber qual o plano em marcha. A resposta foi de “confusão”, detalham responsáveis europeus ao Washington Post. A mesma reação tiveram responsáveis alemães, que tinham sido informados dos planos por Israel, mas procuravam obter detalhes junto dos Estados Unidos. “O nosso conhecimento é que os altos cargos em D.C. não sabem mais do que nós sabemos”, relatou um alemão ao jornal norte-americano.
A falta de aviso mostra o atual estado da relação transatlântica, que se tem vindo a deteriorar ao longo do segundo mandato de Donald Trump. Mas também revela a forma de fazer política externa do atual Presidente dos Estados Unidos. “Acho que nem lhe passou pela cabeça que devia consultar os europeus”, argumentou Kim Darroch ao New York Times. O antigo embaixador dos EUA no Reino Unido durante a primeira administração Trump considera, contudo, que esta falta de contacto se pode ter revelado positiva para os Estados europeus.
Isto porque, não tendo sido consultados, os líderes europeus não tiveram de declarar o seu apoio ou oposição inequívoca à operação. Ainda assim, este dilema continua a existir nas reações ao ataque e à generalização do conflito, aponta os especialistas. Por um lado, os países europeus não podem declarar abertamente um apoio férreo aos Estados Unidos, pois estariam a legitimar uma abordagem militarista de Washington em relação à Gronelândia e da Rússia em relação à Ucrânia. Em todos os casos, a Europa procura assumir-se como “defensora do Direito Internacional“, sintetiza um responsável europeu ouvido pelo Washington Post.
“Se estão a defender o princípio que os EUA e Israel não podem bombardear quem quiserem, como é que depois se viram e dizem ‘Isso não se aplica à Ucrânia’? Porque é que os Estados Unidos não deviam tomar a Gronelândia?”, pondera Vali Nasr, professor de relações internacionais na Johns Hopkins School of Advanced International Studies, ao New York Times, que critica a “incoerência” do continente em apresentar-se como “defensor da ordem liberal”.
Por outro lado, a maior parte da Europa não tem qualquer interesse em travar a operação dos Estados Unidos no Irão, porque isso não só afetaria as relações transtatlânticas, como impediria uma desejada queda do regime islâmico de Teerão. “Eles têm sido cuidadosos em não criticar os EUA porque, em último caso, eles também querem ver o regime iraniano fora da fotografia”, apontou Rachel Ellehuus, diretora do Royal United Services Institute, ao Washington Post.
Do apoio de Merz ao protesto de Sanchéz. Na União Europeia, a guerra é interna
Os três drones que, esta segunda-feira, visaram o Chipre não terão sido o primeiro “susto” na ilha mediterrânica desde sábado. No domingo, o ministro da Defesa britânico afirmou à Sky News que tinham sido intercetados dois mísseis balísticos iranianos a caminho da base da RAF. A informação rapidamente foi desmentida pelas autoridades cipriotas. Esta segunda-feira, responsáveis de Nicósia detalharam que os drones terão sido lançados pelo Hezbollah.
Os incidentes, ainda que menores, provaram que Teerão tem capacidade, pelo menos indireta, de atingir territórios europeus. O Chipre, que assume neste momento a presidência rotativa do Conselho da União Europeia, convocou para terça-feira uma reunião de Resposta Integrada a Crises Políticas, um formato que já foi utilizado depois de ser declara a pandemia de Covid-19 e depois da invasão da Ucrânia. Ainda assim, o Chipre fez questão de realçar que o alvo dos ataques foi a base britânica e não o país.

Esta reunião é mais uma numa sucessão de encontros desde que a guerra começou: esta segunda-feira, reuniu-se o Colégio de Segurança da Comissão Europeia; no domingo à tarde, os ministros dos Negócios Estrangeiros dos 27 estiveram reunidos de forma virtual durante duas horas e meia; e no domingo de manhã, os embaixadores dos 27 em Bruxelas já se tinham reunido para discutir o tema. A crise no Médio Oriente expõe a fragilidade militar que o bloco europeu tem vindo a tentar colmatar, argumentam responsáveis sénior ouvidos pelo Politico. Mas expõe também as divisões internas no seio da UE.
As duas reuniões de domingo foram particularmente desafiantes. Na reunião dos embaixadores, a Hungria, a voz dissonante da unidade europeia, decidiu focar-se nas suas queixas sobre o apoio à Ucrânia, relataram três diplomatas ao Politico. Na reunião dos chefes da diplomacia, o tema de discussão foi a inclusão de um apelo ao respeito pelo Direito Internacional, relataram quatro diplomatas presentes na reunião ao mesmo jornal. A reunião terá mesmo chegado a ser suspensa, devido à exigência de Espanha para que o tema da legalidade fosse incluído.
O protesto teve o apoio da Suécia, Irlanda, Dinamarca e Eslovénia, mas Madrid não ficou satisfeito com o compromisso final, relataram fontes do Executivo ao El País. Essa insatisfação ficou refletida na declaração do Executivo de Pedro Sanchéz, o único país dos 27 que, alinhado com a política externa que tem vindo a assumir, criticou inequivocamente o ataque dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão.
A maior parte dos países europeus assumiu uma posição intermédia, semelhante em tom ao comunicado assinado pelos 27. Esses países, entre os quais se conta Portugal, variam nos detalhes, mas seguem as mesmas linhas chave: uma condenação do regime iraniano e um apelo às desescalada. França pode ser incluída neste grupo, mas destaca-se pela variedade de ações que tomou. Por um lado, Paris enviou dois navios para reforçar a missão europeia no mar Vermelho e assinou uma declaração de “ações defensivas” com o Reino Unido e a Alemanha, por outro, convocou uma reunião do Conselho de Segurança. E apesar das preocupações com o Médio Oriente, o Presidente francês, Emmanuel Macron, não descurou a própria segurança europeia, focando-se na guerra na Ucrânia, e anunciando, esta segunda-feira, um reforço do arsenal nuclear francês.

Do outro lado do espectro está a Alemanha, o maior aliado de Israel na Europa e que se revelou muito próximo dos EUA. Friedrich Merz já tinha viagem marcada para Washington para um encontro com Donald Trump esta terça-feira, mas o chanceler alemão fez questão de sublinhar que a reunião não iria ser utilizada para criticar o Presidente norte-americano. “Não vamos dar lições aos nossos parceiros sobre os seus ataques contra o Irão. Apesar das dúvidas, partilhamos muitos dos seus objetivos, sem sermos capazes de os cumprir nós mesmos“, declarou, num apoio da ofensiva, mas que parece pôr de lado uma entrada em cena da Alemanha.
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Starmer aprendeu com “os erros do Iraque”, mas cedeu à pressão de Trump para utilizar Diego Garcia
Não é só nos Estados Unidos que a guerra no Irão faz agitar memórias da guerra no Iraque, em 2003. Na Europa, recorda-se agora a posição, igualmente fraturada, à invasão ordenada por George W. Bush. À data, Alemanha e França estavam lado a lado na oposição à guerra. O grupo europeu a favor da guerra era liderado pelo Reino Unido de Tony Blair.
Passados 23 anos, o primeiro-ministro que seguiu as suas pisadas em tudo o resto quer aprender com os seus “erros”. “Todos nos lembramos dos erros do Iraque e aprendemos com essas lições”, declarou Keir Starmer esta segunda-feira numa intervenção na Câmara dos Comuns. “Não estamos a juntar-nos aos ataques ofensivos dos Estados Unidos e de Israel”, declarou claramente. A confirmação chega depois de, durante o fim de semana, o Reino Unido ter abatido drones iranianos, ter dado permissões aos Estados Unidos para utilizar as bases britânicas e ter assinado uma declaração conjunta com Alemanha e França sobre a ação do grupo E3 na guerra.
“Vamos dar passos para defender os nossos interesses e dos nossos aliados na região, através de uma ação defensiva proporcional para destruir as capacidades iranianas de disparar mísseis e drones na origem”, pode ler-se no comunicado. Perante os deputados britânicos, Starmer detalhou que o acordo com os EUA para utilizar bases britânicas assenta na mesma garantia: de só serem utilizadas com propósitos defensivos. Isto inclui a destruição de depósitos e lançadores de mísseis iranianos, detalhou o chefe do Executivo.

“Não é possível travar todos os mísseis iranianos depois de terem sido lançados”, justificou, argumentando que a decisão foi tomada para proteger as vidas de milhares de britânicos que vivem ou estão a viajar nos países do Golfo. Porém, são de notar as várias pressões sobre Starmer para redefinir a posição britânica em relação à guerra. Internamente, o primeiro-ministro está debaixo de fogo pelos Verdes, à esquerda, e pelo Reform, à direita, os dois partidos que, na semana passada, atiraram o Labour de Starmer para o terceiro lugar numa eleição para um dos círculos eleitorais do Parlamento.
Zack Polanski, o líder dos Verdes, considerou ser “espantoso ter um primeiro-ministro que parece incapaz de fazer frente a Donald Trump”, classificando o ataque como “o fim do Direito Internacional”. “Eu não acho que o povo britânico quer ver outra guerra naquela região”, declarou à BBC, referindo-se à ferida aberta que o Iraque deixou no Reino Unido (e no Labour, em particular). Já Nigel Farage, líder do Reform, adotou um tom completamente oposto e afirmou que Starmer deve “apoiar os americanos nesta luta vital”.
Starmer vê-se ainda a braços com a pressão externa, dos Estados Unidos da América. Nas últimas semanas, o Presidente Trump pressionara Londres para deixar os Estados Unidos utilizar a base da RAF de Diego Garcia, em Chagos, no Oceano Índico. Starmer não cedeu — até este fim de semana, quando anunciou a permissão condicional. Mas isso não o livrou de novas críticas de Trump, que disse estar “muito desiludido” por Starmer ter “demorado tanto tempo” a dar a autorização. “Isso provavelmente nunca aconteceu entre os nossos países antes”, disse, em entrevista ao The Telegraph. Fica por ver se a pressão contínua de Trump — e de Farage — leva Starmer a ceder também na sua linha vermelha: a de ações ofensivas.
Turquia. O Aliado no Médio Oriente, o alvo improvável e o mediador disponível
Esta segunda-feira, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, pronunciou-se pela primeira vez sobre os ataques norte-americanos. “É muito importante o que os EUA estão a fazer, em conjunto com Israel”, declarou em declarações à televisão alemã em que esclareceu que “não há quaisquer planos” para a NATO se envolver no conflito “a não ser aliados individuais a fazerem o que podem para ajudar o que estão a fazer os americanos e os israelitas.” Rutte afasta assim o cenário que mais facilmente arrastaria a Europa para a guerra, atirando para as capitais da Aliança essa responsabilidade.

Para além da maior parte dos países da UE e do Reino Unido — que já marcaram posição — o flanco europeu da NATO inclui ainda as segundas maiores Forças Armadas da Aliança: a Turquia. A proximidade geográfica com o Irão e a presença de uma base militar norte-americana no país assemelham a Turquia ao Bahrain, ao Qatar, aos Emirados Árabes Unidos ou aos restantes países do Médio Oriente que, ao longo dos últimos dias, sofreram com a retaliação iraniana.
Porém, a Turquia é um alvo improvável para o Irão, concordam os especialistas. Precisamente por ser membro da NATO. Em caso de ataque, Ancara pode invocar o Artigo 5.º, que prevê uma resposta conjunta da Aliança a qualquer ataque contra um dos Estados-membros, um forte dissuasor. “O Irão não tem o incentivo estratégico nem a intenção de visar qualquer lugar na Turquia. O risco de uma ação assim seria extremamente elevado para Teerão, tanto política como militarmente”, argumentou Serhan Afacan, diretor do Centro de Estudos Iranianos de Ancara à AFP.
Porém, a Turquia tem um incentivo nacional particular para acabar com o conflito. O facto de partilhar mais de 500 quilómetros de fronteira com o Irão, torna o país no ponto de fuga de todas as pessoas que tentarem fugir a uma guerra no Médio Oriente a caminho da Europa — esta pressão migratória já se verificou durante a guerra civil na Síria. Esta segunda-feira, menos de três dias depois de a guerra ter começado, centenas de iranianos já tentaram passar a fronteira com a Turquia, relata a Reuters.
Em vez de um alvo, a Turquia assume-se, portanto, como uma mediadora. Essa mesma oferta foi feita pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros da Turquia na sua primeira reação aos ataques norte-americanos, em que apelou ao diálogo. Na sequência da resposta iraniana, o ministro turco encetou comunicações com o Irão, mas também com o Iraque, a Arábia Saudita, o Qatar, a Síria, o Egito e a Indonésia. “O Irão continua a valorizar o potencial papel da Turquia numa desescalada e mediação diplomática. Visar a Turquia podia minar um canal num momento em que o diálogo é crucial”, rematou Afacan.