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O caso único no Irão, os treinadores no Qatar e nos Emirados e as modalidades no Kuwait: os portugueses no Médio Oriente

Para além de Ricardo Alves, o único português no Irão, existem dezenas de outros cidadãos a jogar ou treinar no Médio Oriente — incluindo um internacional, o filho de Folha e o sobrinho de Boa Morte.

Mariana Fernandes
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Os bombardeamentos dos EUA e de Israel ao Irão e a consequente retaliação dos iranianos contra oito países, incluindo Bahrain, Qatar, Emirados Árabes Unidos ou Kuwait, levou a atualidade nacional a olhar para os portugueses que vivem em todos os países afetados desde a manhã de sábado — principalmente para os jogadores e treinadores espalhados pelo Médio Oriente e para lá da Arábia Saudita.

Ricardo Alves é caso único no Irão e já deixou o país de carro, através da fronteira com a Turquia, sendo que Ricardo Sá Pinto foi despedido do Esteghlal há pouco mais de uma semana. Há jogadores portugueses em Israel, no Qatar, no Bahrain e nos Emirados Árabes Unidos, para além de alguns treinadores, e nenhum registo de atletas no Líbano. No Kuwait, curiosamente, os atletas nacionais que vivem no país estão principalmente espalhados pelas modalidades.

Irão. O caso único de Ricardo Alves e o despedimento de Ricardo Sá Pinto há uma semana

Natural de São João de Ver, Ricardo Alves é o único português a jogar no Irão e já conseguiu sair do país. O médio de 32 anos é um dos 13 cidadãos nacionais a viver no país e, segundo o jornal Record, é também um de dois que já deixaram território iraniano de carro através da fronteira com a Turquia. O jogador estava a realizar a primeira temporada pelo Sepahan, somando três golos e três assistências em 19 jogos, sendo que antes já tinha estado no Tractor durante três anos.

Em Portugal, Ricardo Alves cumpriu a formação essencialmente no FC Porto, passando depois por Belenenses e Portimonense antes de emigrar pela primeira vez para rumar ao Rapid Bucareste da Roménia. Seguiu-se o Olimpija Ljubljana da Eslovénia e o Orenburg e o Krylya Sovetov da Rússia, até que em 2021 decidiu mudar-se para o Cazaquistão para representar o Kairat Almaty durante duas temporadas.

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Até há bem pouco tempo, Ricardo Sá Pinto também estava no Irão e treinava o Esteghlal, tendo sido despedido há cerca de uma semana — naquela que foi a segunda passagem pelo clube depois de já ter estado no futebol iraniano em 2022/23. Há um mês, quando os protestos da população se intensificaram nas ruas, o treinador português chegou a estar refugiado na embaixada de Portugal em Teerão.

“Está tudo aparentemente calmo, com pessoas na rua e carros a circular. É claro que estamos apreensivos para perceber o que se está a passar ou poderá ocorrer, mas estamos em segurança e temos planos de emergência bem delineados e preparados. Senti-me na obrigação de ficar, continuar a dar os treinos à minha equipa e perceber se há condições. Para mim, é difícil abandonar nesta altura. Espero que tudo se possa resolver pelo melhor. É o meu desejo”, disse, na altura, num vídeo que publicou nas redes sociais.

Bahrain. Alguns jogadores e Nandinho, que começou a ouvir sirenes enquanto tomava café

De acordo com os dados mais recentes, existem cinco jogadores com nacionalidade portuguesa a jogar no Bahrain: Ricardo Silva, guarda-redes de 26 anos que está no Al Khalidiya; Obi, alcunha de João Gomes, central de 27 anos que está no Al Ittifaq; Elliot Simões, avançado de 26 anos do Al Muharraq; Abdullah Olatunji, médio com dupla nacionalidade nigeriana do Al Shabab; e ainda Bruno Santos, defesa de 33 anos com dupla nacionalidade brasileira também do Al Muharraq.

Para além dos jogadores, há também um treinador português no Bahrain: Nandinho, que orienta Elliot Simões e Bruno Santos no Al Muharraq. Aos 52 anos, chegou ao país pela primeira vez em 2023 para treinar o Al Ahli, sendo que pelo meio passou pela Arábia Saudita e pelo Al Bukayriyah. Em entrevista à Renascença, o treinador natural do Porto contou que este sábado começou a ouvir as sirenes de alerta enquanto tomava café na rua.

“Estávamos num café com portugueses e de repente começámos a ouvir as sirenes a tocar e a receber alertas no telemóvel. Pensávamos que era um simulacro, porque às vezes acontece, eles fazem esses simulacros. Mas de repente começámos a ouvir rebentamentos e a ver fumo ao longe. Vimos logo que não era nenhum simulacro, que era um ataque. Sabíamos que havia esta tensão, pelo facto de os EUA estarem a atacar o Irão e por sabermos que o Irão podia ripostar, atacando bases aqui nestas zonas. E aqui no Bahrain há uma base norte-americana, depreendemos logo que seria um ataque à base”, explicou.

Sobre o futebol, que está naturalmente parado no Bahrain, Nandinho diz ser “prematuro” equacionar o regresso à competição. “Não sabemos quanto tempo é que isto vai durar, não estamos a treinar e não podemos nem vamos correr esse risco. E, dependendo do tempo de paragem, depois ainda vai demorar, claro, porque para reiniciar vamos ter de fazer quase uma pré-época. Se forem só alguns dias não é preciso, mas se forem semanas é quase como uma nova pré-época para recomeçar as competições”, acrescentou o treinador, que está acompanhado por dois adjuntos portugueses, Rui Valente e Rafael Rocha.

Israel. O naturalizado Miguel Vítor e a antiga promessa do Sporting

Em Israel, país que bombardeou e foi bombardeado nos últimos dias, também existem vários jogadores portugueses — com óbvio destaque para Miguel Vítor, central formado no Benfica que está no Hapoel Beer Sherva e que entretanto adquiriu a dupla nacionalidade israelita, sendo já internacional por Israel, já que está no país há uma década.

No mesmo clube, Miguel Vítor é colega de equipa de Hélder Lopes, lateral-esquerdo de 37 anos que está em Israel desde 2021 e que em Portugal representou Sp. Espinho, Tondela, Beira-Mar e P. Ferreira, entre outros. No Ironi Tiberias jogam Sambinha, central de 33 anos que chegou a atuar na equipa B do Sporting, e também Rogério Santos, guarda-redes de 26 anos formado no Sp. Braga que jogou no Trofense, no Feirense e no Lank Vilaverdense.

No Maccabi Telavive está Hélio Varela, extremo com formação entre o Cova da Piedade e o V. Setúbal que jogou no Portimonense em 2023/24, enquanto que Zé Turbo, avançado de 29 anos que em 2014 saiu do Sporting ainda com idade de júnior para rumar ao Inter Milão, está no Maccabi Bnei Raina. Aílson Tavares, médio ex-Académica, e Miguel Silva, guarda-redes ex-V. Guimarães e Marítimo, são colegas de equipa no Beitar Jerusalem, com Saná Gomes a jogar no Hapoel Haifa e Xande Silva no Hapoel Telavive. Por fim, Heriberto, avançado formado no Sporting que ainda há bem pouco tempo passou por Famalicão e Estoril, representa o Maccabi Netanya.

Qatar. Para além dos jogadores, Artur Jorge e Pedro Martins

Tal como acontece em Israel, também o Qatar congrega um grupo considerável de jogadores portugueses. André Amaro e Tiago Silva jogam juntos no Al Rayyan, que é orientado por Artur Jorge, antigo treinador do Sp. Braga que conquistou a Taça Libertadores com o Botafogo. Diogo Abreu, médio de 23 anos formado no FC Porto que chegou a estar na equipa B do Sporting, representa atualmente o Al Waab, enquanto que Diogo Amaro, central de 21 natural da Figueira da Foz, saiu da Académica em 2024 para rumar ao Al Sailiya.

Por fim, no capítulo dos jogadores, dois nomes bem conhecidos: Artur Jorge, filho do treinador com o mesmo nome que está à frente do Al Rayyan, joga no Al Shahaniya, e Rúben Lameiras, extremo formado no Tottenham que em Portugal representou Famalicão, V. Guimarães, Desp. Chaves e Casa Pia, está agora no Al Markhiya depois de uma temporada também no Al Shahaniya. No que diz respeito a treinadores, destaque ainda para Pedro Martins, que está no Al Gharafa há quatro anos depois de quatro épocas e meia no Olympiacos e em Portugal passou por Marítimo, Rio Ave e V. Guimarães.

Emirados Árabes Unidos. O filho de Folha, o sobrinho de Boa Morte e o internacional por Portugal

Excluindo a Arábia Saudita, o maior contingente de jogadores portugueses do Médio Oriente acaba por estar concentrado nos Emirados Árabes Unidos — acrescentando-se ainda dois treinadores, José Morais no Al Sharjah e também Dimas no Al Wahda. Este último tem ainda a particularidade de treinar vários portugueses, como é o caso de Bernardo Folha (filho de António Folha), Rúben Canedo e Guga.

Aylton Boa Morte, sobrinho de Luís Boa Morte, joga no Khorfakkan, enquanto que Carlos Lomba, globetrotter que já passou por Líbano, Lituânia e Índia, está no Dragon City. João Freitas, Diogo Capitão e Rafa Rodrigues espalham-se por Al Rams, Emirates Club e Al Ain, Samuel Pedro está no Dubai United e Nélson Pereira representa o Al Ittifaq, enquanto que Pedro Malheiro, lateral ex-Boavista que chegou a estar no radar do Benfica, está no Al Wasl.

Por fim, um internacional português com uma Liga das Nações no palmarés: Mário Rui, lateral-esquerdo de 34 anos que estava sem clube há mais de um ano e desde que saiu do Nápoles, assinou nos últimos dias pelo Forte Virtus da terceira divisão dos Emirados Árabes Unidos.

Kuwait. O país das modalidades

De forma curiosa, a larga maioria dos atletas com nacionalidade portuguesa a atuar no Kuwait pertencem às modalidades: Nuno Miranda, no futsal, Victor Iturriza, cubano naturalizado português do andebol, José Gomes, no voleibol, e ainda Gonçalo Ribeiro, também no andebol. No futebol, Pedro Machado, central de 29 anos, é caso único no Al Tadhamon.