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Para Philippe Starck, "o design tem o poder de libertar" — mas deem-lhe só papel e caneta

O designer francês foi distinguido com o Doutoramento Honoris Causa pela Universidade Católica. Momento para uma conversa sobre a origem das ideias e a responsabilidade que vem com a criatividade.

Ricardo Ramos Gonçalves
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Reconhecido pelo seu estilo irreverente, Philippe Starck é, aos 77 anos, uma das figuras mais destacadas do design contemporâneo, mantendo-se plenamente ativo no domínio da criação. Foi justamente como reconhecimento desse espírito inovador, bem como do seu léxico visual, que lhe foi recentemente atribuído o grau de Doutor Honoris Causa pela Universidade Católica Portuguesa.

Em entrevista ao Observador, Starck encara a distinção como “reconhecimento da coerência”: “Não se trata apenas de reconhecer a obra em si, mas da coerência e de um ângulo de visão diferente”, afirma. O que está em questão – referindo-se à distinção, mas também ao design – vai muito além de um portfólio de objetos icónicos, hotéis, barcos ou utensílios do quotidiano. Trata-se, sobretudo, de uma atitude rebelde. Nessa forma de ainda ser disruptivo, o criador recusa o conforto e o facilitismo. “Continuo, como no primeiro dia, à espera de uma revolução e a lutar por um mundo melhor.” Não há saídas convenientes, recusando qualquer compromisso que comprometa os seus valores.

A juntar ao grau honorário, a Galeria Fundação Amélia de Mello e a Universidade Católica Portuguesa apresentam, até 6 de março, a exposição Philippe Starck – The Duty of Creativity, dedicada à sua obra. O título é, segundo o próprio, uma boa síntese do que significa o seu trabalho: “Quando nascemos, assinamos um contrato com a nossa espécie e connosco próprios.” Aqueles com uma capacidade criativa excecional – a que Starck chama “hipercriatividade” – carregam uma responsabilidade acrescida, e a visibilidade pública reforça essa obrigação. “Hoje tenho mais poder. Quando estamos em palco, temos um dever maior”, sustenta.

Décadas depois de ter iniciado o seu percurso, passando por marcas como Pierre Cardin ou Alessi, o seu processo criativo mantém-se fiel a uma lógica intuitiva e solitária, trabalhando a partir do subconsciente. “Sou, no fundo, o impressor do meu subconsciente”, sintetiza. Promotor do “design democrático”, acredita que até o objeto mais simples pode melhorar a vida quotidiana. “Cada cor, cada forma, cada detalhe afeta-nos.” Num mundo marcado pela desigualdade e pelo cinismo, continua a insistir na democratização da qualidade, na responsabilidade ecológica e na necessidade de repensar uma indústria ainda dominada por perspetivas masculinas, sempre que possível mantendo uma boa dose de humor.

É também por isso que, chegado a este momento, não se inibe de deixar um conselho às novas gerações: “Sejam vocês próprios. Não sigam o que as pessoas dizem. Não repitam coisas cegamente. Não se limitem a ver televisão ou a ler revistas. Sejam vocês próprios diante de vocês mesmos e pensem profundamente sobre como podem ajudar a vossa comunidade”.

"Não utilizo a tecnologia para criar. Já sou um computador orgânico de alto desempenho. O meu computador sempre foi simplesmente o papel e a caneta, juntamente com o meu cérebro. Não preciso de mais nada. Depois, para desenvolver os projetos, a minha equipa utiliza os mais elevados níveis de tecnologia. Mas tudo começa ainda com a intuição."

Receber um doutoramento Honoris Causa da Universidade Católica Portuguesa é um reconhecimento simbólico. O que sente que está verdadeiramente a ser reconhecido: o seu percurso, a sua filosofia ou uma determinada forma de estar no mundo?
É sempre difícil falar sobre mim próprio. Mas, no fundo, diria que reconhece a coerência da minha perspetiva, o fio condutor que une tudo. Afinal de contas, partiu sempre da mesma razão, da mesma alma. É raro que as pessoas permaneçam rebeldes ao longo de toda a vida. Alguns são rebeldes aos dezassete anos e tornam-se convencionais e verdadeiros burgueses aos setenta. Quanto a mim, continuo, como no primeiro dia, à espera de uma revolução e a lutar por um mundo melhor. Portanto, não se trata apenas de reconhecer a obra, mas da coerência e de um ângulo de visão diferente.

Considera-se ainda um rebelde nesse sentido?
Diria que sim, e demonstro-o em cada projeto novo que abraço todos os dias. Continuo a ter a mesma energia para me reinventar, para lutar e para recusar soluções fáceis. Não procuro qualquer tipo de compromisso ou saída conveniente.

A exposição associada a esta distinção intitula-se The Duty of Creativity [O Dever da Criatividade]. A criatividade é um privilégio ou uma responsabilidade ética? E perante quem?
Quando se nasce, assina-se um contrato com a nossa espécie animal, com a nossa civilização, com a nossa sociedade, com os nossos vizinhos, com os nossos parceiros e, claro, connosco próprios. Aqueles que não compreendem este contrato com a comunidade falharam o essencial. Existem, evidentemente, diferentes formas de honrar esse contrato. O seu principal propósito é servir a nossa comunidade, e há muitas maneiras de o fazer. O mais importante é simplesmente fazê-lo, porque, embora ninguém seja obrigado a ser um génio, todos são obrigados a contribuir. E se tivermos a sorte, como eu tive, de possuir uma certa loucura profunda, a que chamo hipercriatividade, então temos um dever ainda maior. Nesse sentido, foi-nos concedido um duplo dom e, com ele, o poder de tentar realmente mudar as coisas, de contribuir verdadeiramente. A beleza da nossa existência é a evolução. Nascemos das bactérias, passámos pela rã, pelo macaco e pelo ‘super’ macaco que somos hoje. Acabaremos por desaparecer – não sei como –, mas a nossa evolução é uma história fantástica. Basta compreendê-la e ajudar a evolução a seguir o seu curso para que uma vida já faça sentido.

E sente que hoje tem mais esse dever do que no passado?
Sem dúvida, muito mais. Quando era jovem, ninguém me ouvia. Era invisível. Hoje tenho mais poder. Tenho um altifalante de grande qualidade! Quando estamos em palco, com um altifalante, temos um dever maior. Estamos numa lugar que nos permite tomar uma posição.

Uma posição política?
Pode-se sempre entender a própria posição como política, mesmo que continue a ser algo pessoal. A diferença agora é que posso falar e fazer ouvir a minha própria voz.

Disse uma vez que uma ideia pode demorar entre cinco minutos e quarenta anos a amadurecer. O processo criativo ainda se mantém?
Absolutamente. O meu processo criativo é sempre o mesmo. Trabalho sobretudo com o subconsciente que, para mim, é mais interessante do que a própria consciência. Deixo aquilo a que chamo o ‘magma’ do subconsciente fazer o seu trabalho. Quando está pronto, quando está bem cozinhado, entrega-me o resultado. O meu papel é simplesmente dar-lhe forma, trazê-lo ao mundo. Sou, no fundo, o impressor do meu subconsciente. É por isso que consigo trabalhar tão rapidamente e atravessar tantos campos e territórios diferentes.

Mais do que no passado, o seu percurso parece não ter fronteiras – mesmo com as ferramentas tecnológicas que existem hoje. Aborda isso com leveza e entusiasmo?
Se está a falar de liberdade, só podemos ficar felizes por termos mais dela. Mais liberdade é sempre algo a celebrar. Quanto a mim, não utilizo a tecnologia para criar. Já sou um computador orgânico de alto desempenho. O meu computador sempre foi simplesmente o papel e a caneta, juntamente com o meu cérebro. Não preciso de mais nada. Depois, para desenvolver os projetos, a minha equipa utiliza os mais elevados níveis de tecnologia. Mas tudo começa ainda com a intuição. Isso pode transformar-se num sonho orientado e, depois, num esboço muito preciso. A criatividade é muito frágil e, quanto mais direta e rapidamente se passa da intuição à execução, mais ela é protegida. Há uma piada francesa que diz que a criatividade diminui quanto mais se cozinha. É por isso que a velocidade é muito importante para mim, tal como a gestão da própria ideia. Projetar barcos, por exemplo, é sempre complicado e desafiante. Ontem de manhã fiquei um pouco mais tempo na cama e concebi tudo completamente em três horas, num estado meio desperto. Esse estado é muito conveniente, porque a mente está extremamente clara. Nada nos limita. Movemo-nos por territórios multidimensionais e, ao mesmo tempo, conseguimos orientar o processo.

Escolheu viver em Portugal há mais de uma década. Porquê?
Portugal é um país incrivelmente belo. Poderá haver outros, mas o que não se encontra em mais lado nenhum são os portugueses, que são pessoas incrivelmente belas. Amo a humanidade. Amo os valores humanos. Amo a escala humana. Amo o que é real, o que é verdadeiro. E hoje, neste mundo, são os portugueses que me oferecem isso. É por isso que estamos aqui. Estamos cá desde 2012 e seguramente ficaremos. O mundo está a tornar-se mais árido e mais distante, enquanto os portugueses, por agora, continuam a ser sentimentais. E isso é algo precioso.

"Alguns produtos são muito prejudiciais. Por exemplo, produtos para homens. Todos nos lembramos da publicidade às lâminas de barbear, concebidas para parecerem armas. Isso não é aceitável, é perigoso. Trabalho muito na democratização, mas também naquilo a que chamaria a desmasculinização da indústria. Cerca de 90% dos produtos continuam a ser concebidos a partir de uma perspetiva masculina."

É um dos principais defensores do chamado “design democrático”, a ideia de melhorar a vida do maior número possível de pessoas. O que significa essa ideia hoje, num mundo simultaneamente mais tecnológico e mais desigual?
As tecnologias muitas vezes não mudam nada. Infelizmente – mas também, felizmente para mim – não estou no território que detém o poder último. O que fazemos com tudo isto será sempre o mesmo: podemos criar coisas fantásticas e podemos criar coisas horríveis. É sempre assim. Quanto ao design democrático, ele não pode mudar o mundo por si só, nem salvar vidas. O meu território é muito pequeno, o meu poder é muito limitado e tentar ajudar as pessoas a viver melhor, mesmo concebendo algo tão simples como uma escova de dentes, não é fácil. Ainda assim, continua a ser interessante trabalhar nestas coisas, continuar a lutar, porque tudo tem influência. Cada cor, cada forma, cada detalhe afeta-nos.

E há design que é mau ou prejudicial?
Alguns produtos são muito prejudiciais. Por exemplo, produtos para homens. Todos nos lembramos da publicidade às lâminas de barbear, concebidas para parecerem armas. Isso não é aceitável, é perigoso. Trabalho muito na democratização, mas também naquilo a que chamaria a desmasculinização da indústria. Cerca de 90% dos produtos continuam a ser concebidos a partir de uma perspetiva masculina. Houve progressos, mas ainda há muito a fazer. Hoje, podemos alcançar produtos de grande qualidade ao preço certo e acessível. Produtos que espero que transportem criatividade, inteligência e qualidade. E sem recorrer a trabalho explorado. Há sempre uma razão para continuar a trabalhar. Finalmente, transformar materiais sintéticos em materiais ecológicos foi uma batalha de quase quarenta anos, e agora começo a ver os resultados. Mesmo no meu pequeno território, há ainda tanto por fazer, mas tenho razões para ser otimista.

Muitos dos seus objetos contêm humor, ironia ou mesmo provocação. São formas de tornar o design mais humano e mais acessível, mas também uma forma de resistência?
Esses parâmetros estão sempre presentes no meu trabalho. O humor e a ironia são mais necessários do que nunca, especialmente no design e na nossa inteligência. A nossa inteligência criou dois conceitos belíssimos: o conceito de amor e o conceito de humor. Com humor, pode-se dizer o que se quiser. Pode-se fazer o que se quiser. Pode-se mudar o valor das coisas. Pode-se criar e pode-se destruir. O humor é incrivelmente poderoso. É uma arma fantástica, uma ferramenta fantástica. Pessoalmente, utilizo-o não por escolha, mas porque faz parte do meu ADN.

A Escola de Bauhaus procurou unir arte, indústria e sociedade. Cem anos depois, o design continua a ser uma ferramenta de emancipação ou tornou-se demasiado dependente do mercado?
Como em tudo, há sempre dois lados. Na produção humana, há duas direções: uma que avança para melhor e outra que avança para pior. Prefiro não me deter na pior. Estou claramente alinhado com a Bauhaus, com o funcionalismo e com as ideias universais. A Bauhaus foi há 100 anos, e a sua função era limitada em comparação com o que o design pode fazer hoje. Na altura, não se pensava no subconsciente, no humor, na poesia, nos géneros e noutros aspetos que agora fazem parte dos nossos parâmetros. Nessa época, o foco era o peso, o custo e a tecnologia – sobretudo considerações materiais. Hoje, o material é a última preocupação. Ainda assim, o design tem o poder de libertar, mas apenas se abordar plenamente a experiência humana, em vez de responder somente às exigências do mercado.

Que influências – humanas, filosóficas ou culturais – continuam presentes no seu trabalho, mesmo quando não são visíveis nos objetos que cria?
Não recebo absolutamente nenhuma influência. Sendo neurodivergente, obsessivo, até um pouco louco, a viver quase sempre sozinho, no meio do nada, estou protegido de qualquer influência externa. Todas as ideias, boas ou más, vêm apenas do meu cérebro. Para receber influência, é preciso ser curioso e inteligente, que eu não sou.

Vivemos num tempo marcado pela polarização e pela fragmentação. O design pode contribuir para reconstruir um sentido de comunidade?
É difícil, porque os parâmetros não são os mesmos para todos. Tentar dar a mesma coisa a toda a gente é positivo, porque promove a igualdade e evita conflitos. Se eu criar algo que tanto ricos como pobres possam comprar, ao mesmo preço e com a mesma qualidade, isso é bom. É isso que pode tornar o mundo mais livre. Mas, além disso, temos pouco poder. Vivemos um tempo completamente fora e para lá da razão. Vivemos numa loucura, marcada pelo cinismo. O meu território baseia-se, como o nome indica, na democracia, mas estamos coletivamente a matar a democracia. Isso deixa-me um pouco exposto. Ainda assim, temos de lutar. O trabalho continua presente. É um momento muito importante para afirmarmos a nossa responsabilidade perante os valores democráticos.

Que conselho daria aos jovens designers que talvez ninguém lhe tenha dado?
Recomendaria profundamente que pensem duas vezes antes de escolher o próximo trabalho, porque isso terá impacto em toda a vossa vida. Por exemplo, eu não sabia fazer nada além de design. Tanto quanto posso dizer, foi o design que me escolheu a mim. Mas hoje compreendo que, se tivesse sido suficientemente sábio para escolher o meu caminho, teria optado por algo com mais poder político. Portanto, pensem bem. Evitem escolher uma área na moda, porque milhões de pessoas estarão a fazer o mesmo trabalho e ele perde valor. Eu tive o ‘azar’ de começar numa espécie de deserto do design. Foi muito difícil, uma verdadeira luta, porque estava a abrir caminho. Mas também tive sorte, porque quando se tem sucesso num deserto, reconhece-se o valor.

Quando se é mais discreto, há mais espaço para criar e mais liberdade?
Absolutamente. A última coisa que diria a todos é: sejam vocês próprios. Não sigam o que as pessoas dizem. Não repitam coisas cegamente. Não se limitem a ver televisão ou a ler revistas. Sejam vocês próprios diante de vocês mesmos e pensem profundamente sobre como podem ajudar a vossa comunidade. Depois, e talvez o mais importante: leiam sempre poesia.