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Ataque, retaliação e contágio. O que está em risco no Estreito de Ormuz e quem é mais afetado em 11 respostas

O Estreito de Ormuz, controlado pelo Irão, é estratégico, mas está bloqueado. A Ásia pode ser a mais afetada no acesso ao gás e petróleo, mas a Europa não escapa a preços mais caros.

Ana Suspiro
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Os efeitos do ataques contra o Irão e a resposta que alastrou por todo o Médio Oriente vão muito além da subida dos preço do petróleo e do gás natural. A disrupção afetou logo a aviação e ameaça a fluidez do comércio mundial de mercadorias. Há países e regiões mais expostos ao risco, mas nem que seja pela via do aumento dos preços, os efeitos serão globais. A dimensão dos efeitos vai depender sobretudo do tempo que demorar este cadeia de ataques e retaliações.

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O que é o Estreito de Ormuz?

É um corredor marítimo que liga o golfo Pérsico ao Mar Arábico no Oceano Índico. O braço de mar com a largura média de 50 quilómetros que separa o sultanato de Omã e o Irão, países que dividem a soberania do canal, através de um acordo de 1974. É uma via incontornável para ligar os produtores de petróleo e gás do golfo pérsico, nomeadamente a Arábia Saudita, o Iraque, o Kuweit, o Bahrain, o Qatar e os Emirados Árabes Unidos, aos consumidores de todo o mundo.

Desde o início deste século que o Irão assumiu uma política dissuasora sobre a navegação do estreito, usando drones militares, submarinos e navios armados a partir de Bandar Abbas, para controlar e pontualmente atacar os navios. Estes meios são controlados pela guarda da revolução.

Qual é a importância do Estreito de Ormuz no comércio mundial de petróleo e gás?

Vários dados internacionais indicam que este estreito é a porta de saída de um quinto da produção mundial de petróleo e gás natural liquefeito (que é transportado por navio).

https://observador.pt/especiais/o-caminho-maritimo-pelo-estreito-de-ormuz-que-o-irao-quer-bloquear-a-importancia-desta-rota-no-comercio-do-petroleo-e-do-gas/

Dados citados pela consultora Kpler num relatório de 1 de março indicam que cerca de 30% do petróleo mundial passa pelo estreito. As percentagens variam consoante o produto refinado. Desde pouco mais de 10% no gasóleo até quase 20% no jet usado na aviação, onde, segundo a consultora Kpler, a dependência europeia é mais expressiva.

O Estreito de Ormuz está fechado?

Oficialmente o Irão diz que o encerrou esta segunda-feira à noite, ameaçando disparar sobre navios que desafiem a proibição. Mas já antes tinha avisado os navios para evitarem o estreito. Um aviso que foi levado muito a sério e que na prática bloqueou o tráfego comercial desde domingo.

Na prática e por razões de segurança, os navios de carga e de passageiros ficaram parados, evitando a zona mais problemática. Alguns ficaram nos portos e outros no mar.

Segundo a Reuters, esta cadeia de ataques e retaliações gerou danos em pelo menos cinco petroleiros e levou mais de 200 navios a pararem marcha antes de atravessar o estreito. Esta segunda-feira, haveria 150 embarcações “encalhadas” entre petroleiros e navios de gás natural liquefeito no Estreito de Ormuz.

As seguradoras das embarcações cancelaram a cobertura de risco por guerra. O que significa que embora declarado “aberto” o trânsito pelo Estreito já era evitado.

Qual é a importância deste canal para a Europa?

Apesar de ser a porta de saída para cerca de um quinto das cargas de petróleo e gás natural liquefeito consumidos a nível mundial, o Estreito de Ormuz não é especialmente relevante nas compras de energia da Europa. A dependência europeia era de 12% no gás natural liquefeito e de 9% no petróleo, de acordo com um relatório de julho passado sobre a segurança energética elaborado pelo IRIS (instituto francês de Relações Internacionais e Estratégicas).

Esta dinâmica não mudou muito com a guerra da Ucrânia, uma vez que os países europeus procuraram no ocidente e, em particular nos Estados Unidos, a alternativa ao gás russo que vinha por gasoduto. Ainda assim, a Europa é compradora de gás ao Qatar que encerrou a produção esta segunda-feira.

https://observador.pt/especiais/europa-foge-do-gas-russo-para-cair-na-dependencia-do-gas-liquefeito-dos-estados-unidos/

Qual é a dependência de Portugal do estreito de Ormuz?

Os valores das importações de produtos de petróleo até ao final do ano mostram que o mercado nacional está pouco exposto diretamente ao Golfo Pérsico. Dados avançados ao Observador pelo Instituto Nacional de Estatísticas indicam que Brasil, Espanha e Estados Unido são os principais fornecedores de petróleo e derivados, como o GPL e betumes. No top dez dos países a quem Portugal mais compra estão ainda a Nigéria, a Argélia, os Países Baixos e o Azerbaijão. O Kuwait e a Arábia Saudita são o oitavo e 11.º fornecedores, respetivamente. No gás natural, Portugal deixou de receber cargas do Qatar há alguns anos e tem como grandes fornecedores a Nigéria e os Estados Unidos.

Nas últimas semanas, e quando já se sabia que o ataque ao Irão iria acontecer, a Galp evitou contratar cargas que passassem pelo Estreito de Ormuz.

https://observador.pt/2026/03/02/conflito-no-golfo-pode-ter-outros-impactos-a-prazo-para-alem-dos-precos-galp-esta-em-contacto-com-o-governo-e-prepara-cenarios/

Que países serão mais afetados?

O mercado asiático. De acordo com dados de 2023, citados num relatório da consultora IRIS, 70% do petróleo e 80% do GNL transportados por aquela passagem tinham como destino aquele continente. A consultora Kpler, num relatório de 1 de março, indica a Índia como sendo o país com maior risco no curto prazo, seguido da China cuja exposição pode ser mitigada pela grande quantidade de reservas estratégicas que acumulou. Para ultrapassar esta falta, os dois gigantes asiáticos irão virar-se para a Rússia, em particular a China que estava a moderar as suas compras ao regime de Putin. A Rússia poderá assim vir a revelar-se um dos vencedores desta crise. O Japão é um dos países que tem cargas bloqueadas no acesso ao Estreito de Ormuz, confirmou uma fonte do Governo de Tóquio à Reuters que afasta para já o recurso às reservas estratégicas.

No que toca às cargas de gás natural liquefeito produzidas nos países do Golfo, os clientes da Ásia voltam a ser apontados como os que podem sofrer mais, em particular o Paquistão, o Bangladesh e a Índia. A China e o Japão são os dois maiores importadores de gás natural liquefeito, mas este último país tem contratos com a Austrália e reservas para várias semanas de consumo.

E qual é o maior risco? Abastecimento ou preço?

Longe de ser uma situação controlada, como aconteceu nos ataques mais localizados nos alvos e no tempo (feitos em junho do ano passado contra o Irão), este conflito já alastrou a praticamente todos os países do Golfo, e o impacto no preço será inevitável. A dimensão desse impacto vai depender do tempo que demorar a restabelecer alguma normalidade nas operações de produção e transporte de produtos energéticos a partir da região.

Mas pode estar em causa mais do que o preço. Os analistas avisam que a disrupção na cadeia de fornecimento é física. Ou seja, há um bloqueio efetivo ao comércio por via marítima de produtos energéticos, e não só, à qual se junta a suspensão de produção em algumas instalações. O Qatar que é responsável por 20% do fornecimento mundial de gás natural liquefeito suspendeu a produção após um ataque de drones ao complexo de Ras Laffan. A QatarEnergy, cujos principais clientes são asiáticos, já invocou força maior para não cumprir as entregas.

À medida que o Irão retalia outras unidades podem ser afetadas. Mas ainda que continuem a operar, os grandes produtores de petróleo, nomeadamente a Arábia Saudita, vão ter muita dificuldade em fazer essa produção chegar aos clientes finais sem passar pelo Estreito de Ormuz.

O secretário da EPCOL, associação que junta as principais petrolíferas, não antevê, para já, impacto no abastecimento, mas reconhece que será inevitável pagar mais. António Comprido começa por sublinhar que se esperava uma reação “epidérmica” dos mercados aos ataques do fim de semana — havia cenários catastróficos que apontavam para mais de 100 dólares por barril. O petróleo chegou a subir mais de 10%, tocando nos 80 dólares por barril, mas o Brent acabou o dia a valorizar menos de 6%. A dimensão do efeito nos preços dos combustíveis só se fará sentir na próxima semana, mas vai depender mais do comportamento das cotações dos produtos refinados.

Que produtos serão mais afetados?

Não é por acaso que o preço do gás reagiu muito mais do que o petróleo. Esta energia exige uma logística menos flexível que o petróleo, por causa da necessidade de liquefação para transporte, o que envolve temperaturas muito negativas. O gás natural liquefeito está no olho do furacão depois do Qatar suspender a produção de GNL. No setor dos combustíveis, a consultora Kpler aponta para o gasóleo ser o combustível mais usado na logística internacional e por ter uma produção geograficamente mais concentrada. Outro produto que pode sofrer em termos de preços é o jet usado na aviação, sendo neste caso a Europa uma grande cliente do Médio Oriente. A gasolina será o combustível menos afetado porque a sua produção está mais diversificada em termos geográficos.

Esta semana já arrancou com aumentos de preços na casa dos 2 a 3 cêntimos por litro que ainda não refletem o impacto da disrupção no Médio Oriente. O gasóleo poderá ser mais problemático, admite ainda o secretário-geral da EPCOL sobretudo a alta se mantiver ou agravar mais nos próximos dias.

Há o risco de contágio a outros setores?

Sim. O contágio mais visível foi no setor da aviação que está em forte disrupção desde sábado com o espaço aéreo fechado em vários países do Golfo onde se localizam dois importantes hubs — Doha no Qatar e o Dubai. Esta situação levou ao cancelamento de 2.300 voos de companhias de todo o mundo, com especial foco para as grandes empresas do Médio Oriente e para as companhias europeias e asiáticas. Há também há um efeito menos imediato, mas que pode ser mais duradouro no comércio marítimo mundial. Para além do travão aos petroleiros e aos navios de GNL, outras mercadorias estão a ser afetadas.

Uma das maiores empresas de transporte, a MSC suspendeu temporariamente todas as reservas para o Médio Oriente. E só aceitará novos pedidos quando a situação de segurança melhorar. Também a Maersk deu ordens aos seus navios para evitarem o estreito de Ormuz, pondo ainda em stand-by o trânsito futuro para o estreito de Bab el-Mandeb, onde atuam os houthis, aliados do Irão, o que está perturbar os fluxos para o canal do Suez que liga ao Mediterrâneo.

Haverá ainda que considerar o efeito neste setor de uma maior indisponibilidade de navios para transporte, seja por estarem retidos, seja por terem de fazer rotas mais longas para contornar zonas de risco.

Não há alternativas ao Estreito de Ormuz?

Existem algumas vias de transporte alternativas, designadamente pipelines e gasodutos. A Arábia Saudita tem dois pipelines que ligam os campos petrolíferos do leste do país ao Mar Vermelho. Inaugurados em 1982, já viram a sua capacidade reforçada desde então e em tese podem passar a transportar até 5 milhões de metros de barris por dia, desviando mais de metade das exportações para o Mar Vermelho, indica o consultora IRIS.

Segundo a mesma fonte, os Emirados Árabes Unidos desenvolveram um pipeline que liga o campo petrolífero de Habshan ao porto de Fujairah no golfo de Omã. A sua capacidade permite transportar até três quartos da produção de petróleo, que equivale a 10% do tráfego petrolífero do estreito. A rede de infraestruturas dos Emirados tem ainda uma ligação direta ao Qatar através do gasoduto Dolphin, um projeto partilhado entre o fundo soberano Mudadala e a Total.

Do lado do Irão também existem alternativas através do oleoduto Goreh-Jask inaugurado em 2021 e liga os campos de Goreh a um terminal  no golfe de Omã que permite diversificar as exportações a partir da ilha de Kharg com destino à Ásia. Mas de acordo com o relatório da IRIS, todas estas opções acumuladas não conseguem ir além de uma alternativa limitada quando está em causa substituir os fluxos marítimos de Ormuz.

Quanto tempo vai demorar?

Donald Trump anunciou que a ofensiva conjunta com Israel contra o Irão poderia durar quatro a cinco semanas, mas também já admitiu que o prazo pode ser alargado.

António Comprido avisa ainda que a situação de conflito aberto no Médio Oriente preocupa por dois motivos. Por um lado, já alastrou a vários países grandes fornecedores de petróleo e gás. E por outro lado, não vai ser uma intervenção rápida. Já se percebeu que os bombardeamentos de junho do ano passado para destruir a capacidade nuclear do Irão não terão sido tão eficazes como o anunciado. E o Irão tem mostrado que tem margem para retaliar de forma persistente e em várias direções.

E o tempo pode ser a variável mais determinante na equação.

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