Tentou esticar-se para evitar uma perda de bola, caiu no chão, ficou a contorcer-se de dores agarrado à zona do tendão de Aquiles da perna direita. O diagnóstico do problema estava feito apenas numa primeira imagem que mostrava um dos melhores jogadores da atualidade na NBA caído e a bater com a mão no chão perante aquele que pode ser o maior adversário de uma estrela, o próprio corpo. Os Boston Celtics, que perdiam na meia-final da Conferência Este por 2-1, viam naquele instante todas as esperanças de inverterem o rumo da eliminatória caírem por terra. Mais do que isso, era todo um projeto que acabava de ruir. Tudo passaria a ser equacionado em torno do infortúnio de uma das grandes figuras que ficaria largos meses de fora.
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As hipóteses de continuar a lutar pelo título da Conferência e da NBA baixavam de forma drástica, o plantel foi adequado a essa contingência. Jrue Holiday, base que tinha sido um dos mais valiosos acrescentos para o conjunto de Joe Mazzulla, rumou aos Portland Trail Blazers. Kristaps Porzingis, poste tantas vezes de cristal pelas lesões contrarídas mas que era de ouro quando estava na plenitude das faculdades, foi trocado para os Atlanta Hawks. Al Horford, aquele veterano que tantas vezes surgia como pêndulo nos momentos críticos, ficou em free agency e assinou pelos Golden State Warriors. Ficaram Jaylen Brown e Derrick White entre os habituais titulares, Payton Pritchard e Sam Hauser tinham espaço para crescer. E Neemias Queta?
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O poste português foi sujeito a uma intervenção cirúrgica ao joelho no final da temporada para começar a nova época sem limitações mas ficava a dúvida sobre a capacidade de afirmação que podia ter num contexto com tanto de positivo como de arriscado, tendo em conta a passadeira estendida para somar muitos mais minutos do que nas épocas anteriores mas o “peso” de ser o poste mais solicitado para dar a força interior a uma equipa talhada para jogar em campo aberto e lançar muito de fora. Neemias superou os desafios. Um, outro, mais um, quase todos. E, na madrugada desta segunda-feira, teve o expoente máximo de toda essa evolução refletido nos números, batendo o recorde de pontos num jogo e saindo como MVP do triunfo dos Celtics frente aos Philadelphia Sixers (114-98) com todo o pavilhão a puxar pelo português.
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O encontro nem começou da melhor forma para a equipa de Boston, que voltou a contar com Derrick White, Baylor Scheierman, Jaylen Brown, Sam Hauser e Neemias Queta de início com o experiente Nikola Vucevic e o jovem espanhol Hugo González na rotação das posições interiores. No entanto, e apesar da desvantagem no final do primeiro período, os Celtics chegaram ao intervalo já na frente com 16 pontos do português, que nunca tinha marcado tantos pontos numa só metade do encontro. O recorde chegaria mais tarde, com o poste a chegar ao recorde de 27 pontos com mais 17 ressaltos (dez ofensivos), três desarmes, duas assistências e um roubo de bola. Tudo apenas em 27.17 minutos de utilização, com uma percentagem de lançamentos de campo acima dos 70% (dez em 14, 71,4%) e mais 70% na linha de lance livre (sete em dez). Tudo numa noite que terminou com o público a gritar “MVP, MVP” rendido à exibição do português.
Foi ótimo de ouvir tudo isso. Distraiu-me um pouco e até falhei alguns lançamentos… Tenho de trabalhar nisso”, admitiu Neemias Queta, que tinha como recorde num jogo 19 pontos.
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“Sinto que o treinador [Joe Mazzulla] depositou muita confiança em mim, apoiando-me em tudo. Não foi o verão mais fácil para mim mas esteve sempre lá para mim, tentando ajudar-me e dar-me a maior confiança possível para que pudesse entrar em campo e ajudar a equipa a vencer, como aconteceu agora. Foi crucial para mim receber a chamada dele antes de jogar pela Seleção. Saber que a minha equipa iria depender muito de mim para ter um bom desempenho todas as noites… Jogar por Portugal foi muito importante para mim este verão, permitiu-me ganhar muito ritmo e confiança. Trabalhámos muito durante o verão, antes e depois da cirurgia”, explicou o poste nas entrevistas depois do encontro no TD Garden.
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“Aprecio muito que o treinador puxe por mim. Depois de uma noite destas podia ter a tentação de relaxar mas o Joe está sempre em cima para tentar melhorar. É algo que tem acontecido nos últimos jogos. No momento se calhar penso que não consigo agarrar [a bola] mas pensando depois melhor nisso… Vou tentar melhor e espero tentar conseguir alguns nos próximos jogos. Sinto que tudo o que está acontecer começou quando estava na Seleção, jogar por Portugal foi muito importante para mim este verão porque me permitiu ganhar ritmo e mais confiança. A partir daí, foi uma fase de construção”, acrescentou.
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Os elogios estenderam-se a toda a equipa dos Celtics, a começar por Joe Mazzulla. “Ele continua a melhorar, mas é preciso saber baixar a cabeça e continuar a trabalhar. Tens de ter um nível de profissionalismo, ética de trabalho e compreensão. Ele trouxe tudo isso, com grande responsabilidade, para mostrar que tem tudo o que é preciso para ser o poste titular dos Celtics. Parte de lhe dizer no verão que ele seria o titular foi dar-lhe tempo para mentalizar-se e preparar-se física, mental e emocionalmente para o que significa ser poste titular dos Celtics”, argumentou o técnico que foi campeão pela equipa de Boston em 2024.
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“Temos de dar crédito pelo trabalho que tem feito, não só este ano. Agora tem a responsabilidade de continuar a evoluir, independentemente do processo. Daqui a 24 horas jogamos outra vez. Desarmes de lançamento? Se ele puder agarrar a bola, que a agarre. Para quê dar outra posse de bola à equipa adversária? É claramente algo em que ele tem de melhorar, assumiu também Joe Mazzulla. “Não vou dizer que estou surpreendido, estou feliz. Estou satisfeito por ver a sua progressão, estamos sempre a falar com ele. Acho que ele pode atingir outro patamar e está a começar a alcançar esse nível. Temos de continuar a dar-lhe confiança, mas esta noite esteve excelente”, completou o companheiro Jaylen Brown.
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Os números de Neemias Quetas frente aos Philadelphia Sixers ficaram para a sua história mas confirmaram também aquilo que tem sido a tendência dos Boston Celtics na presente temporada, onde levam um registo de 40 vitórias e 20 derrotas que os coloca na segunda posição da Conferência Este apenas atrás dos Detroit Pistons: a equipa marca praticamente os mesmos pontos (116,3 na fase regular de 2024/25, 115 nesta fase regular), está a lançar menos de fora e com menor eficácia mas ganha mais ressaltos no total, em especial ressaltos ofensivos. E esse é um dos maiores elogios que se pode fazer ao impacto de Neemias.
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