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Um pacemaker na espinal medula pode tratar um cancro? Equipa integrada por português vai investigar o cérebro para descobrir

Henrique Veiga-Fernandes lidera laboratório na Champalimaud que integra projeto inédito. Nove instituições vão investigar como cérebro deteta e reage a tumores, abrindo caminho a terapias inovadoras.

Martim Andrade
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Sabemos que o cérebro está em constante diálogo com o sistema imunitário, mas que papel tem na deteção de um tumor noutra parte do corpo? É uma questão que é colocada frequentemente, mas só agora é que será estudada. Nos próximos cinco anos, nove laboratórios espalhados pela Europa e pelos Estados Unidos da América vão procurar a resposta a esta e outras questões, num estudo inédito e que lhes garantiu um financiamento de 25 milhões de dólares (21,4 milhões de euros). Um dos envolvidos é Henrique Veiga-Fernandes, que lidera o seu laboratório na Fundação Champalimaud, em Lisboa: a única representação portuguesa neste projeto.

A bolsa foi garantida ao consórcio InteroCANCEption no âmbito do Cancer Grand Challenges, uma iniciativa que visa promover a investigação sobre “os desafios mais complexos” relacionados com o cancro e que é financiada pelo Cancer Research UK e pelo National Cancer Institute dos Estados Unidos. O projeto, apesar de só começar oficialmente no primeiro dia de maio na estrutura organizada deste consórcio, já vem de “há uns bons quatro ou cinco anos”, afirma Henrique Veiga-Fernandes.

Enquanto uns exploravam a atuação do cérebro em casos de inflamação crónica ou outros fatores de risco para o cancro — como é o caso do laboratório português —, outros, em paralelo, começaram a notar “certas alterações que ocorrem a nível dos sinais cerebrais” em determinados tipos de cancro. “Isto implicava, logo à partida, que o cérebro é capaz de sentir o cancro que está a acontecer em diferentes partes do organismo. Mesmo sem sintomas, a pessoa não sabe que está com cancro, mas o cérebro já sabe“, admite o investigador português ao Observador, referindo que foi com esta conclusão que as diferentes instituições decidiram aliar-se e juntar o conhecimento nesta área.

“Queremos perceber, em primeiro lugar, como é que o cérebro percebe ou sente o cancro, mas também como é que depois reage a esse estímulo. Por exemplo, quando estamos a cozinhar e, sem crer, tocamos numa frigideira quente, a reação de retirar o dedo é imediata, ocorre numa fração de milésimos de segundo. Isto acontece de forma consciente, porque sentimos a dor e há uma reação quase automática. E nós achamos que é exatamente a mesma coisa que o cancro, só que é absolutamente silencioso, principalmente nas fases iniciais”, explica o especialista, referindo que é com esta “investigação fundamental” que esperam abrir portas à descoberta de “terapias completamente inovadoras” no tratamento de diferentes tipos de cancro.

Mas, até lá, o grande objetivo desta investigação é mesmo “criar conhecimento que ainda não existe”. Por um lado, vão procurar perceber de que forma é que o cancro e o cérebro estão ligados e, de forma terapêutica — talvez ainda mais importante, como reforça o investigador — descobrir como é que o cérebro comunica com o resto do corpo e reage ao desenvolvimento do tumor.

Fazendo um paralelismo com o cenário de devastação que aconteceu em Portugal há pouco mais de um mês, Henrique Veiga-Fernandes esclarece que as redes neuronais, no nosso corpo, são como os fios elétricos e comunicações que ficaram desorganizados e afetados na sequência do comboio de tempestades que abalou o país. Com esta investigação, pretendem descobrir quais são “os fios” que ficam afetados pelo tumor e, neste caso, de que forma é que a informação propagada pelos neurónios é alterada — e como é lida quando chega até ao local de incidência do cancro.

Medicamentos “new in class” ou um “pacemaker para o cancro”: o que poderá sair deste estudo?

Para o primeiro ano do consórcio, a começar no dia 1 de maio, os objetivos estão bem definidos. “Primeiro, temos os pilares. Temos de perceber quais são as áreas do cérebro que sentem os diferentes tipos de cancro que vamos estudar e, dentro dessas zonas, quais é que são os neurónios que são responsáveis por sentir o cancro”, explica o investigador da Fundação Champalimaud em declarações ao Observador.

Ao mesmo tempo que decorre esta análise nas diferentes instituições, vão procurar estudar quais são os sinais neuronais que alteram a resposta do sistema imunitário em órgãos específicos onde se podem instalar os tumores. Ou seja, o grupo internacional de investigadores vai tentar decifrar quais são os neurónios que estimulam o sistema a ativar e lançar contra o cancro os glóbulos brancos especializados no combate de células tumorais. “E isto, com certeza, iremos conseguir atingir entre o primeiro ano, ano e meio”, garante Henrique Veiga-Fernandes.

Depois disso, os objetivos continuam definidos, mas poderão evoluir consoante o progresso que for feito nos laboratórios. Apesar de não ser o objetivo central destes próximos cinco anos de investigação, o português assume que ao desvendarem os circuitos neuronais e aprofundarem a comunicação entre o sistema nervoso e o cancro, abrem-se as portas para chegarem indiretamente a “três potenciais eixos terapêuticos”.

"Esta espécie de pacemaker para o cancro é, na realidade, um neuroprostético, um chip muito pequenino que é inserido em zonas muito precisas da espinal medula e que nos permite fazer descargas elétricas para os neurónios, ou seja, os nervos, que vão depois enervar o órgão onde está o cancro e estimular a resposta imunitária"
Henrique Veiga-Fernandes, investigador na Fundação Champalimaud

Os dois primeiros são “processos que acabam por ser centrados na identificação de substâncias produzidas pelos neurónios”, explica o investigador. “Passa por sabermos qual é a molécula que temos de atacar e desenvolvemos novos fármacos para aqueles alvos”, acrescenta, referindo que existem já alvos que estão em fase pré-clínica, mesmo antes de começar o projeto. Num dos casos, a solução passa por utilizar “substâncias neuronais alteradas para regular diretamente o cancro”. No outro, a manipulação direta dos nervos.

“Daqui a três ou quatro anos, um oncologista pode dizer a alguém com cancro: ‘Vamos meter aqui uma droga para alterar o seu sistema nervoso’. A pessoa ficaria a perguntar, confusa, ‘o que é isto’? Mas é deste género de coisas que estamos a falar, o chamado new in class“, conta Henrique Veiga-Fernandes.

O terceiro “eixo terapêutico” é onde o consórcio tem os “resultados preliminares mais tangíveis”. Mesmo antes do grande projeto ter início nos próximos meses, cada grupo de investigação traz para cima da mesa anos de preparação sobre o tema. Nesse sentido, um dos laboratórios, na Suíça, começou a desenhar “próteses neuronais”, com o objetivo de “alterar o fluxo elétrico nos neurónios”. No fundo, é um “pacemaker para o cancro”, como explica o investigador.

“O pacemaker permite sincronizar a atividade cardíaca, de maneira a restabelecer a função que é necessária para os batimentos normais, para pessoas com insuficiência ou problemas cardíacos. Aqui, o objetivo é semelhante. Esta espécie de pacemaker para o cancro é, na realidade, um neuroprostético, um chip muito pequenino que é inserido em zonas muito precisas da espinal medula e que nos permite fazer descargas elétricas para os neurónios, ou seja, os nervos, que vão depois enervar o órgão onde está o cancro e estimular a resposta imunitária”, descreve.

Pode parecer ficção científica, mas não é“, garante o líder do grupo de investigação português, referindo que esta metodologia já é utilizada pelo mesmo laboratório suíço para a correção da marcha de doentes de Parkinson e paraplégicos. “É fazível e já temos a prova do conceito em modelos pré-clínicos”, acrescenta. No fundo, estes implantes ou chips iriam servir para estimular eletricamente a resposta do sistema imunitário no local onde o tumor se instalou.

Especialistas em cancro, neurocientistas e responsáveis por próteses. Quem é quem no consórcio InteroCANCEption

25 milhões de dólares (cerca de 21,4 milhões de euros), nove instituições e em cinco anos. No mundo da investigação científica, consórcios desta dimensão não são incomuns. Todos os laboratórios vão trabalhar de forma autónoma, cada um com a sua missão que ficou definida a priori, mas sempre com o mesmo objetivo: perceber como o cérebro perceciona o cancro. E, para alcançar esta meta, é preciso uma grande coordenação, flexibilidade, e um acompanhamento constante.

“O projeto arranca no dia 1 de maio, a divulgação é esta quarta-feira e, depois disso, começa logo com várias iniciativas tanto na nossa instituição [Fundação Champalimaud] como noutras. Aliás, temos já várias reuniões agendadas, umas presenciais outras não. Uma será no final do mês de junho, em Londres”, conta ao Observador o investigador principal do laboratório português. As reuniões serão “regulares” e as tarefas e objetivos vão ser ajustadas de acordo com os resultados que vão obtendo em cada fase do projeto.

Sendo um “desafio tão grande”, mas um tema “tão geral”, o consórcio InteroCANCEption (do inglês interoception — conceito que define a perceção do cérebro sobre o resto do corpo —, misturado com cancer), decidiu espalhar diferentes temas pelos diferentes laboratórios. Como existem mais do que nove tipos de cancro diferentes, decidiram centrar-se no pâncreas, no intestino e no pulmão — trabalho este que será o foco na Fundação Champalimaud.

"Isto não é uma soma das partes. É mais do que isso, é algo em que nos podemos complementar com o nosso conhecimento, com uma ideia direcionada. Alguns neurocientistas que estão neste consórcio nunca trabalharam em cancro, mas a informação que têm é extremamente relevante para aquilo que vamos fazer"
Henrique Veiga-Fernandes, investigador na Fundação Champalimaud

A divisão dos trabalhos “foi muito simples e natural”, descreve Henrique Veiga-Fernandes. “Porque este é um consórcio verdadeiramente multidisciplinar“, acrescenta. A especialização do laboratório português é a imunologia, outro, em Harvard, está também dedicado ao estudo das interações do sistema nervoso com o sistema imunitário. Dois outros grupos, um em Harvard outro na Universidade de Columbia, focam-se no estudo fundamental do cérebro, incidindo especialmente sobre este fenómeno de “interoception“.

Há ainda dois laboratórios, um no Reino Unido e outro nos EUA, cujo foco é “a biologia do cancro“. Para além destes, como continua a contar o investigador, outros focam-se em regulação genética — o que será “muito importante para o projeto”— e no desenvolvimento mais tecnológico, dando o exemplo das próteses e do potencial “pacemaker do cancro” que exemplificou previamente.

“Isto não é uma soma das partes. É mais do que isso, é algo em que nos podemos complementar com o nosso conhecimento, com uma ideia direcionada. Alguns neurocientistas que estão neste consórcio nunca trabalharam em cancro, mas a informação que têm é extremamente relevante para aquilo que vamos fazer”, acrescenta, sublinhando a verdadeira natureza multidisciplinar deste projeto internacional.

Daqui a cinco anos, que tipo de resultados podem esperar-se deste consórcio?

Naquela ilha com vista para o jardim da Fundação Champalimaud, o laboratório de Henrique Veiga-Fernandes vai estar ocupado a estudar as interações dos neurónios em casos de cancro do pâncreas, pulmão e intestino. Afinal, é no edifício ao lado que se situa o primeiro centro de tratamento e investigação exclusivamente dedicado ao cancro pancreático, o mais letal.

“Nós trabalhamos, essencialmente, com dois modelos. Um modelo que é o modelo pré-clínico, que é o ratinho, que tem enormes vantagens. Tem o sistema imunitário muito próximo do sistema humano, bem como o sistema nervoso. E o facto de termos modelos de tumor que têm mutações exatamente idênticas às que acontecem no caso dos tumores humanos também é importante”, explica o investigador ao Observador.

Mas para além dos ratinhos — e é aqui também que entra a ligação ao centro de tratamento da Fundação Champalimaud — Henrique Veiga-Fernandes e a sua equipa fixa de cerca de cinco elementos têm acesso a um número elevado de doentes oncológicos que serão importantes para validar as descobertas feitas no modelo pré-clínico. Por isso, ao longo dos cinco anos, será feita a passagem do rato para o humano, para garantir que as primeiras conclusões do estudo podem traduzir-se, eventualmente, numa das aplicações idealizadas na conceção do projeto, dentro do prazo inicialmente delineado para o financiamento.

Mas os cinco anos nunca são só cinco anos, como adverte o especialista. “O projeto, na realidade, não vai terminar ao fim de cinco anos. O que vai terminar ao fim de cinco anos é o apoio financeiro do Cancer Grand Challenge, porque todos nós estamos convencidos que o que vamos desvendar vai ser a semente, quer para os nossos grupos, quer para muitos grupos do mundo inteiro, poderem continuar a desenvolver este tema”, refere Henrique Veiga-Fernandes, prevendo uma expansão das futuras conclusões aplicadas a outro tipo de doenças, como as doenças autoimunes ou metabólicas. “Será um aspeto extraordinariamente importante”.

“O que é que nos vai permitir dizer que este foi um projeto com imenso sucesso? Se nós conseguimos, de facto, ao final de cinco anos, descobrir aquilo que são os princípios fundamentais e algumas das regras que governam o processo pelo qual o cérebro deteta o cancro e reage, já era, por si só, um enorme avanço”, confessa o investigador, que revela estar “convencido” que o projeto será um sucesso.

A partir do momento em que souberem quais são os neurónios ou as substâncias que participam ativamente no processo de deteção do cancro a comando do cérebro, os investigadores podem passar para uma ação mais direta: perceber onde vale a pena investir do ponto de vista terapêutico. “Ao percebermos este caminho, acabamos por descodificar a linguagem que é utilizada para a comunicação entre o sistema nervoso, sistema imunitário e cancro, e, a partir daí, é que se podem desenvolver novos fármacos”, reforça.