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Depois dos dias do demónio, os Gorillaz desceram da montanha

Parecem ser a única banda verdadeiramente mundial no topo do circuito pop rock, uma que pode tocar qualquer tipo de música, em qualquer língua, transpirando emoções. O novo "The Mountain" demonstra-o.

João Bonifácio
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Há algo de profundamente errado nisto: não devíamos estar a falar, em 2026, dos Gorillaz porque eles têm um novo disco (chamado The Mountain, para as pessoas que se interessam por informação), mas sim a comemorar o facto de o disco de estreia deles (que se chama Gorillaz) chegar agora aos 25 anos de idade. Devíamos estar a banhar-nos em nostalgia e a realçar o quão profundamente inesperado Gorillaz foi na altura, em vez de estarmos a discutir uma qualquer viagem à Índia que Damon Albarn fez recentemente (não estou certo disto, mas até ao fim do texto confirmo).

Até vou mais longe: nenhuma banda, nenhum artista, devia chegar aos 25 anos de carreira – pelo menos consecutiva. Porque isso é sinal de que não fez mais nada, é sinal de que deixou de ter as experiências de pessoa comum que inicialmente tornaram esse artista único.

Pensem nisto: um tipo toca umas coisas na guitarra, anda pela vida, tem empregos de merda para se sustentar, falha redondamente a sacar paixões e um dia, lá pelos 23 anos, consegue transformar isso num refrão decente. Os invernos gelados da infância, quando os pais ficaram desempregados e tiveram de ir viver com os avós, que não tinham dinheiro para aquecimento? Outro refrão.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/1RvJmGd47lKS4XMXs9j8hD?si=15bcCJG8T_-nsm-Tnc1z7Q

E quando o tipo (a tipa, a banda, o artista, pouco importa) repara, tem coisas para dizer e uma forma própria de dizer coisas. E tudo isso desaparecerá mal tenha sucesso – porque a seguir vai fazer digressões, tomar drogas com gente bonita e não vai ter 23 anos de vida até fazer novo disco.

Diz-se pouco isto, mas raramente nos apaixonamos só pela música – apaixonamo-nos pela história associada àquela música no momento em que a descobrimos. Não nos apaixonamos pelos Geese porque cada malha é perfeita – mas porque cada malha é perfeita e Cameron Winter é louco e fez mil canções sozinho em casa deprimido antes de explodir com os Geese.

E quando nos apaixonámos pelos Gorillaz, apaixonámo-nos pelo conceito: uma banda constituída não por pessoas reais mas sim por bonecada. E que liberdade imensa que isso era – permitia misturar pop e rap e soar ao futuro e ao mesmo tempo havia ali uma inocência marota que era amorosa, ou se calhar fomos nós que projetámos tudo isso naqueles bonecos.

O que quero dizer com tudo isto é: quem raio quer saber dos Gorillaz em 2026, porque raio haveria alguém de querer ouvir os Gorillaz em 2026? Bom, isto vai soar tremendamente cruel, mas: porque tanto Albarn como Jamie Hewlett (o ilustrador e cocriador da banda) perderem os pais mais ao menos na mesma altura e a dor foi de tal maneira que eles foram para a Índia descobrir quem raio eram nesta vida (embora isso seja fácil de responder: são dois artistas milionários).

https://www.youtube.com/watch?v=ucRulNQsuYQ

E basta isto para que não olhemos para The Mountain como apenas “mais um disco” na discografia dos Gorillaz; ainda nem clicámos no play e já imaginamos uma espécie de epopeia sonora e espiritual, uma reflexão sobre morte, luto e renascimento, imaginamos a música como um lugar em que um artista – e o ouvinte – pode viajar e transformar-se a si mesmo.

O disco, note-se, já estava a ser feito quando as mortes ocorreram. Isto é, o disco não é uma reação completa a esses acontecimentos, mas é inevitavelmente marcado por eles. Albarn viajou até à Índia, onde espalhou as cinzas do pai às margens do rio Ganges e absorveu a relação viva e colorida que a cultura local tem com a morte e o renascimento – muito diferente da visão ocidental mais soturna (diz ele, eu não faço ideia). Segundo Albarn, essa experiência não ficou confinada à sua memória pessoal, mas transformou-se na matéria prima conceptual do álbum.

Musicalmente, sente-se a Índia, mais não seja na instrumentação – aqui uma sitar, ali um bansuri, lado a lado com a junção de eletrónica e pop que os Gorillaz cultivam há décadas. A ambição é gigante: são 15 faixas que atravessam uma infinidade de géneros musicais, que vão a todas as geografias (numa canção estamos na Índia para logo a seguir estamos na América Latina), tudo isto com a colaboração de dezenas e dezenas de músicos, alguns dos quais já falecidos.

https://www.youtube.com/watch?v=kJChWUcesJ4

Não estou a exagerar: Albarn e Hewlett decidiram aproveitar as contribuições que músicos já mortos haviam feito nas colaborações anteriores com os Gorillaz. E é por isso que voltamos a ter Truegoy the Dove (dos De La Soul), ou o baterista nigeriano Tony Allen, ou Mark E. Smith (dos The Fall), ou Proof (D12) ou o ator Dennis Hopper, ou o cantor soul Bobby Womack. Durante os 66 minutos que o disco dura, todos eles voltam à vida.

Há um fio condutor, música indiana clássica, contexto em que se inserem as colaborações de Anoushka Shankar, Amaan Ali Bangash e Ayaan Ali Bangash, mas quer dizer, Delirium, cujo refrão é cantado/falado por Mark E Smith, é (no dito refrão) um excelente exemplo de disco sound. O álbum é uma misturada em todos os aspetos, não só nos géneros que aborda como nas línguas: canta-se em inglês, hindi, árabe, espanhol e Yoruba. Os Gorillaz parecem ser hoje a única banda verdadeiramente mundial no topo do circuito pop rock, no sentido de lhes ser possível tocar qualquer tipo de música, em qualquer língua, e fazer sentido no contexto da banda.

Claro que ao longo de 15 músicas, há momentos de introspeção, outros de celebração e muitas emoções: em The Moon Cave o diálogo entre Bobby Womack e Black Thought parece ser ao mesmo tempo festa e lamento; The Happy Dictator é pop lúdica e brilhante, mas está emocionalmente muito longe de The Hardest Thing e Orange County, que são dois dos momentos em que se toca diretamente na dor da perda.

https://www.youtube.com/watch?v=BrPffpg9KFM

A ideia de transcendência, de celebração da vida, surge em faixas como (a tristíssima e simultaneamente bela) The Shadowy Light ou The Sweet Prince; contam com participações de Paul Simonon e de Anoushka Shankar e conseguem encontrar um bocadinho de luz na escuridão, um bocadinho de beleza em toda a tristeza que as percorre.

As pessoas morrem e isso custa-nos; usar essa dor como uma proposta de reflexão sobre a vida, sobre como as outras culturas olham para a vida e para a morte, usar isso como uma espécie de celebração do caminho percorrido, inclusive recuperando quem já cá não está, tudo isso é belo e meritório.

Se isso faz de The Mountain um disco extraordinário? Bom, é óbvio que já não existe aqui a frescura do início – Albarn está mais velho, já passou por mais coisas, por mais perda. Mas não duvidem: há aqui meia dúzia de grandes canções e outra mão cheia de momentos de rasgo.