Meia-noite e estava preparada para ver desfilar alguns dos indivíduos mais egocêntricos do planeta. Mas já chega de notícias sobre política internacional por hoje. Vou-me alienar nas próximas horas e assistir à cerimónia que premeia os terceiros mais egocêntricos (os segundos são os realizadores): os atores.
Esta é a noite exclusivamente deles na temporada de prémios e acontece desde 1995. Até ao ano passado intitulados como “SAG Awards”, agora renomeados para Actor Awards, são da responsabilidade do Screen Actors Guild (SAG), o mais conhecido sindicato americano de atores. Esta é a única cerimónia que premeia apenas quem veste as personagens na televisão e no cinema. 15 prémios para atores votados pelos próprios, cerca de 160.00 membros do SAG. E passam na Netflix, o que me dá uma oportunidade rara de ver Hollywood em direto. É especial.
Começamos com a passadeira vermelha e não tenho muito a relatar. Uma hora de “You’re gorgeous!”, “I’m obsessed!”, “You look stunning!”com um intervalo para o anúncio dos primeiros prémios da noite para os melhores elencos de duplos. Anunciados ali mesmo na carpete, com a malta a passar e a pousar para as fotos, sem ninguém a receber os prémios. Em cinema venceu Mission Impossible — The Final Reckoning e em série The Last of Us. Achei um bocadinho na base do desprezo. Ou bem que lhes dão valor e os incluem no resto da cerimónia ou mais vale estarem quietinhos.
A cerimónia começa com um sketch com as personagens de Abbot Elementary a discutir sobre as séries e os filmes nomeados. Com alguma graça, mas nada de transcendente, que foi o que achei da série, mas só vi a primeira temporada. As minhas desculpas aos fãs. Kristen Bell (Nobody Wants This, The Good Place e ainda a Anna de Frozen) apresenta a cerimónia pela terceira vez. Não vi as anteriores, mas vou acreditar que correram bem. Não sou propriamente entusiasta da anfitriã, mas também não tenho nada contra, logo vinha de espírito aberto. E depois ela sobe a palco e canta uma música sobre nomes artísticos e eu bocejo pela primeira vez e ainda não apresentaram prémio nenhum. Força, guerreiros! Fiquem comigo! Ninguém larga a mão de ninguém.
Melhor Atriz em Série de Drama
Britt Lower, “Severance”
Parker Posey, “The White Lotus”
Rhea Seehorn, “Pluribus”
Aimee Lou Wood, “The White Lotus”
VENCEDORA: Keri Russell, “A Diplomata”

O primeiro prémio da noite foi apresentado por Katherine Hahn, hilária em The Studio, e Connor Storrie, o atual hiper foco da internet graças a Heated Rivalry. A Katherine estava com ar de quem tinha recebido um prémio, com a mão no ombro de Connor e ninguém aqui a vai julgar por isso. É muito difícil escolher entre as nomeadas que são todas do caraças, perdoem o meu francês. Mas como escrevi aqui, esta diplomata arrebatou-me recentemente. E tenho para mim que a Rhea Seehorn vai merecer ainda mais na próxima temporada de “Pluribus”, é sé um até já ao prémio. Começamos bem.
Melhor Ator em Série de Comédia
Ike Barinholtz, “The Studio”
Adam Brody, “Nobody Wants This”
Ted Danson, “A Man on the Inside”
Martin Short, “Only Murders in the Building”
VENCEDOR: Seth Rogen, “O Estúdio”
Jenna Ortega, a Wednesday de Wednesday sobe a palco para entregar o prémio com um ar um pouco entediado. Seth Rogen foi o premiado, como expectável. Compensou a falta de entusiasmo de Jenna, como lhe é habitual, e também seria a minha escolha nesta categoria. 2-0 para mim.
Kristen Bell volta a palco para promover uma partida de pingue-pongue entre Ted Danson e Jackie Tohn. Para a piada que teve, não valeu o preço do aluguer da mesa.
Melhor Atriz em Minissérie ou Telefilme
Claire Danes, “The Monster in Me”
Erin Doherty, “Adolescência”
Sarah Snook, “All Her Fault”
Christine Tremarco, “Adolescência”
VENCEDORA: Michelle Williams, “Dying for Sex”

Janelle James (Abbot Elementary) e Sterling K. Brown (Paradise, This is Us) foram os próximos apresentadores e não foi propriamente um sucesso. Alguém não fez os TPC. Quantos às nomeadas, só vi Adolescência, portanto, não tenho bem lugar de fala. Dying for Sex já estava na minha lista. Michelle Williams é uma ótima atriz, que acho que me fez chorar em quase todos os filmes em que vi com ela, portanto, este Dying for Sex vai para o topo da lista de tarefas.
Melhor Atriz em Série de Comédia
Kathryn Hahn, “The Studio”
Jenna Ortega, “Wednesday”
Jean Smart, “Hacks”
Kristen Wiig, “Palm Royale”
VENCEDORA: Catherine O’Hara, “The Studio”
Lisa Kudrow, a eterna Phoebe de Friends, disse tudo. Segundo ela, se era para fazer um sketch durante a apresentação de nomeadas com desempenhos cómicos tão brilhantes tinha que valer mesmo a pena. E corta para “As nomeadas são…” Perfeita. O prémio póstumo para Catherine O’Hara por The Studio era previsível, mas não menos merecido por isso. Foi um Seth Rogen emocionado que subiu a palco e as lágrimas na plateia acompanharam-no. Deixou um repto para partilharem o trabalho de O’Hara a quem não o conhece. Bem dito. Bendita Catherine.
Melhor Ator em Série de Drama
Sterling K. Brown, “Paradise”
Billy Crudup, “The Morning Show”
Walton Goggins, “The White Lotus”
Gary Oldman, “Slow Horses”
VENCEDOR: Noah Wyle, “The Pitt”

Foi a vez de Paul W. Downs e Megan Stalter, ambos do elenco de Hacks que ainda não vi (já sei, é uma falha que vou corrigir em breve) . Meg agradece o prémio pelo elenco de Hamnet e Paul diz-lhe que não é para isso que ali estão e dá-lhe a notícia que a parte deles no filme foi cortada. E a partir daí é um desvario meio pateta, mas que resultou para mim. Quanto à categoria, apesar de não ter visto Slow Horses, à partida sou apologista de premiar Gary Oldman, no geral e em particular. Apaixonei-me anos pelo Drácula dele, com 15 aninhos, e não mais me desapaixonei. No entanto, estava a torcer pelo Walter Goggins. Apesar de gostar de The Pitt, não me arrebatou. Mas pronto. Parabéns a Noah Wyle, que levou o cartão do Screen Actors Guild no bolso e mandou um props para os sindicatos do mundo. Aposto que a Isabel Camarinha não estava a contar com esta.
Melhor Elenco de Série de Comédia
“The Bear”
“Abbott Elementary”
“Hacks”
“Only Murders in the Building”
VENCEDORA: “The Studio”
De momento, estou a ver o The Office (a acabar a sexta temporada), ou seja, avistar Jenna Fischer (a Pam), Mindy Kaling (a Kelly), Ellie Kemper (a Erin) e a Angela Kinsey (Angela) provocou-me um berro desajustado para o adiantado da hora. Angela e Jenna referem o podcast que têm sobre o behind the scenes e Mindy pergunta se deveria fazer um podcast sobre a escrita da série, ao que Ellie responde: “Ninguém quer saber dos guionistas.” Senti-me um pouco atacada… Mas não mentiu, Andreia. The Studio já tinha limpado quase tudo o que é prémio para comédia nos Emmy e nos Globos de Ouro e volta a ganhar aqui. É praticamente impossível competir com um elenco que inclui Martin Scorsese.
A apresentadora volta para um tête-à-tête com a magnífica Rhea Seehorn de Pluribus, para lhe pedir esclarecimentos sobre a série, aludindo à complexidade do enredo. Bom momento, mas com a Kim de Better Call Saul não podia ser de outra maneira.
Melhor Ator em Minissérie ou Telefilme
Jason Bateman, “Black Rabbit”
Stephen Graham, “Adolescência”
Charlie Hunnam, “Monstro: A História de Ed Gein”
Matthew Rhys, “The Monster in Me”
VENCEDOR: Owen Cooper, “Adolescência”
Damson Idris (o antagonista que vira discípulo de Brad Pitt em F1: The Movie, que também se podia chamar “Top Gun, mas com carros”) e Yerin Ha (o novo diamante da atual temporada de Bridgerton) airosos e fofos leem o teleponto, distribuem frescura e beleza e foi isso. O espantoso talento de Owen Cooper em Adolescência foi novamente premiado, mas ele não estava lá para receber o prémio. Também já tinha ficado viral quando ganhou o Emmy, portanto, não valia a pena fazer um voo intercontinental a esta altura do campeonato.
Voltamos ao pingue-pongue. Apesar de Addam Scott (Severance) ter dado o ar da sua graça, continua profundamente meh.
Melhor Elenco de Série de Drama
“The Diplomat”
“Landman”
“Severance”
“The White Lotus”
VENCEDORA: “The Pitt”
Seguem-se Claire Danes e Damian Lewis, antigos companheiros de cena em Homeland, série que nunca ganhou este prémio. Os atores pedem a desforra e recordam que um ainda mais imberbe Chalamet fez parte do elenco. E esta, hein? Não vi Landman, já dei a minha opinião sobre o drama clínico, e gosto muito das outras três. Sinto-me pessoalmente ofendida com esta escolha e não vou dizer mais nada, porque contrariada e com a birra de sono, tem tudo para descambar e os meus advogados não deixam.
Melhor Ator Secundário em Filme
Miles Caton, “Pecadores”
Benicio del Toro, “One Battle after Another”
Jacob Elordi, “Frankenstein”
Paul Mescal, “Hamnet”
VENCEDOR: Sean Penn, “Batalha Atrás de Batalha”
Allison Janey (A Diplomata) inaugura as categorias de cinema. Ainda não vi Hamnet, porque chorona como sou, sinto que preciso de ter um médico na sala. Considerando o restante, e apesar de achar que Batalha Atrás de Batalha não é, de todo, o novo Pulp Fiction como vi escrito por aí, estava convencida que Sean Penn tinha isto no papo e bem. E assim foi. Menção honrosa para Benicio que também faz um brilharete no filme de Paul Thomas Anderson.
Bell diz que fazer o papel de um profissional de saúde não é assim tão difícil e o protagonista de The Pitt desafia-a a ler uma página de guião cheia de termos médicos. Sabem o que não é assim tão fácil? Apresentar uma cerimónia destas e ter, de facto, graça. Bocejei outra vez.
Sabem quem fez bem isto, no momento que lhe coube? Woody Harrelson a entregar o Prémio Carreira, mais exactamente o “SAG-AFTRA Life Achievement Award” a Harrison Ford. “Tens mais talento no teu dedo mindinho que eu no meu dedo mindinho”. Gargalhei.

Ford devolveu um discurso na mesma moeda: “Estou numa sala cheia de atores, muitos deles nomeados para receber um prémio pelo seu trabalho extraordinário. Eu estou aqui para receber um prémio… por estar vivo. Ainda assim acho um pouco estranho receber um prémio por feitos de uma vida, quando estou a meio da minha carreira. É um pouco cedo, não acham?” E a seguir falou sobre a sorte de encontrar uma profissão que lhe permitiu encontrar-se a si mesmo. E deixou-me de lágrima do olho. O homenageado é o homem que pôs toda uma geração a colocar a cruz em Arqueologia na candidatura ao ensino superior e a desiludir-se majestosamente com a escolha. Não todos, mas muitos, de acordo com uma sondagem com base nas vozes da minha cabeça. Tenho uma história perturbadora com o Indy para vocês: vi o segundo tomo Indiana Jones e o Templo Perdido na sala de audiovisuais da minha escola. Ficava num pavilhão pré-fabricado, com um calor tropical e sem ar condicionado. A Susaninha de 12 anos era tão ou mais nojentinha do que é hoje. De maneiras que na cena em que servem miolos de macaco, a sandes de croquete do refeitório veio-me à boca, o que levou à vexante situação de vomitar na sala de professores. Só muito recentemente, num daqueles momentos durante a pandemia de “cheguei ao fim do catálogo” resolvi ver a saga e ultrapassei o trauma. Dispensava a bicheza toda, principalmente as cobras, mas é entretenimento do bom. E agora, atirar para cima da mesa uma opinião polémica: o meu papel preferido do homenageado da noite é o mais recente. O Paul de Shrinking. Processem-me. Mas vejam a série primeiro.
Sean Astin, o Presidente do SAG-Aftra, de Goonies, Senhor dos Anéis e, mais recentemente, Stranger Things, veio fazer o discurso institucional, mas fê-lo com leveza e rapidez. O que se quer. Se forem das vossas ligações. mandem isto ao Francisco Pedro Balsemão e ao Mário Ferreira, por caridade.
Melhor Atriz Secundária em Filme
Odessa A’zion, “Marty Supreme”
Ariana Grande, “Wicked: For Good”
Wunmi Mosaku, “Pecadores”
Teyana Taylor, “Batalha Atrás de Batalha”
VENCEDORA: Amy Madigan, “Weapons”
Orlando Bloom seguiu o exemplo de Astin, leu o teleponto num instante e foi à vida dele. Ainda não vi Weapons e estava a torcer pela atriz de Pecadores. A presença da Wunmi Mosaku é magnética. Mas Amy Madigan subiu a palco cheia de pinta, com uma alegria contagiante, comparou a estatueta do prémio com o Ken da Barbie pela falta de genitália e eu ri-me e fiquei feliz por ela.
“In Memoriam”
A diva Sarah Paulson sobe a palco, o que é sempre um acontecimento, para fazer o clássico momento do “Descanse em Paz”, marcado pelas muito recentes mortes de Eric Dane (Anatomia de Grey), James Van Der Beek (Dawson’s Creek) e Robert Duvall (O Padrinho e tanto mais). Momento esse encerrado com uma interpretação de This Little Light of Mine, ao vivo, por Miles Canton de Pecadores, acompanhado por um coro gospel”. Bonito a valer.
Voltou o pingue-pongue. Não vou bater mais no ceguinho. Acho que já me fiz entender.
Melhor Atriz em Filme
Rose Byrne, “if I Had Legs I’d Kick You”
Kate Hudson, “Song Sung Blue”
Chase Infiniti, “Batalha Atrás de Batalha”
Emma Stone, “Bugonia”
VENCEDORA: Jessie Buckley, “Hamnet”

Andy Garcia veio entregar um prémio e espalhar charme. Estou um bocadinho desamparada nesta categoria, não por causa do charme, mas porque só vi as interpretações de Emma Stone e Chase Infinity. Entre as duas escolhia a Emma, mas acredito que a Jessie esteja superior. Olha eu a tratá-las pelo primeiro nome, assim tu cá, tu lá. Porque, claramente, já estou mais para lá do que para cá. A vencedora agradeceu em particular à companheira de elenco Emily Watson, que em Breaking Waves a fez pensar “É isto que eu quero fazer.” E a Emily caiu num pranto, pudera.
Melhor Ator em Filme
Timothée Chalamet, “Marty Supreme”
Leonardo DiCaprio, “One Battle after Another”
Ethan Hawke, “Blue Moon”
Jesse Plemons, “Bugonia”
VENCEDOR: Michael B. Jordan, “Pecadores”

Viola Davis, linda em verde esmeralda, chegou e disse. Constatou que as personagens interpretadas têm em comum a teimosia e não querer ouvir ninguém. “E não há nada mais masculino que recusar-se a ouvir.” Não sou apologista de atribuir características por género, mas Viola entregou com piada. Aqui estava pelo Michael B. Jordan, mas não contava que me fizessem a vontade e não tem nada a ver com ele ser giro nas horas. Juro, Joca. Infelizmente, acho que não vai ganhar o Óscar, mas este já ninguém o tira. E pareceu-me que a plateia, neste momento, teve a reação mais entusiasta da noite. B. Jordan agradeceu à mãe e ao realizador Ryan Coogler. Eu também agradeço aos dois (wink).
Melhor Elenco de Filme
“Frankenstein”
“Hamnet”
“Marty Supreme”
“Batalha Atrás de Batalha”
VENCEDOR: “Pecadores”
Samuel L. Jackson trouxe um fato brilhante e a dose habitual de carisma para fechar a noite. E a gargalhada que soltou assim que leu o nome do vencedor revelou antecipadamente mais um prémio para Pecadores. Delroy Lindo falou em nome do elenco. Felizmente, não conseguiu ler o teleponto e foi só emoção. Vi o filme no cinema, quando estreou. Reviu-o em casa recentemente e ainda gostei mais. Realização impecável, nomeadamente aquela cena em que os vários momentos musicais africanos e afro-americanos são convocados, praise the Lord! Quem viu, sabe. Quanto ao elenco está tudo dito. É uma história bem escrita e que tem muitas histórias lá dentro. As que estão a ser contadas e as que estão sub-entendidas. Veremos como corre dia 15 de março.
2 horas e 35 de cerimónia depois, fora o tapete escarlate, o que é que se me apraz dizer? Não tenho muito a acrescentar, até porque são quase 5 da manhã e daqui a pouco é dia de escola. Não fiquei muito impressionada com a Kristen Bell, caso ainda não tivessem percebido, mas acredito que a responsabilidade não seja só dela, porque a matéria-prima que lhe foi entregue era poucochinha. Acho The Pitt overrated, são por isso os prémios que mais me desiludiram, mas acho que estou um pouco sozinha nisto, portanto, é muito provável que esteja errada. Acima de tudo, viva os atores!