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Prazos da operação militar, a nova liderança do Irão e os soldados americanos mortos. As contradições dos telefonemas de Trump

Presidente não fez conferência de imprensa, mas telefonou a jornalistas. Houve contradições sobre prazo da operação, quem assumirá o poder no Irão e se se justificam as mortes de soldados americanos.

Cátia Bruno
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Donald Trump falou aos norte-americanos numa mensagem pré-gravada no sábado, para anunciar a operação militar contra o Irão. Foi preciso esperar até à tarde desta segunda-feira para dar uma conferência de imprensa.

Mas ao longo do fim de semana, o Presidente norte-americano falou à mesma com a imprensa, embora num formato muito diferente. Desdobrou-se numa série de telefonemas a vários jornalistas, quase sempre de menos de dez minutos, onde explanou as suas ideias para o Irão. Aquilo que as chamadas revelaram, no entanto, foi sobretudo uma série de contradições — desde quanto tempo durará a operação, até à solução que deseja para substituir o regime, passando pela justificação da morte de soldados americanos.

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Trump foi criticado por muitos na opinião pública do país por não explicitar os planos que tem. “Tipicamente”, notou a correspondente na Casa Branca da CNN, Kaitlan Collins, os discursos dos presidentes são feitos “em frente à pool de jornalistas da Casa Branca” — sobretudo quando se trata de uma guerra. Também não houve qualquer discurso a partir da Sala Oval dirigido diretamente aos norte-americanos, como é habitual.

Os aliados do Presidente, porém, têm defendido a opção de comunicar de forma direta pelas redes sociais e pelos telefonemas espontâneos a jornalistas. “Não há melhor comunicador do que o nosso Presidente”, declarou o secretário da Defesa Pete Hegseth. Já o diretor de comunicação de Trump, Sten Cheung, considerou que um discurso na Sala Oval seria só mais um exemplo “das políticas falhadas do passado”.

No domingo voltou a dizer aos britânicos Daily Mail e The Times que "sempre foi um processo de quatro semanas". No mesmo dia, num telefonema para a NBC, declarou que a campanha estava a decorrer "mais rápido do que o previsto".

Mas o que disse então Donald Trump aos jornalistas ao longo deste fim-de-semana?

Os prazos. Acabar com tudo “em dois ou três dias” ou pelo menos em “quatro a cinco semanas”?

No domingo, Trump falou com o New York Times e deu um prazo concreto para a operação: “Quatro a cinco semanas”. “Não será difícil [derrubar o regime]”, acrescentou. “Temos quantidades de munições tremendas. Vocês sabem, temos munições armazenadas em todo o mundo, em diferentes países.”

No telefonema de cerca de seis minutos, o Presidente não explorou os avisos do Pentágono de que as reservas militares norte-americanas podem ficar em baixo se o ritmo e a intensidade dos ataques se mantiver como está.

Porém, no dia anterior, Trump tinha dito ao Axios que havia a possibilidade de o conflito ser curto ou prolongado. “Posso demorar e tomar conta daquilo tudo ou posso acabar com aquilo em dois ou três dias.” Numa conversa de cinco minutos, o Presidente disse ter “várias rampas de saída” e apontou outra diferente: “Posso dizer aos iranianos ‘Vemo-nos daqui a uns anos se voltarem a reconstruir’ [o programa nuclear].”

No dia seguinte, explicitou à Fox News que estaria em curso a primeira opção, dizendo que a guerra “está a avançar rapidamente”. Mas eis que no domingo voltou a dizer aos britânicos Daily Mail e The Times que “sempre foi um processo de quatro semanas”. No mesmo dia, num telefonema para a NBC, declarou que a campanha estava a decorrer “mais rápido do que o previsto”.

Continua por esclarecer qual a duração prevista para a operação pela Casa Branca.

A substituição do regime. Solução negociada como a da Venezuela ou tomada do poder pelo povo iraniano?

O futuro do regime iraniano é outra incógnita para a qual nem o Presidente norte-americano parece ter uma resposta concreta.

"A maioria dessas pessoas [que podiam negociar] estão mortas. Algumas das pessoas com quem estávamos a lidar estão mortas, porque aquilo foi um grande ataque", admitiu ao jornalista Michael Scherer da revista Atlantic. "Deviam tê-lo feito mais cedo, Michael. Eles podiam ter conseguido um acordo. Deviam tê-lo feito mais cedo. Armaram-se em engraçadinhos."

No domingo, Donald Trump enumerou uma série de possibilidades à NBC: “Há muitos resultados que são bons. O primeiro é decapitá-los e livrarmo-nos dos assassinos e dos rufias. E há muitos, muitos resultados. Podemos fazer a versão curta ou a mais demorada.”

Já na conversa com o New York Times, que decorreu no mesmo dia, Trump mostrou-se mais inclinado para um cenário de substituição dos atuais líderes iranianos por outras figuras do regime dispostas a colaborar com os Estados Unidos: “Aquilo que fizemos na Venezuela, acho eu, é o cenário perfeito.”

E, no entanto, o próprio admitiu noutros telefonemas com jornalistas precisamente no mesmo dia que essa hipótese pode estar excluída, por essas figuras terem também sido mortas nos ataques. “A maioria dessas pessoas [que podiam negociar] estão mortas. Algumas das pessoas com quem estávamos a lidar estão mortas, porque aquilo foi um grande ataque”, admitiu ao jornalista Michael Scherer da revista Atlantic. “Deviam tê-lo feito mais cedo, Michael. Eles podiam ter conseguido um acordo. Deviam tê-lo feito mais cedo. Armaram-se em engraçadinhos.”

Não foi apenas um deslize. Também no domingo, Trump repetiu essa informação a Jonathan Karl, da ABC: “O ataque foi tão bem sucedido que afastou a maioria dos candidatos”, afirmou o Presidente. Avançou, contudo, que foi contactado por uma figura do regime disposta a colaborar, mas recusou dizer quem é. “Provavelmente não devia dizer-lhe, mas é alguém que sobreviveu. Alguém que já não reporta ao Líder Supremo.”

https://twitter.com/jonkarl/status/2028299468223676673

Num cenário de transição liderado por iranianos que colaboram com os norte-americanos, Trump esclareceu ao New York Times que a Guarda Revolucionária — a ala mais dura do regime, que controla as forças militares — iria depor as armas e entregá-las ao povo iraniano. “Deviam render-se ao povo, se pensarmos sobre isso”, desabafou.

Outra contradição em que Trump tropeçou foi precisamente sobre se os iranianos deveriam ou não sair às ruas para tentar tomar o poder. Ao canal MS Now, num telefonema de menos de um minuto, o Presidente considerou “fantásticos” os festejos de alguns iranianos nas ruas pela morte de Ali Khamenei. Mas, no mesmo dia, considerou que na verdade era melhor ficarem em casa. “É muito perigoso e disse a toda a gente para ficar onde está — aquele é um lugar muito perigoso agora”, declarou à Atlantic. “As pessoas lá estão aos gritos de felicidade nas ruas, mas, ao mesmo tempo, há muitas bombas a cair.”

A possibilidade de os iranianos virem mais tarde a sair às ruas e tomar o poder parece ser algo visto com bons olhos por Trump, que sublinhou ao New York Times como agora vão ter essa “oportunidade” — muito embora isso não se coadune com a estratégia de transferir o poder para outras figuras do regime que colaborem com os EUA.

Em 2011, em plena presidência de Barack Obama, Trump criticou diretamente o Presidente pelo risco de um conflito aberto com o Irão. "O nosso Presidente vai começar uma guerra com o Irão, porque ele não tem nenhuma capacidade de negociar. É fraco e ineficaz."

Na mesma entrevista, o Presidente usou linguagem dura contra o regime dos ayatollahs, mas mostrou-se disponível para negociar e levantar sanções. “Não me comprometo com uma coisa ou outra, é demasiado cedo”, resumiu.

As mortes dos soldados. “É mesmo assim” ou é o regresso das “guerras eternas”?

Num dos vídeos que publicou nas redes sociais ao longo deste fim-de-semana, o Presidente assumiu abertamente que pode haver mais mortes de soldados norte-americanos, mas que a guerra “é mesmo assim”. “Provavelmente vai haver mais, vamos fazer tudo o que é possível, mas não será assim. A América irá vingar as suas mortes.”

Também na entrevista à NBC deste domingo, Trump assumiu que são de esperar mais mortes, mas que valerá a pena. “Temos três e esperamos mais, mas no final vai ser uma coisa em grande para o mundo”, disse.

O discurso contrasta fortemente com aquele que adotou em três campanhas eleitorais, onde criticou uma e outra vez a morte de soldados norte-americanos em conflitos no Médio Oriente, que classificou como “guerras eternas”. “Fui eleito para nos tirar destas ridículas guerras sem fim, onde o nosso grande Exército faz operações de policiamento para beneficiar pessoas que nem sequer gostam dos Estados Unidos”, escreveu num tweet em 2019. Agora, o Presidente afirma que é necessário intervir para libertar os iranianos do atual regime, mesmo que morram soldados do seu país.

Em 2011, em plena presidência de Barack Obama, Trump criticou diretamente o Presidente pelo risco de um conflito aberto com o Irão. “O nosso Presidente vai começar uma guerra com o Irão, porque ele não tem nenhuma capacidade de negociar. É fraco e ineficaz.”

A ideia de acabar com intervenções militares norte-americanas foi invocada por Trump no exemplo da guerra do Iraque, que considerou que “desestabilizou o Médio Oriente”. Em 2016, o à altura candidato à presidência classificava aquele conflito como “um grande e gordo erro”. “Todos cometemos erros, mas aquele foi uma beleza. Nunca devíamos ter estado no Iraque.” Isto apesar de, noutra contradição ao longo dos anos, em 2002 ter dito que apoiava a invasão.

O homem que sempre se afirmou contra “as guerras eternas” no Médio Oriente protagoniza agora um novo conflito na região onde assume as mortes de soldados como possíveis danos colaterais. Questionado numa das entrevistas rápidas por telefone que deu, Trump disse não temer que isso prejudique o Partido Republicano nas eleições intercalares de novembro. “Temos a melhor economia que alguma vez tivemos”, disse a Michael Scherer, da Atlantic. “Só não se fala disso porque pessoas como você não escrevem sobre isso como deve ser. Mas a economia está pronta para explodir. Em muitos casos, já está [a explodir].”