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Da bênção à rutura final. A história do confronto adiado entre Passos e Montenegro

Montenegro era um cristão novo do passismo quando chegou a líder parlamentar. Passos quis fazer dele seu sucessor. Mais tarde, abençoou-o como herdeiro. Os dois foram-se afastando até à rutura final.

Miguel Santos Carrapatoso
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O sol está quase a pôr-se. No calçadão de Quarteira, engalanado para voltar a receber a Festa do Pontal, respira-se entusiasmo. É dia 14 agosto de 2022 e ei-lo, Pedro Passos Coelho, de regresso à vida partidária cinco anos depois de ter desaparecido do dia a dia do PSD. Camisa branca por fora das calças, mas impecavelmente engomada, mangas ligeiramente arregaçadas, calças de ganga e sapatilhas brancas. É recebido por Hugo Soares e escoltado, pelo meio de uma multidão que queria agarrá‐lo, beijá‐lo e fotografá‐lo, até à mesa de honra. É dia de festa.

Perante a agitação dos jornalistas, Passos explica calmamente as suas motivações. “Vim cá apenas para assinalar, neste novo ciclo, o meu desejo de que este novo esforço que está a ser feito pelo Luís Montenegro, de união do partido, possa vir a ser colocado ao serviço do país, que é aquilo que nos interessa. Portugal vai precisar de um governo diferente daquele que temos. E tenho uma enorme confiança que a liderança do PSD está à altura desse desafio. Não vim para fazer grandes declarações. Vim dar um abraço ao Luís Montenegro. Uma pessoa bem preparada e competente, que tenho confiança que será o próximo primeiro‐ministro.”

Minutos depois, chega Montenegro, acompanhado pela mulher, Carla. É o seu primeiro Pontal como líder do PSD. Depois de cruzar o corredor humano e de cumprimentar os militantes ali presentes, dizendo umas palavras de circunstância, abraça finalmente Pedro Passos Coelho. Jantam e assistem aos discursos juntos. No final, quando chega a vez de subir ao palco, Montenegro não esquece o convidado de honra.

“É uma alegria e uma emoção ter‐te aqui. Diria mesmo: tu és daqui. E para aqueles que se vão entreter com o papão do passismo, como se isso fosse uma coisa muito medonha, quero dizer que tive e tenho muita honra e orgulho em ter estado ao teu lado e ter contigo vivido um período de recuperação do nosso país e ter mandado a troika, que os socialistas trouxeram, para casa. Nunca vou deixar de dizer aquilo que tem de ser dito: tu foste um grande primeiro‐ministro e eu tenho muito orgulho de ter estado contigo nesse período.”

Passaram apenas três anos e uns pózinhos desde esse Pontal. Mas, em política, três anos são uma vida. Passos e Montenegro romperam. O primeiro ameaçou regressar, o segundo tornou-se inesperadamente primeiro-ministro. Caiu, mas conseguiu, mesmo assim, reforçar o poder. Seguiu um caminho que Passos achou sempre errado. A sombra diminuiu, mas nunca desapareceu verdadeiramente. Agora, o choque dá-se finalmente em campo aberto, sem que se perceba exatamente como (ou se) vai haver de facto um confronto entre os dois. Seria o culminar de uma história comum com mais de uma década e muito ressentimento à mistura.

Esta é a primeira vez que o antigo primeiro-ministro diz, em público e de forma cristalina, que não descarta o seu próprio regresso a um projeto que julga inacabado. Ainda que salvaguardando que só o fará se as coisas correrem muito mal a Luís Montenegro, o desafio está mais do que lançado. Para já, Montenegro vai relativizando tudo e atirando a questão para o plano do "pitoresco". Resta saber se será para sempre assim

O desafio

A sucessão de Pedro Passos Coelho começou a ser pensada muito antes de se consumar. Passos era incontestável, mas não eterno, naturalmente. Para muitos, Luís Montenegro, líder parlamentar durante os tempos exigentes da troika e uma espécie de ministro sem pasta daquele Governo, era tido como o herdeiro natural. O partido estimava‐o e Passos também. Era o seu favorito, embora fosse percebendo que o seu líder parlamentar tinha na cabeça outro calendário.

Em jantares restritos, figuras como Luís Marques Mendes, Miguel Relvas, Hugo Soares, Luís Campos Ferreira, Fernando Seara, Luís Menezes, Miguel Pinto Luz e o próprio Luís Montenegro vinham estudando cenários e preparando o terreno, nem sempre inteiramente alinhados, nem sempre com o mesmo grau de entusiasmo. A começar pelo próprio, que manifestava dúvidas sobre se faria sentido ser ele o rosto de um passismo sem Passos, mas consciente de que teria de tomar uma decisão quando o momento chegasse.

A decisão acabou por se impor depois das eleições autárquicas de 2017, um dos piores resultados da história do partido. Passos sentiu que tinha chegado ao fim de linha. Decidiu convocar o Conselho Nacional, sabendo que iria anunciar a sua intenção de se afastar e de dar a vez a outro. Sabia que o grupo de Rui Rio, até pela oposição que este lhe ia movendo em eventos mais e menos privados, preparava uma alternativa e tinha tudo pronto no terreno. Passos queria evitá‐lo a todo o custo e considerava haver duas pessoas à altura do desafio: Luís Montenegro, o seu favorito, e Paulo Rangel. Entendia que ambos tinham condições para avançar e esperava que conversassem para evitar divisões internas que favorecessem Rui Rio.

Montenegro e Passos encontraram‐se para jantar na véspera do Conselho Nacional. O ex‐primeiro‐ministro abriu o jogo e comunicou a intenção de deixar a liderança do PSD. Montenegro confirmou aí que era o preferido de Passos para ficar à frente do partido. Estava mais bem preparado, fora uma espécie de ministro sem pasta durante anos e dominava perfeitamente os circuitos de decisão. Montenegro, no entanto, continuava carregado de dúvidas.

Era um risco enorme para quem, como ele, era ainda relativamente jovem e tinha aspirações políticas. Não queria ser o cordeiro sacrificial. Compreendeu o que estava em jogo, mas debatia‐se com o mesmo dilema interior: saber se faria sentido ser ele o rosto de um passismo sem Passos. Estava intimamente ligado àquele período, e o país, aparentemente, virara a página. Além disso, ao contrário das expectativas iniciais, a geringonça ultrapassara os dois anos de vida e já poucos no PSD acreditavam convictamente que viesse a cair.

O plano de Passos de aguentar firme na oposição à espera de que a aliança à esquerda ruísse não resultara. O diabo não veio. Além disso, Montenegro acabara de entregar, em julho, a liderança da bancada parlamentar a Hugo Soares e preparava‐se para fazer um fade out político, tentando não desgastar ainda mais a sua imagem. Uma eventual candidatura à presidência do partido obrigá‐lo‐ia a rever todos os planos, pessoais e políticos.

Montenegro pôs-se em jogo e tenta perceber o que movia Paulo Rangel. Entram os dois no jogo do empurra — agarrar o partido num ciclo político tão exigente era uma tarefa hercúlea. Publicamente, Luís Montenegro e Hugo Soares, alinhados, foram fazendo declarações propositadamente ambíguas sobre o futuro imediato para manter alguma margem de manobra. Mas Montenegro não mudou de ideias e seguiu o instinto. Na noite de 5 de outubro, quinta‐feira, enviou uma nota à comunicação social a desfazer o tabu. “Após a reflexão que fiz, entendo que, por razões pessoais e políticas, não estão reunidas as condições para, neste momento, exercer esse direito.”

Rangel, que combinara com Montenegro ficar em silêncio, a ponderar, sentiu-se encurralado e decidiu pôr, também ele, cobro ao teatro. O futuro pós-Passos seria decidido entre Rui Rio e Pedro Santana Lopes — com vantagem, como se sabe, para o primeiro. Sem Pedro Passos Coelho e sem Luís Montenegro, o seu sucessor mais natural, o passismo desaparecia por longos anos.

Um cristão novo do passismo

A verdade é que Luís Montenegro não é uma criatura original do passismo. A lealdade de Montenegro foi (quase) sempre para com Luís Marques Mendes, o seu verdadeiro padrinho político, e mais tarde para com Luís Filipe Menezes — com quem esteve contra Marques Mendes, precisamente. Nos atribulados anos em que o PSD triturou três líderes, um momento muito particular da história do partido, Montenegro até esteve contra o antigo primeiro-ministro.

Em 2008, depois da turbulenta liderança de Luís Filipe Menezes, Pedro Passos Coelho candidatou-se pela primeira vez à liderança do PSD. Luís Montenegro esteve tentado a apoiá-lo. Conhecia‐o relativamente mal e estava longe, muito longe de imaginar que um dia seria líder parlamentar na liderança dele. Mas Passos representava uma rutura geracional e uma inspiração para os quadros mais novos do partido.

Montenegro sentia‐o, mas não podia deixar cair Pedro Santana Lopes — o atual presidente da Câmara da Figueira da Foz fez dele vice-presidente da bancada parlamentar quando liderava o grupo de deputados laranja durante o reinado de Menezes. Montenegro falou com Santana, ameaçou juntar‐se à candidatura de Passos e pressionou‐o. Santana decidiu avançar e escolheu Montenegro como porta‐voz da candidatura. Foi uma aposta errada: Manuela Ferreira Leite ganhou, Passos ficou em segundo e Santana em terceiro.

O atual primeiro-ministro ficou lado dos proscritos. No Parlamento, Paulo Rangel foi escolhido para liderar o grupo de deputados e deixou‐o fora da direção da bancada parlamentar. Montenegro estava sem espaço político. Dali a um ano, nas legislativas de 2009, seria quase riscado das listas, sendo relegado para a sétima e última indicaç̧ão do PSD pelo distrito de Aveiro — praticamente o mesmo lugar que merecera em 2002, quando foi eleito pela primeira vez. Uma humilhação, portanto.

Pior sorte tiveram Passos e Relvas, que foram mesmo afastados do Parlamento. A sorte de Luís Montenegro acabaria por mudar dois anos depois, com o regresso do PSD ao poder — e com Pedro Passos Coelho como primeiro-ministro. Montenegro ganhava uma nova oportunidade para sobressair na política nacional.

As coisas ficaram pior entre os dois quando Pedro Passos Coelho começou a acreditar que Luís Montenegro estava a ceder às pressões do "Doutor Rebelo de Sousa", era altamente influenciado por Luís Marques Mendes (com quem Passos rompera há anos), e que elevara Manuela Ferreira Leite (que sempre atacou o antigo primeiro-ministro) e, sobretudo, Aníbal Cavaco Silva a santos padroeiros do novo PSD

O ponta de lança durante a troika

Em 2010, quando Pedro Passos Coelho venceu as eleições internas do PSD, derrotando Paulo Rangel, José Pedro Aguiar Branco e Castanheira Barros, Montenegro estava fora do Parlamento. Um ano antes, ele e Miguel Relvas tinham sido riscados das listas de deputados por Manuela Ferreira Leite, de quem tinham sido ferozes adversários. Quando assumiu a presidência do partido, o Governo de José Sócrates já se estava a desmoronar, mas não era cristalino que viesse a cair tão cedo como acabou por acontecer sensivelmente um ano depois, a 23 de março de 2011.

Tudo pesado, o Parlamento ia ser o palco privilegiado do combate político e era importante escolher alguém de confiança para liderar a bancada. Essa pessoa foi Miguel Macedo, que Passos Coelho conhecia desde os tempos da JSD e que dava boas garantias de coordenação entre a recém‐eleita direção do partido e o grupo de deputados. Com Macedo na liderança da bancada parlamentar, Montenegro subiu mais um degrau na cadeia alimentar, tornando-se o primeiro vice do grupo de deputados.

Na direção da bancada parlamentar, a relação entre Macedo e Montenegro evoluiu para algo entre a profunda cumplicidade e a admiração mútua. Montenegro aprendeu a apreciar o apurado faro político e o especial feitio de Miguel Macedo, cuja primeira resposta a qualquer ideia que fugisse da norma era quase invariavelmente “não”.

À custa disso, tiveram a sua dose considerável de discussões, mas nunca nada que prejudicasse o combate político na Assembleia da República e a gestão conjunta do grupo parlamentar num contexto particularmente desafiante. Foi muitas vezes Miguel Macedo a dar palco parlamentar a Luís Montenegro, que aprendeu com ele a importância de fazer uma boa gestão de recursos humanos numa casa com egos particularmente insuflados.

A deterioração política agudizou‐se, o Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC IV) de Sócrates foi chumbado, o país foi mesmo a votos e Pedro Passos Coelho venceu as suas primeiras eleições legislativas, tornando-se primeiro-ministro. O então presidente do PSD ainda convidou Montenegro a ser secretário de Estado, mas Montenenegro declinou  — queria continuar no Parlamento. Já tinha recusado no passado (a convite de Santana) e voltaria a declinar um convite para integrar o segundo (e curto) governo de Pedro Passos Coelho.

O então primeiro-ministro tinha, ainda assim, de tomar decisões — fechar um elenco governativo e escolher a equipa que iria representar o PSD no Parlamento. E eis que Luís Filipe Menezes voltou a entrar nas contas de Pedro Passos Coelho e de Miguel Relvas. Era a ele que a dupla queria a comandar a bancada parlamentar social-democrata durante um período que seria necessariamente exigente do ponto de vista político.

Os três — Pedro Passos Coelho, Miguel Relvas e Luís Filipe Menezes — sentaram-se à mesa do Gambrinus, restaurante‐instituição da cidade de Lisboa, na Rua das Portas de Santo Antão, e falaram sobre o assunto. Mas o então presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia recusara prontamente. Estava focado em cumprir o seu último mandato antes de se lançar à herança à autarquia do Porto — 12 anos depois, nas autárquicas de 2025, Menezes voltaria a ganhar Gaia com o incentivo de Montenegro.

Nesse jantar, Menezes sugeriu um nome alternativo para liderar a bancada: o de Luís Montenegro, aliado estratégico na luta que tinha travado, anos antes, contra Luís Marques Mendes. Para Menezes, Montenegro tinha tudo para ser um excelente presidente da bancada do PSD — de resto, a primeira experiência de Montenegro na direção de um grupo parlamentar tinha acontecido, precisamente, pela mão do próprio Menezes, que convencera Pedro Santana Lopes a apostar no entã̃o jovem deputado.

Os três conversaram sobre o assunto, terminaram a refeição e foram a pé até ao Hotel Sana, que iria receber um Conselho Nacional do PSD. Naquela noite, Menezes ficou perfeitamente convencido de que a decisão tinha ficado fechada e de que Pedro Passos Coelho seguiria a sua recomendação. Mas o processo demorou bem mais do que Menezes julgaria ser razoável — e do que Montenegro desejava.

O processo arrastou-se durante semanas e a nova direç̧ão do PSD não atava nem desatava. Luí́s Montenegro fez saber da sua disponibilidade para liderar a bancada e continuava sem resposta. Nem todos o viam como a opção mais indicada. No núcleo duro de Passos, havia quem defendesse uma solução com mais cabelos brancos e experiência para os tempos particularmente exigentes que se colocavam no horizonte imediato. Além disso, Montenegro era um cristão‐novo do passismo, o que gerava compreensivas desconfianças.

Em contrapartida, Miguel Relvas, que conhecia bem Montenegro dos corredores do Parlamento e que ainda hoje reclama para si o mérito de ter sido o responsável pela grande promoção do homem de Espinho, fez força por ele junto de Passos. A 17 de junho de 2011, a dois dias de os deputados tomarem formalmente posse, e mesmo sendo sábado, Montenegro decidiu telefonar ao então primeiro‐ministro. Não era um hábito entre os dois. Só mais tarde, Montenegro, que trata Passos por tu ao contrário do que acontece com Luís Marques Mendes, por exemplo, ganharia o à‐vontade de o procurar com maior frequência.

Ao telefone, Montenegro desculpou‐se por estar a chatear, mas não hesitou: sem esconder alguma frustração pelo facto de o dossiê da liderança parlamentar continuar por resolver, comunicou que estava disponível para liderar a bancada e que iria apresentar a candidatura dali a dois dias, na primeira reunião do grupo parlamentar da nova legislatura.

Passos não se opôs, disse confiar nele e deu‐lhe total carta‐branca para escolher a equipa que quisesse. O anúncio foi feito, faltava a votação. A 30 de junho de 2011, aos 38 anos, Montenegro foi formalmente eleito líder da bancada parlamentar do PSD com 86% dos votos. Estava dado o grande salto. Ainda hoje, sempre que fala sobre este momento do seu percurso político, Montenegro garante categoricamente que não pediu licença a Pedro Passos Coelho para avançar para a liderança parlamentar.

Quem seguiu de perto todo o processo retira algum romantismo à ideia: Passos acabara de chegar ao cargo de primeiro‐ministro, tinha o partido perfeitamente controlado, escolhera o grupo de deputados e estava na posse da plenitude dos seus poderes. Bastaria escolher outra opção e Montenegro ficaria fora de jogo. Seja como for, através da ligação entre o Parlamento e o Governo, que na sua composição original tinha 11 ministros, tornou‐se uma espécie de 12.º elemento daquele executivo.

Falava com os vários ministros sectoriais, articulava‐se e reunia‐se com eles incontáveis vezes, o que lhe deu uma visão multifacetada da governação. Deu‐lhe uma preparação e uma dimensão que não tinha até então e que, anos mais tarde, seria reconhecida pelos elementos do núcleo mais duro da sua direção. A relação com Pedro Passos Coelho foi‐se estreitando com naturalidade, ainda que o então primeiro‐ministro dispensasse grandes conversas.

O fade out

A posição de líder parlamentar deu a Luís Montenegro a experiência política, a exposição mediática que procurava e o estatuto de potencial líder partidário que procurava. Também lhe trouxe as naturais dores de crescimento — é aí que surgem as primeiras associações à maçonaria, a polémica das viagens para assistir aos jogos da seleção e a frase (assumidamente infeliz) sobre o facto de “a vida das pessoas não está melhor mas a do país está muito melhor”.

Mesmo depois de quatro anos muito difíceis à frente do país, Pedro Passos Coelho venceu as eleições legislativas de 2015. Mas a história é conhecida: às costas de uma ‘geringonça’ inédita na história da política portuguesa, António Costa conseguiu devolver o PS ao poder e tornar-se primeiro-ministro. Passos e o PSD começaram aí um processo de quebra de popularidade que culminou com a copiosa derrota nas autárquicas de 2017. Luís Montenegro percebeu que, se queria ter futuro político e uma identidade própria, teria de sair cena. E foi o que fez.

A 5 de abril de 2018, Montenegro juntou 150 pessoas no Café In, que ganhara o hábito de frequentar. Não faltaram Pedro Passos Coelho, Luís Marques Mendes, sentados na mesa de honra, Miguel Relvas e Luís Marques Guedes, dois dos responsáveis pela sua ascensão, e figuras como Maria Luís Albuquerque ou José Pedro Aguiar‐Branco.

Marques Mendes, no papel de grande anfitrião, defendeu que Montenegro era “dos políticos do PSD com melhor preparação política e com pensamento mais estruturado”, fazendo uma referência à “coragem” que Montenegro demonstrara ao “dirigir um grupo parlamentar num momento difícil” e por se ter marcado.

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Pedro Passos Coelho, que nessa altura tinha deixado o Parlamento há um mês e não aparecia em público desde então, improvisou um discurso, disse‐se grato por ter trabalhado com Montenegro e elogiou o homem que nem sequer tinha escolhido para presidir à bancada do PSD. “Há pessoas a quem rapidamente se reconhece o talento. O Luís é uma delas.”

Quatro meses antes, no último jantar de Natal que os dois tiveram oportunidade de partilhar no Parlamento, e num raro elogio público, Passos lançou o seu líder parlamentar para saltos maiores. “Só por modéstia é que diz que ganhou estatuto para ter futuro no PSD. Ele tem mais do que futuro no PSD.” E Pedro Passos Coelho tinha, mais uma vez, razão. Só talvez não soubesse que o futuro de Montenegro iria, mais tarde, colidir com o seu próprio futuro.

A verdade é que Luís Montenegro não é uma criatura original do passismo. A lealdade de Montenegro foi (quase) sempre para com Luís Marques Mendes, o seu verdadeiro padrinho político, e mais tarde para com Luís Filipe Menezes — com quem esteve contra Marques Mendes, precisamente. Nos atribulados anos em que o PSD triturou três líderes, um momento muito particular da história do partido, Montenegro até esteve contra o antigo primeiro-ministro

A bênção

A ascensão de Luís Montenegro a líder do PSD e, depois, a primeiro-ministro foi tudo menos linear. Para lá chegar, o atual chefe de Governo teve de perder duas vezes com Rui Rio e fazer uma travessia no deserto de onde muitos apostaram que nunca seria capaz de sair. Mas nessa segunda vez que perdeu com Rui Rio — a primeira vez aconteceu quanto tentou organizar um impeachment falhado (e contra o conselho de Passos) — fez com que Luís Montenegro percebesse uma coisa muito importante: para ganhar o partido e depois ganhar o país não poderia nunca ser percecionado como uma continuidade do passismo.

Montenegro foi fazendo esse caminho. O primeiro gesto simbólico aconteceu dezembro de 2021, quando se deslocou Europarque – Santa Maria da Feira, no distrito de Aveiro, para o beija‐mão coletivo a Rui Rio, acabado de derrotar Paulo Rangel na antecâmara das legislativas. Passos nunca percebeu verdadeiramente como é que Luís Montenegro aceitou prestar vassalagem a Rio e mais surpresa lhe causou ter visto Luís Montenegro a passear de braço dado com Rui Rio nessa mesma campanha.

O antigo primeiro‐ministro viu naqueles gestos uma cedência inexplicável ao lado mais tacitista da política. Havia muitas formas de chegar à liderança, mas aquele não era seguramente o caminho ou o modelo que Passos escolheria. Apesar de tudo, nessa altura, não havia ainda razões para romper. Montenegro era alguém que aprendera a estimar e a respeitar enquanto líder parlamentar, e precisava de toda a ajuda para reerguer o partido depois do reinado de Rio — que Passos sempre desprezou politicamente.

Depois de vencer as eleições diretas contra Jorge Moreira da Silva, Montenegro tentou convencer o antigo primeiro‐ministro a aparecer de surpresa no seu Congresso de entronização. Ao telefone, Passos declinou simpaticamente o convite, dizendo não estar interessado em criar um happening mediático que certamente contaminaria a mensagem política do partido. Mas não se esqueceu do gesto.

Semanas depois, foi o próprio a telefonar a Montenegro para oferecer uma alternativa: iria abrir uma exceção e apareceria de surpresa na Festa do Pontal, no Algarve, a primeira de Montenegro enquanto novo líder do PSD, para o apoiar na rentrée do partido. Montenegro concordou e acertaram tudo. Era o primeiro grande momento de afirmação de Luís Montenegro.

O primeiro embate

O afastamento foi sendo progressivo, mas houve um momento definidor. Depois do Pontal, os dois continuaram a falar com regularidade, por telefone e pessoalmente. Encontravam‐se em vários registos informais, como no casamento da filha de Miguel Relvas, e em eventos públicos. Tudo começou a mudar a 8 de dezembro de 2022.

Por esses dias, o Parlamento preparava‐se para votar a despenalização da morte medicamente assistida. O PSD andava aos papéis para tentar forçar a Assembleia da República a votar uma proposta de referendo. E Pedro Passos Coelho decidiu intervir no debate público. Num artigo de opinião publicado no      Observador (“Eutanásia — uma decisão demasiado radical”), o antigo primeiro‐ministro pressionava a direç̧ão do PSD a assumir uma posiç̧ão clara sobre o tema.

A estratégia de Montenegro, que, como Rui Rio, tinha dado liberdade de voto à bancada parlamentar do PSD, optando antes por defender abertamente um referendo, era colocada em causa pelo seu antecessor. No mesmo artigo, Pedro Passos Coelho lamentava que o partido não tivesse “uma conceção” sobre essa matéria e que não assumisse a revogação da eutanásia como uma prioridade fundamental de uma futura maioria de direita: “O que desejaríamos era que os partidos que estão contra esta ‘revolução’ de organização da eutanásia se comprometessem transparentemente em lutar pela sua revogação caso venham a lograr conquistar uma maioria de deputados no futuro”.

O desafio do antigo primeiro‐ministro teve a particularidade de pôr a direita (em particular o Chega) a falar sobre possíveis alianças, tema que Montenegro procurava varrer da agenda política e mediática. Três dias depois, de semblante visivelmente carregado, o líder do PSD reagiria com estranha acrimónia. Não se limitou a assumir que discordava; disse, reforçou e repetiu que não se revia nas palavras do antecessor.

“Eu discordo de Pedro Passos Coelho. Sou muito direto. Discordo completamente da posição de Pedro Passos Coelho. Discordo pelo facto de ele discordar da realização de um referendo sobre esta matéria. Discordo porque a posição dele é muito fechada. Embora eu seja tendencialmente contra, não tenho uma posição tão fechada como ele tem”.

Enquanto líder eleito do PSD, era a primeira tentativa, e violenta, de se emancipar de Pedro Passos Coelho. Embora a convição de Montenegro fosse genuína, no núcleo duro do líder do PSD também se assumia que o tom usado nas declarações servia para marcar uma posição: quem mandava agora no PSD era Montenegro e não Passos.

A reação de Luís Montenegro deixou Pedro Passos Coelho transtornado. Tal como já fizera em 2018, também num artigo de opinião no Observador, o antigo primeiro‐ministro decidiu por bem manifestar publicamente a sua posiç̧ão em relaç̧ão a um tema sobre o qual tinha fortes conviç̧ões — fundadas em grande medida depois da luta difícil contra o cancro travada pela mulher, Laura, que morreu em 2020.

O facto de Montenegro ter aproveitado uma discordância (legítima) para fazer, aos olhos de Pedro Passos Coelho, uma prova de vida enquanto líder do PSD, um meio para matar o pai político, ofendeu‐o profundamente. Foi a gota de água — dali em diante, a relação entre os dois jamais seria a mesma.

Pedro Passos Coelho considera que os eleitores não perdoarão nunca a Luís Montenegro que se transforme numa espécie de António Costa 2.0, patologicamente “alérgico” a fazer reformas, especialista em empurrar os problemas com a barriga durante “oito anos”

O choque estratégico

Esse episódio agudizou um choque estratégico que se vinha desenhando havia já algum tempo. O antigo primeiro‐ministro sempre considerou um erro de pal‐ matória que se traçassem cordões sanitários em torno do Chega e nunca conseguiu compreender como é que Luís Montenegro tinha caído no que considera ser uma armadilha. Passos sempre entendeu que o “não é não” a Ventura, além de pueril, era uma cedência à agenda da esquerda, uma concessão que limita as hipóteses do PSD de regressar ao poder e uma decisão que pode acabar por alienar, inevitavelmente, eleitores essenciais para o partido.

Montenegro teve sempre outra visão. A estratégia sempre foi afastar uma aliança com o Chega, sem nunca hostilizar o eleitorado do Chega. Em grande medida, a estratégia produziu resultados: Luís Montenegro chegou ao poder (por margem curta) e conseguiu repetir a vitória já por outros números. Acontece que, para Pedro Passos Coelho, a manutenção do poder fez-se à custa da mesma receita de António Costa (distribuir o excedente para agradar às corporações e ao eleitor-contribuinte) e resultou no crescimento exponencial do Chega.

As divergências políticas assumiram, inevitavelmente, um lado pessoal. Quem conhece intimamente os dois sugere que houve, desde o início, uma confusão de papéis e de planos. Luís Montenegro olha para Pedro Passos Coelho como um igual; Passos não. Luís Montenegro enfrentaria Pedro Passos Coelho numas eleições diretas; a Passos nunca lhe passaria pela cabeça colocar‐se nesse plano. Não para já, pelo menos.

Em paralelo, o antigo primeiro‐ministro nunca compreendeu o porquê de os novos senhores do PSD o receberem sempre tão bem quando o viam, de lhe darem tantos abraços e palmadinhas nas costas, quando, sabia ele, faziam comentários tão ou mais negativos sobre ele do que a direção anterior, liderada por Rui Rio. Disponibilizara‐se para ajudar, tinha estado no Pontal, elogiara publicamente Luís Montenegro e, depois de tudo, as costas viraram‐se.

As coisas ficaram ainda pior entre os dois quando Pedro Passos Coelho começou a acreditar que Luís Montenegro estava a ceder às pressões do “Doutor Rebelo de Sousa”, era altamente influenciado por Luís Marques Mendes (com quem Passos rompera há anos), e que elevara Manuela Ferreira Leite (que sempre atacou o antigo primeiro-ministro) e, sobretudo, Aníbal Cavaco Silva a santos padroeiros do novo PSD.

“Gosto muito de conversar com o professor Aníbal Cavaco Silva. (…) Tenho uma grande relação de trabalho político com Pedro Passos Coelho (…) Mas a minha referência política maior é mesmo o professor Aníbal Cavaco Silva. Foi aquele que me despertou mais para a vida política. Foi aquele que me impôs mais pensamento, mais reflexão. Acho que o projecto dele foi o único, verdadeiramente, que teve um princípio, um meio e um fim”, chegou a assumir publicamente Luís Montenegro.

Os homens de Montenegro encontram outra explicação. O líder do PSD não suporta a ideia de estar na mão ou na dependência de alguém. De ser condicionado. E, como não gosta, não cultiva um certo tratamento reverencial que tal‐ vez Pedro Passos Coelho esperasse. “Ressentimento” é a palavra mais usada para classificar a forma como Passos reagiu à vontade de Montenegro em ter vida própria.

Em cima de tudo isto, o ruído à volta dos dois, alimentado por apoiantes de um e de outro, também contribuiu para o afastamento crescente. As intrigas, as conspirações, as posições de um e de outro, as histórias alimentadas por gente dos corredores e na comunicação social, foram cavando um fosso cada vez maior. Luís Montenegro começou a desconfiar de que existia um plano deliberado para o desgastar, encabeçado, em grande medida, por Miguel Relvas, antigo braço‐direito e amigo pessoal de Pedro Passos Coelho foi sendo progressivamente mais duro com cada tropeção de Montenegro.

O confronto evitado

A determinada altura, tornou-se claro que se Luís Montenegro não tivesse um bom resultado nas eleições europeias de 2024, haveria um movimento para carregar Pedro Passos Coelho num andor até a liderança do partido e afastar Montenegro. O novo líder do PSD decidiu então agir: se a condição sine qua non de Passos para voltar à liderança do partido era que ele, Montenegro, saísse da frente e pelo próprio pé depois das europeias de junho de 2024, então diria publicamente que seria recandidato em qualquer circunstância.

Foi isso que fez a 12 de outubro de 2023, em entrevista à TVI/CNN: “Eu vou recandidatar‐me nas próximas eleições dentro do PSD após as europeias. Vou recandidatar‐me porque faço uma avaliação muito positiva do que temos vindo a fazer”. Se Passos queria a liderança do PSD, teria mesmo de o enfrentar, cenário que Montenegro acreditava ser impossível de acontecer.

Todavia, Montenegro não se limitaria a tentar frustrar os eventuais planos do antigo primeiro‐ministro. Nessa mesma entrevista, a uma pergunta sobre o futuro de Pedro Passos Coelho, Montenegro decidiu responder que o seu antecessor estava “habilitado a fazer tudo na vida política e muita coisa na vida privada, incluindo na vida universitária”. “O meio académico português não está a tirar partido do potencial que ele tem nessa área”, acrescentaria ainda.

Não foi uma gafe ou uma frase mal interpretada, como muitos dos seus mais próximos se esforçaram por tentar dizer nos dias seguintes. A pergunta da jornalista Sara Pinto tinha sido feita de forma clara e houve tempo e espaço para que o entrevistado corrigisse qualquer mal‐entendido que pudesse subsistir. Não o fez. Luís Montenegro estava mesmo a tentar exorcizar o fantasma de Passos, enclausurando‐o nos claustros da universidade. Pedro Passos Coelho não gostou nada do que ouviu, mas decidiu manter‐se em silêncio. Nunca esqueceria a estocada, porém. Mais uma.

A 7 de novembro, porém, tudo mudou. António Costa caiu, os calendários inverteram‐se, as eleições europeias, o marco que deveria determinar a queda de Luís Montenegro, passaram para o plano da irrelevância política e a locomotiva que ia alimentando um possível retorno de Pedro Passos Coelho teve de parar. Não havia tempo, vontade ou maquinação possível que impedisse Luís Montenegro de ser candidato a primeiro‐ministro. O confronto tinha sido evitado.

O atual líder do PSD e priomeiro-ministro não suporta a ideia de estar na mão ou na dependência de alguém. De ser condicionado. E, como não gosta, não cultiva um certo tratamento reverencial que talvez Pedro Passos Coelho esperasse. "Ressentimento" é a palavra mais usada para classificar a forma como Passos reagiu à vontade de Montenegro em ter vida própria

A rutura final

Desse momento até hoje, Pedro Passos Coelho nunca desapareceu verdadeiramente de cena. O antigo primeiro-ministro fez várias aparições públicas, em que se destacam quatro intervenções, todas elas em momentos cruciais para o futuro de Luís Montenegro, e onde o antigo primeiro-ministro fez questão de expor de forma estruturada o seu pensamento sobre o estado do país.

Passos fê-lo depois da queda de António Costa, imediatamente a seguir à primeira vitória do atual primeiro-ministro (por margem curta), antes das segundas eleições legislativas a que Montenegro concorreu e agora, terminado que está um ciclo intenso de eleições e numa altura em que se perspetivam três anos de relativa estabilidade política.

As quatro tiveram sempre um fio condutor: Pedro Passos Coelho considera que os eleitores não perdoarão nunca a Luís Montenegro que se transforme numa espécie de António Costa 2.0, patologicamente “alérgico” a fazer reformas, especialista em empurrar os problemas com a barriga durante “oito anos”

Com um diferença substantiva: apesar de ter dito essencialmente o mesmo do que vem dizendo desde 2023, nunca como agora Pedro Passos Coelho tinha sido tão direto e concreto nas críticas. Aliás, já depois de ter marcado agenda mediática e política na conferência organizada pela SEDES, o antigo primeiro-ministro concedeu uma raríssima entrevista ao jornal Eco em que, entre muitas outras coisas, deixou uma frase uma lapidar: “Quando eu quiser candidatar-me, candidato-me, e anuncio que me vou candidatar”.

Em privado, Passos nunca tinha afastado um eventual regresso à política ativa. Muito pelo contrário. Disse-o logo em 2016, quando decidiu recandidatar-se à liderança do PSD já depois de António Costa ter formado a ‘geringonça’ e assumido o cargo de primeiro-ministro. “Não posso deixar de afirmar que o projeto que tenho ficou a meio da sua realização, e a necessidade da sua execução no nosso país torna-se ainda mais relevante e premente. Sempre disse que o projeto político que tinha era para duas legislaturas.”

Mas esta é a primeira vez que o antigo primeiro-ministro diz, em público e de forma cristalina, que não descarta o seu próprio regresso a um projeto que julga inacabado. Ainda que salvaguardando que só o fará se as coisas correrem muito mal a Luís Montenegro, o desafio está mais do que lançado. Para já, Montenegro vai relativizando tudo e atirando a questão para o plano do “pitoresco”. Resta saber se será para sempre assim.

*Este artigo contém excertos do livro Na Cabeça de Montenegro (Zigurate), publicado em 2024