(c) 2023 am|dev

(A) :: Warner Bros. CEO da Netflix diz "soube o que tinha a fazer" após Paramount (rival "invulgar e irracional") subir oferta

Warner Bros. CEO da Netflix diz "soube o que tinha a fazer" após Paramount (rival "invulgar e irracional") subir oferta

Ted Sarandos, líder da Netflix, deu a primeira entrevista após a empresa desistir da aquisição da Warner Bros. A decisão foi tomada quando a empresa teve conhecimento da oferta da rival Paramount.

Cátia Rocha
text

Na primeira entrevista após a desistência da Netflix de comprar a Warner Bros (WBD), o co-CEO Ted Sarandos revela que a empresa soube “o que tinha a fazer” quando teve conhecimento da oferta revista da Paramount. A Netflix, que em dezembro fechou um acordo de fusão com a WBD, anunciou na passada quinta-feira que o negócio já não “era financeiramente atrativo”. A Paramount saiu vencedora e na sexta-feira foi anunciado um acordo de fusão, por 31 dólares por ação da WBD, totalizando 111 mil milhões de dólares (94,81 mil milhões de euros).

“Soubemos logo, quando fomos avisados na quinta-feira de que eles tinham uma oferta superior e vimos os detalhes do negócio”, diz Ted Sarandos à Bloomberg. “Soubemos exatamente o que íamos fazer.” Na quinta-feira, a Paramount elevou a oferta para 31 dólares por ação da WBD, contra os 27,75 dólares por ação da Netflix. A gigante de streaming tinha quatro dias para igualar a oferta, mas Sarandos admite que a empresa já tinha trabalhado em cenários de licitação e que oferecer mais pela WBD não era uma opção.

https://observador.pt/2026/02/27/netflix-desiste-da-compra-da-warner-bros-apos-proposta-superior-da-paramount/

“Tínhamos uma margem estreita sobre o que estávamos dispostos a pagar”, explicou Sarandos. “Não nos mexemos muito disso, exceto passar para uma oferta integral em dinheiro, para o negócio avançar mais depressa.” A Netflix começou por oferecer 27,75 dólares por ação da WBD, numa combinação de 23,23 dólares em dinheiro e os restantes 4,5 dólares em ações da empresa de streaming. Em janeiro, alterou a oferta para um pagamento integralmente em dinheiro, de 82,7 mil milhões de dólares (70,7 mil milhões de euros).

Sarandos admite que a Netflix percebeu que estava fora da corrida quando a Paramount fez “algo que não esperava, ao apresentar uma garantia pessoal para 111 mil milhões de dólares”. “(…) Aí tornou-se claro para nós. Tinham resolvido todas as questões e adicionalmente aumentaram o preço.” O financiamento da oferta será feito através de 47 mil milhões da família Ellison (40 mil milhões de euros). David Ellison, CEO da Paramount, é filho de Larry Ellison, o dono da Oracle e um dos homens mais ricos do mundo. O restante valor chegará através de compromissos adicionais de dívida de 54 mil milhões de dólares (46 mil milhões de euros) do Bank of America, Citigroup e Apollo.

O líder da Netflix explica que a empresa decidiu desistir de imediato do negócio, embora ainda tivesse alguns dias para responder, para tranquilizar o “mercado em geral”. “Há pessoas que estão a tentar tomar decisões com base no desfecho de como ia correr este negócio. Queríamos eliminar a incerteza o mais depressa possível.”

Ted Sarandos admite que estava a lidar com um rival “invulgar, irracional, seja qual for a palavra que queiram usar”. Até porque, em dezembro, após ser comunicado ao mercado que a WBD tinha escolhido a Netflix, a Paramount apresentou uma oferta hostil.

https://observador.pt/especiais/o-que-e-que-a-warner-bros-tem-para-abrir-uma-guerra-de-milhoes-entre-a-paramount-e-a-netflix/

O negócio entre a Paramount e a WBD ainda terá de passar pelo crivo dos reguladores. Questionado sobre os próximos desenvolvimentos, Sarandos considera que “vai ser fascinante ver os próximos passos” e diz “não ter ideia” sobre se será aprovado ou não. “Será altamente escrutinado, da mesma forma que fico satisfeito por o nosso ter sido altamente escrutinado. Deve ser analisado com o mesmo microscópio.”

Ted Sarandos considera que a reputação da Netflix não sairá beliscada por desistir do negócio — as ações da empresa subiram 10% após anunciar a desistência da operação. “Se não arriscássemos de vez em quando, se não aproveitássemos uma oportunidade quando ela se apresenta porque estamos a tentar gerir a nossa reputação em vez de gerir o nosso negócio, isso seria mau”, afirma. “Isto deve reforçar a nossa reputação de sermos disciplinados com o capital dos nossos acionistas.”

A Netflix vai encaixar 2,8 mil milhões de dólares (2,4 mil milhões de euros) como compensação por sair do negócio. Este valor será pago pela Paramount e é um dos termos da oferta revista. Questionado sobre as especulações de que receber a compensação seria o plano principal da Netflix, ao mesmo tempo que ‘obriga’ um rival a gastar mais dinheiro, Sarandos afirma que “há formas mais fáceis de fazer 2,8 mil milhões”. “Estávamos em processos profundos com mais de 50 organismos regulatórios em todo o mundo. Gastámos muito tempo e energia. Muitas pessoas trabalharam imenso para este negócio.” Mas sublinha que, embora “definitivamente interessada” na WBD, a Netflix “não precisa” da companhia.

Ted Sarandos deseja “boa sorte” à rival, tanto no processo regulatório quanto ao da fusão. “Não consigo imaginar fazê-lo enquanto se tenta cortar milhares de milhões de dólares.” Esta segunda-feira, David Ellison comunicou ao mercado que a junção das duas empresas resultará numa dívida líquida de 79 mil milhões de dólares (67,4 mil milhões de euros). “Hoje a Paramount tem metade das pessoas que tinha há um ano. Isso dá alguma ideia de para onde isto vai e o que representará para o negócio.” Ted Sarandos sugere que terão de ser feitos “cortes de excessos de 16 mil milhões de dólares” (13,7 mil milhões de dólares), com consequências para Hollywood. “Haverá menos pessoas na produção, menos pessoas a trabalhar.”

“É um ativo único que estava disponível — uma propriedade intelectual incrível, cem anos a contar histórias, capacidade de produção, um negócio complementar entre a HBO e a Netflix que ia criar poupanças para os consumidores. Ainda acredito em todos os pontos positivos. Só que acreditava neles a 27,75 dólares por ação”, destaca.

Um “ativo único” que não voltará a estar disponível no futuro? “Possivelmente. Ou se olharmos para a história da Warner Bros…”, deixa no ar Ted Sarandos. O executivo refere-se ao historial de transações da centenária empresa, que já esteve nas mãos da AT&T, por exemplo. O nome Warner Bros Discovery também resulta de uma fusão da Warner Media com a Discovery, concluída em 2022 por 43 mil milhões de dólares.

Paramount rejeita para já venda de canais da Warner Bros

A oferta feita pela Paramount implica a aquisição da totalidade dos ativos da WBD, incluindo o universo de canais por cabo — algo que não estava incluído na oferta da Netflix. A WBD é dona de canais como a HBO, CNN, Food Network, Discovery Channel ou Cartoon Network, entre outros.

Mas, para já, a Paramount não está interessada em vender canais da WBD. “Acreditamos nos ativos que estamos a comprar e não há planos para vender ou alienar um pacote de ativos de cabo neste momento”, diz Andy Gordon, líder de estratégia da Paramount, citado pelo The Wrap. “Na verdade, achamos que, considerando as marcas que a Warner Brothers está a trazer para a Paramount, têm muitas oportunidades para pensar em todos os diferentes aspetos do que podem fazer, tanto na vertente linear quanto no lado digital.”